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Pelas aguas da solidão

Correio Braziliense-Brasília-DF
Autor: Ana Beatriz Magno
05 de jun de 2001

Uma coisa é conhecer a Amazônia navegando ao longo dos grandes rios, as estradas da região. Outra coisa é abandonar o relativo conforto dos barcos de passageiros e embrenhar-se na floresta, nos furos e nos pequenos igarapés, caminhando ou no desconforto das voadeiras (lanchas velozes e abertas), dormindo onde a noite surpreende o viajante e comendo o que a natureza oferece. Foi assim que a Expedição Ajuricaba, patrocinada pela Fundação Nacional do Índio, enfrentou boa parte dos 5.274 km percorridos em 43 dias, na região do Alto Solimões e de seus afluentes Jutaí e Jandiatuba. Uma repórter e um fotógrafo do Correio acompanharam a expedição. Encontramos índios e ribeirinhos, garimpeiros e madeireiros, os esparsos ocupantes de uma área isolada e pouco habitada até para os padrões amazônicos. Comandado pelo sertanista Sydney Possuelo, o grupo pretendia mapear o trecho da Amazônia que abriga o maior número de malocas indígenas ainda desconhecidas do homem branco no território brasileiro. São cerca de 16, apenas avistadas de aviões que fizeram vôos de reconhecimento. Ou seja, pretendia comprovar que, no começo do século XXI, ainda há americanos nativos vivendo como nos tempos pré-colombianos, inteiramente isolados dos representantes da civilização ocidental que ocupam estas terras há 500 anos – de nós, os brasileiros. Ao contrário das históricas expedições do marechal Rondon e dos irmãos Villas-Boas, no século XX, a Expedição Ajuricaba não pretendia irromper nas malocas e fazer contato direto com os indígenas. Hoje, é doutrina corrente que é melhor deixar esses índios distantes do contato forçado com o branco o máximo que for possível. Nosso objetivo era mais modesto do que o daqueles desbravadores. Queríamos recolher indícios do que os antropólogos chamam de cultura material desses povos – artefatos e utensílios. Não conseguimos achar nenhum. No roteiro seguido, a Expedição Ajuricaba cruzou apenas com um grupo indígena semi-isolado, os tshon-djapá, que já tinham contatos esporádicos com comerciantes caboclos. Todas essas histórias, contamos em reportagens publicadas entre os dias 26 de março e 7 de maio (foram transmitidas do coração da mata por meio de um telefone via satélite). Neste caderno, vamos contar outra história, que testemunhamos enquanto percorríamos rios e matas: como é viver na mais deslumbrante e apavorante floresta sobre a face da terra. Pelas águas da solidão Numa terra de rios
Água na Amazônia pode ser vida ou morte. Índios e caboclos aprenderam a conhecer os sinais vitais de um rio pela cor. Ali a natureza é caprichosa. O feio guarda a vida; as águas belas são estéreis. Rios barrentos têm essa cor porque são cheios de sedimentos remexidos, cardápio de todo um mundo de seres. Rios negros são mais ácidos e servem pouco a pesca. Acima, a Expedição Ajuricaba cruza um igarapé numa pinguela de pau caído A ansiedade me empurrou para a janela do pequeno avião bimotor e, hipnotizada pela paisagem, inaugurei a caderneta de anotações: a Amazônia é um labirinto de rios bordado sobre um carpete verde. O cartão postal. Terminei de escrever e a aeromoça gorducha anunciou que em poucos minutos pousaríamos em Tabatinga, na fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru. Era a tarde de domingo, 25 de março, véspera do início da expedição. Já navegara antes pelo Amazonas, conhecia algumas cidades e aldeias penduradas em suas margens, mas jamais tivera a chance de me aventurar pela mata. De ver o cartão postal por dentro. Pela primeira vez acamparia na maior floresta tropical do mundo, atravessaria igarapés desconhecidos até da cartografia e conversaria com ribeirinhos e índios esquecidos numa terra de águas, a região do Alto Solimões. É o pedaço menos desbravado e por isso mais intacto de toda a Amazônia. Impossível recusar a oportunidade. Partimos em 26 de março, às 5h15, uma segunda-feira chuvosa. Primeiro, descemos o barrento Solimões, nome do Amazonas no trecho que vai de Tabatinga a Manaus. É um gigante cheio de braços. Tem 1.100 afluentes, a maior bacia hidrográfica do planeta. Percorre 6.668 quilômetros desde as nascentes nas montanhas andinas até a foz no Atlântico quando derrama no oceano 175 mil metros cúbicos de água por segundo. A correnteza humilha os caboclos. Remam em canoas de madeira, sempre coladas a uma das margens, como se tentassem alcançar a terra para transformá-la em corrimão. Ao retornar a Brasília, descobri que minhas impressões sobre a luta dos ribeirinhos contra a força do Solimões não eram nada originais. Em 1821, Johan Baptiste von Spix, um dos brilhantes naturalistas da Alemanha, esteve na Amazônia, cumpriu um roteiro muito parecido com o nosso, e enquanto tentava vencer o grande rio, escreveu: os índios, impotentes contra a correnteza, precisavam até agarrar-se às árvores caídas, tocando assim lentamente as canoas para adiante. Essas corredeiras impetuosas já fizeram naufragar muitas canoas no Solimões. Passados quase 200 anos, os naufrágios seguem sendo comuns. Afundam tanto as tradicionais canoas a remo quanto os barcos grandes, as famosas gaiolas, espécie de pau-de-arara amazônico, onde homens, mulheres e crianças se empoleiram em redes coloridas. Tivemos sorte. Enfrentamos tormentas, mas resistimos. Éramos 34 tripulantes, 31 homens e três mulheres. Com uma mala, duas mochilas, 14 blocos de notas, 23 canetas, embarquei no Etno, o mais moderno e menos agradável dos três barcos da frota. Não foi projetado para calores equatoriais. Tem estrutura de aço, esquenta de noite e ferve de dia. Há o ar-condicionado dos camarotes, mas o uso era racionado – os geradores devoram o óleo diesel. Combustível vale mais que ouro numa jornada tão longa. Nos 43 dias de viagem, paramos apenas num posto de gasolina. Fica na cidade de Jutaí e pertence à família do prefeito. Tem o monopólio do petróleo na região. Na noite de 27 de março, ancoramos em Jutaí, 22 mil habitantes, seis carros, nenhuma agência bancária, nenhum telefone celular, única parada urbana assinalada em todo o nosso roteiro. Compramos coca-cola, biscoito e maçãs e nos despedimos da civilização.

