JB, Pais, p.A7
19 de Set de 2004
Pelo futuro da tribo
Índios cobram política educacional específica para garantir a propagação de sua cultura nas próximas gerações
Edna Simão
Brasília - O governo Luiz Inácio Lula da Silva tem o desafio de diminuir o número de 16 milhões de analfabetos com mais de 15 anos no país sem deixar de contemplar as minorias como índios e negros, que exigem políticas específicas. Segundo o secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (MEC), Ricardo Henriques, o governo já trabalha com uma política educacional que prioriza as populações pobres, os índios e negros por meio ações afirmativas.
- É preciso republicanizar o sistema de ensino - afirmou Henriques, acrescentando que, além de universalizar o acesso ao ensino, é essencial um choque de qualidade na educação.
As tribos indígenas acham que as iniciativas adotadas pelo governo, apesar de serem bem-intencionadas, não são suficientes e reivindicam uma política específica de educação para garantir a propagação de sua cultura para as gerações futuras. Assim como a qualificação maior de seus professores, as comunidades querem a criação de cursos universitários específicos para atender a necessidades indígenas. Atualmente, os índios, como os negros, têm cotas de vagas nas universidades. 0 problema, no entanto, é que as tribos, muitas vezes, não têm como financiar os estudos.
Estimativa da Fundação Nacional do índio (Funai) mostra que 1.800 índios estudam nas universidades ante 3,5 milhões de alunos do ensino superior brasileiro. No caso do ensino básico, o censo escolar de 2003 informou que o Brasil possui 147
mil estudantes indígenas em uma população de 410 mil índios. São 2.079 escolas situadas, em sua maioria em terras indígenas, erguidas com arquitetura tradicional da tribo e com professores índios.
0 secretário de Educação Continuada afirmou que o governo está procurando melhorar o nível do ensino fundamental e na qualificação dos sete mil professores indígenas de todo o país. 0 ministério da Educação também tem trabalhado na produção de material didáticos específico para os índios. Somente os livros escritos por professores indígenas são aprovados pelo ministério.
Segundo Júlio Makuxi, representante do Conselho Indígena de Roraima, a situação da educação nas aldeias em seu Estado tem melhorado. Ele pede, no entanto, o reconhecimento pelo Ministério da Educação da escola Agrotécnica de Surumum, de ensino médio e profissionalizante. Esta escola oferece cursos conforme as necessidades das tribos.
0 índio da tribo Guarani Kaiova, Alecio Soares Martins, leciona na aldeia TG'Yikue, localizada a 400Km de Campo Grande (MS). Para Martins, é necessário que o governo invista na qualificação dos professores indígenas para que as crianças das tribos não precisam se deslocar para as cidades.
Muitas escolas em aldeias indígenas lecionam até a 3' ou 4a série. Depois disso, os estudantes indígenas devem sair das tribos para as cidades. Nestes casos, conforme Martins, as crianças e adolescentes indígenas sofrem discriminação e preconceito. Para que isso não ocorra, é necessário que professores indígenas qualificados na tribo. Uma das reivindicações é a criação de cursos universitários diferenciados para os índios.
0 líder da tribo Guarani Kaiova, Silvio Paulo, ressaltou que o governo precisa ajudar financeiramente os estudantes indígenas nas universidades e oferecer cursos específicos. Por exemplo, um curso de advocacia onde o foco são os direitos dos índios.
Semana passada, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) realizou em Brasília um encontro com cerca de 200 lideranças indígenas de 16 povos de todo o Brasil para preparar a apresentação das demandas para o governo federal. No caso da educação, a principal reivindicação é a qualificação dos professores. Segundo a missionária do Cimi, Maria Regina Rodrigues, é preciso preparar uma política específica o índio para propagação da história das tribos, cultura e língua, como prevê a constituição brasileira.
Para Maria Regina, em vez de o governo enfatizar o ensino superior, precisa dar condições para que o índio chegue às universidades. Segundo ela, o ensino dos índios deve ser feito conforme o desejo da comunidade.
-Você tem escolas indígenas onde a formação profissional nem começou. Poucas aldeias conseguiram ter o ensino fundamental. É preciso garantir o ensino continuado.
ÍNDIOS da tribo guarani kaiova cobraram, em encontro com cerca de 200 lideranças indígenas, em Brasília, que o governo invista na qualificação de professores para trabalharem nas aldeias
JB, 19/09/2004, p. A7
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