De bichos e caçadores

Coloquem uma muda de roupa na mochila. Vamos dormir no mato, avisou o comandante da expedição Sydney Possuelo. Explicou que trocaríamos os barcos grandes por três voadeiras e passaríamos 24 horas procurando garimpeiros ilegais nas águas do Mutum, um dos afluentes do Jutaí, já bem perto dos limites de terras indígenas. O garimpo não envenena apenas o meio ambiente. Envenena os índios, espalha doenças e cobiça. Garimpeiros são gente sem raízes. Não têm endereço, moram onde há ouro. Quando acaba vão embora. Andam armados, não têm nada a perder, não gostam da Funai, do Ibama, da Polícia Federal. Primeiro, fiquei em pânico. Depois entulhei a mochila com quatro camisetas, duas calças, uma rede de dormir e uma bateria de remédios – bombinha de asma, antialérgicos e analgésicos de variados calibres. Resultado, cometi o erro dos principiantes: transformei minha bagagem num estorvo. Assim, desengonçada e pesada, desabei sobre a voadeira, herdeira motorizada da canoa, veloz, porém desconfortável. Estrutura e bancos de alumínio, o céu como toldo. É evidente que choveu (durante toda a expedição, passamos 11 dias navegando em voadeiras. Choveu em 10). Depois de muito sofrimento, aprendi que há duas alternativas para enfrentar a chuva: ficar molhada com capas ou ficar molhada sem capas. Não há superfícies impermeáveis contra as tempestades amazônicas. Fora a roupa ensopada e o massacre da coluna, há o sofrimento do estômago. Viagens de voadeira parecem as de avião: a comida já embarca pronta. Em todos os trajetos foi sempre a mesma bóia: pernas, ainda com pelos, de porcos assados, pretas de tão esturricadas, guardadas num saco plástico com farinha. Cada passageiro arranca seu pedaço e passa o banquete adiante. Quem tiver sede, engole o rio numa caneca. Para os homens há vantagem anatômica em urinar. Para as mulheres, há primeiro os pudores, depois a falta absoluta deles. Tanto martírio para o corpo tem compensações para o olhar. A voadeira é o melhor camarote para assistir o desfile dos bichos. Dos saltitantes macacos de cheiro, dos preguiçosos jacarés que dormem nas praias de areia, dos parrudos tracajás, primos maiores das tartarugas. Varella, meu parceiro e fotógrafo, se irritou com os encantadores botos cor-de-rosa que saltavam na frente dos barcos segundos antes dele clicá-los. Se atrapalhou com os botos, mas se fartou com os pássaros. Vimos araras vermelhas, tamatiões de bico azul e pescoço amarelo, bandos de garças pequeninas chamadas maracanãs e ciumentos martins-pescador – parecem donos do rio, não admitem invasores, dão rasantes na frente dos barcos como se quisessem expulsar os intrusos. Os pássaros são os jardineiros da floresta. Comem frutinhas e espalham, com as fezes, sementes pela mata. Não faltam jardineiros na Amazônia: há cerca de mil espécies diferentes. Algumas famosas não vimos, mas flagramos o rastro. Caso do japim. Pendura bolsas de palha, os ninhos, nos galhos secos da beira do rio. É um imitador. Imita o canto de todos os pássaros. Dizem que arremeda até mugido de boi. Não dou fé, não tem boi por aqui, gracejou Luiz Viana, 28 anos, um dos mateiros da expedição, contratado pela Funai a R$ 1 mil, por dois meses de trabalho. Precioso trabalho. Graças a Luiz Viana consegui sobreviver no primeiro acampamento. Chegamos no começo da noite no que Luiz chama de uma ponta de terra. Era um imenso formigueiro travestido de barranco. Ali, praguejei.

De insetos e aflições

Subi atabalhoada, espanando piuns, malditos mosquitos, pretos, menores do que uma cabeça de alfinete. Andam em bandos, comem a pele na definição precisa do dicionário. Resignada, com o corpo empapuçado de inútil repelente, parti para montar o acampamento. Me desesperei. Olhava em volta e não imaginava como aquela teia de árvores e cipós se transformaria em algo habitável. Se transformou. É uma arte. Primeiro, os mateiros abrem, com facão, uma pequena clareira. Depois, dos galhos menores, fazem forquilhas e prendem as pontas, em forma de V, nos troncos das árvores. Parece trave de futebol. Agora é só armar as redes, colocar a cobertura de lona por cima e amarrar as cordinhas nos cipós, traduzia Luiz Viana, meu anjo da guarda. Não precisa ter medo. Não cai. Pode dormir tranqüila. Impossível dormir – tranqüila ou nervosa. Durante toda a viagem, passamos 13 noites acampados em pontos diferentes da mata. Foram 13 noites de insônia. Quando conseguia fechar o olho, chegava a chuva. Vencia a cobertura da rede e me encharcava. Havia também os barulhos. A selva vira ópera de noite. Sofri com a zoada das abelhas, com o grunhido dos porcos-do-mato e com o uivo dos macacos guaribas. Berrei de medo. Achei que era onça. Os guaribas são os primatas mais barulhentos das américas, me explicou depois o professor Márcio Ayres, maior macacólogo brasileiro. Estar cercado de bicho tem suas vantagens. Não se passa fome. Assim que chegávamos para acampar, os 12 índios que nos acompanhavam saíam para caçar com espingardas. Voltavam carregados com os animais ainda sangrando e amarrados nas costas. Abatiam porcos, macacos e pássaros grandes como o mutum e o jacu. No último acampamento, já em 4 de maio, pegaram duas pacas. Carne macia, sabor delicado. Para preparar a caça, sempre a mesma receita: assada, num jirau feito de tocos e protegido por um rabo de jacu, cobertura alta de palha de palmeira. Ali, o cozinheiro Antonio Melo de Matos fazia milagre. Transformava borra em café – com muito açúcar. Em dias de sorte, assava peixes moqueados, enrolados em folhas de bananeira. Uma das raras delícias. Acampamento é prisão. Não há para onde ir. A mata é fechada, não se pode sequer caminhar. Lida-se o tempo todo com a sobrevivência, nenhumas das rotinas essenciais do ser humano é feita com naturalidade. Toma-se banho de canecas, ninguém entra no rio porque há cobras dágua, arraias e candirus, minúsculos peixes que penetram nas partes íntimas. Transformar a floresta em banheiro é desgraça para as mulheres. Penei no primeiro dia. Enquanto me acocorava, um bando de insetos me atacou. Tive uma reação alérgica imediata, caí e descobri que o chão é terreno de inimigos – entendi porque índios e caboclos não se sentam, se acocoram. Evitam as cobras e os insetos. Não faltam exemplares – nem a zoologia sabe o total de tipos de insetos na Amazônia. Tem formigas vitaminadas, chamadas tucandeiras. Tem formigas minúsculas, chamadas de fogo. Encostam na pele e queimam. Há os besouros de capa dourada, mangangás que zumbem como marimbondos e mordem como carnívoros – suas picadas espalham hematomas. Pior mesmo, só a variada tropa de mosquitos. No amanhecer de 2 de abril, desmontamos acampamento e seguimos subindo o rio Mutum em busca dos garimpeiros. Encontramos. Numa balsa, com os rostos cobertos de pano, para se proteger dos piuns. Não estavam em terras indígenas. Seguimos viagem pelo Jutaí. A próxima parada era a mais esperada: os índios.

De índios e índias

Há que ser um pouco bicho para caçar. Os matis se enxarcam com suor de um sapo (foto acima) para atrair a caça. A mata não os fere. Mas bastou uma gripe no início dos anos 70, quando foram descobertos pelos brancos, para que mais da metade deles morressem

O mundo na floresta é divido entre dois povos: os matis (que quer dizer gente) e os nauá (que quer dizer o resto). O resto são índios com barrigas estufadas pelos vermes, com camisetas rasgadas e nús de tradições. A civilização tem o efeito de uma motosserra na floresta. Desenraíza os povos amazônicos O sertanista Claudio Villas-Boas dizia que os índios têm outra humanidade, contava, pendurado na proa do barco, o comandante Sydney Possuelo, na tarde de 4 de abril. Villas-Boas tinha razão. Doze índios nos acamoanhavam na expedição. Falavam pouco, nunca gritavam. Riam muito. Me fascinei pelos pequenos matis, baixinhos de tamanho e gigantes no tocar a vida. Viviam isolados até o final da década de 70, quando a civilização chegou e espalhou doenças. Mais de 2/3 da tribo morreu de gripe. Reagiram e voltaram a crescer: hoje são 230 pessoas, 50% crianças com menos de 11 anos. Zelam pelas tradições. Se fantasiam de maruim: cobrem a cara com uma máscara de cerâmica, escondem o corpo com barro e folhas e assustam quem não quer trabalhar. Batem nas crianças preguiçosas. Para atrair a caça, os matis preparam um ritual mágico. Pegam um sapo verde, de nome Kampu, amarram num cipó sobre brasas e colhem o suor com um graveto. Depois, espalham o líquido pelo corpo. É para chamar os bichos, explicou Quini Matis, o mais velho e mais enfeitado dos matis. Usa conchas de caramujo nas orelhas e no nariz. Coloca espinhos nas bochechas e risca a testa com urucum. Parece uma onça. Matis significa gente. Quem não é matis, é nauá. O resto. Achei à princípio um costume etnocêntrico, mas, no final da tarde de 6 de abril, percebi que o contato com os brancos pode transformar índios em nauá. Foi o que aconteceu com os kanamaris. Chegamos na aldeia kanamari às 16h10. Dezenas de garotos com as barrigas estufadas pelos vermes, vestidos com camisetas rasgadas, se amontoavam numa ladeira de lama. No terreiro central, uma mulher com um filhote de macaco mamando em seu peito, me pedia dinheiro, comida, roupa. Disse que se chamava Maria, era mulher do cacique Aru. Se não quiser dar, pode trocar. Te dou banana ou pupunha e você me dá sabão e roupa, sugeria. A índia mais velha da tribo, também desandou a suplicar presentes com as mãos. Puxava minha camisa, minha bolsa. Ela quer qualquer coisa, traduzia outra Maria, de outro cacique: o Dajmon Benedito. Há muitos caciques para os 180 kanamaris, distribuídos por 16 malocas, cobertas de palha, sem paredes nem cômodos – só uma sala para pendurar as redes. Também sou cacique. Também mando. Sou igual ao governo. Igual ao prefeito dos brancos, vangloriava-se Djamon Benedito. Djamon imita a desgraça de nossos governos. Não cuida sequer da saúde de seu povo. A Funai nunca aparece. Há doenças de toda sorte, bebês com pneumonia, crianças com catapora. A situação é triste, dizia a médica da expedição, Flávia de Jesus Padilha, ao examinar um bebê de seis meses, com peso de dois. Nossa visita provocou alvoroço e temo que tenha espalhado falsas esperanças de dias melhores. Os índios ficaram hipnotizados pelas fotos que Possuelo tirou com sua máquina polaroid. Gosto de máquinas. Já vi um helicóptero da Polícia Federal, repetia um garoto, um helicóptero tatuado na testa, revelando os efeitos da mistura do que há de pior no mundo civilizado com a inocência indígena. Mistura antiga para os kanamaris. Têm contato com brancos desde o final do século XIX, quando serviam aos seringueiros. Conheceram a escravidão e agora repetem a fórmula com seus vizinhos, os tshon-djapá, um grupo de 25 pessoas, que vive em regime servil aos kanamaris, como descobrimos na manhã seguinte.

De escravos e senhores

De longe, parecia uma vila de ribeirinhos: mulheres encurvadas, carregando cestos cheios de pupunhas vermelhas. Pés e casas dentro dágua – cinco palafitas cobertas de palha. De perto, eram 25 índios tshon-djapá, escravos dos kanamaris, vendo pela primeira vez um grupo de brancos. Se cutucavam, nos pegavam e cochichavam numa língua cheia de is. Não sabiam o que era Funai. Se assustaram com as câmeras. De brancos, só conheciam um mulato, Pedro Ferreira, ribeirinho que vez ou outra vai à aldeia. Pega jabutis, entrega sabão. Moram perto das cabeceiras do rio Jutaí, a 15 quilômetros dos kanamari. Estão ali desde 1994, quando trocaram os dias sem roupa, sem sal, sem espingardas da aldeia que habitavam no meio da mata pela rotina de servidão imposta pelos vizinhos. São obrigados a caçar, a plantar mandioca, milho e banana. Os homens recebem camisetas e calções velhos. As mulheres, calcinhas e sutiãs rasgados. Perderam a liberdade e a autonomia política. Estão proibidos de ter cacique próprio. Agora o cacique é kanamari. Eu que mando neles, eu que dou trabalho para eles, eu que fui buscar eles no mato, eu que estou ensinando português para eles, vangloriava-se Aru, chefe kanamari, uma espécie de golpista de plantão. Os subordinados o detestam. Ele tirou a gente do mato, mas não contou que era para trabalhar, reclamava Sabá, o cacique deposto que já arrisca algumas palavras em português. Kanamari não é amigo. Não dá nada para tshon-djapá. Só ganhamos roupa velha. Ganham também doença. Sofrem com a torná, a gripe levada pelos kanamaris. Nos últimos três anos, dois homens e uma mulher morreram de gripe na aldeia. São um povo explorado, mas, ao contrário de seus exploradores, mantêm alguns costumes. As mulheres pintam o rosto com tinta vermelha, o peijarki, preparado com urucum. Os homens usam uma coroa de palha na cabeça, o kitá. No tempo de seca, fazem festa no terreiro. Dançam vestidos com o uakoamá, uma roupa de palha que cobre o corpo da cabeça aos tornozelos. Dançaram e cantaram para nós. Repetiam Tê, Uhê, Iê, Mondê. Significa eu já bebi muito caximã. Nunca acaba. Tem muito caximã para beber. Eu vou beber. O caximã é uma cachaça de mandioca, sem gosto, servida quente, em cuias, nos dias de festa. Experimentei e não gostei. Gostei mesmo foi de conversar com as mulheres, sentadas no chão, junto com cachorros, restos de banana e crianças peladas. Os partos são ali. As índias mais velhas acompanham as mais novas. Cortam o cordão umbilical com lanças, penteiam os cabelos com dentes de piranha. Casam depois da primeira menstruação, a ujarki. Só usam calcinhas quando estão menstruadas. A gente dá a calcinha para elas, explicou Tchumi, uma índia kanamari, casada com um tshon-djapá, que fez às vezes de minha intérprete. Os casamentos entre as duas tribos já são comuns. Têm quatro casais misturados. É uma mistura ruim para os tshon-djapá. Complica futuros rompimentos, pode eternizar a relação de submissão. Aquela era a primeira vez que os funcionários da Funai encontravam os tshon-djapá. Já sabiam de sua existência, mas jamais tinham ido até a aldeia. A política da Funai é de não fazer contatos com povos isolados. Só faz se percebe riscos para os índios. Graças à imagens aéreas, os indigenistas calculam que existem cerca de 40 aldeias na Amazônia vivendo como os tshon-djapá de oito anos atrás: sem roupa, sem sal e com liberdade. Pelas águas da solidão De lendas e costumes

A visita a seu Eleno me confundiu. Passei a noite me perguntando se é possível preservar a floresta sem desgraçar os ribeirinhos que vivem dela. Pertencem a uma estirpe de brasileiros condenados pela mais típica brasilidade: a mistura. São caboclos, filhos de brancos e netos de índios, porém não recebem qualquer atenção das instituições que cuidam de brancos nem das que tratam de índios. Ao contrário. Sofrem o desprezo da Funai, a perseguição do Ibama e a indiferença de todos os governos: municipal, estadual e federal. O esquecimento é tanto que até o típico desfile de políticos em épocas de campanha é raro por ali. Nunca tive título, nunca tive documento, lamentou dona Raimunda Soares, a vizinha mais próxima de seu Eleno. Mora há sete horas dele, Curuena abaixo. Teve 23 filhos, todos em casa, nenhum alfabetizado. Tive duas barrigadas de gêmeos. Duas barrigadas em tempos diferentes. Filha de um velho seringueiro, Dona Raimunda, que perdeu a conta dos netos e dos anos, não sabe a idade. Aqui a gente vai esquecendo as idéias. Lembra só da vazieza da casa, diz e mostra o patrimônio, idêntico a todas as outras casas de ribeirinho, por sua vez, parecidas com as malocas de índio. A diferença está apenas nas paredes – índios não têm. São casas de água. Se equilibram sobre as margens alagadas dos rios. A escada termina nas canoas e começa nas salas. Nenhum móvel, só bancos encostados nas paredes. Atrás, ficam o puxado com a cozinha, vazia de eletrodomésticos e cheia de moringas de água. Não filtram, apenas recolhem do rio. Do lado de fora, tem a horta aquática: salsinha e cebolinha cultivadas em canoas. Porcas e galinhas também. O sono dos ribeirinhos também imita os antepassados índios. Dormem em redes, tecidas da palha do tucum, uma palmeira. Marido e mulher nunca passam a noite na mesma rede. Os homens dormem sozinhos, as mulheres se enroscam nos filhos. Tem filho que eu tenho que deixar dormindo embaixo da rede porque não tem mais lugar. É uma tristeza, reclamou dona Conceição Dias Ribeiro, sete filhos, moradora do rio Jutaí. A família Ribeiro é o retrato dos costumes ribeirinhos. As mulheres acreditam na lenda do boto. Acham que o bicho, meio peixe, meio mamífero, é na verdade uma homem encantado. Sempre o rio comandando a vida. Dos adultos e das crianças. Na terra de águas, nomes de águas. Faltam padres, os pais batizam os filhos derramando uma caneca de rio sobre a testa dos bebês. Abençoam a crianças, mas só escolhem o nome quando o padre passa. Antes, os bebês têm nomes de águas. Todas as meninas são Maria. Todos os meninos Manoel. Estou esperando o padre. Tenho um neto com três meses e um filho meu com quatro anos. Os dois só têm nome de água. É que o padre demora a passar. Às vezes passa só de cinco em cinco anos, explicou dona Conceição, toda coberta de roupas, meias cozidas com as próprias mãos, camisas de manda comprida, sai por cima da calça. Passamos duas vezes pela casa de dona Conceição. Uma na subida do rio, outra na descida. Começamos a descer em 17 de abril, quando a expedição se dividiu. Uma equipe fez a travessia do Curuena até o Jandiatuba, rio a oeste do Jutaí, a pé. Caminharam 23,5 quilômetros, não cruzaram com índios isolados, não cruzaram com ninguém. Varella não aguentou a caminhada, voltei com ele e integramos a equipe que fez o trajeto de barco. Descemos o Jutaí, voltamos ao Solimões e fomos o encontrar o restante da equipe no Jandiatuba: o lugar mais esquecido do mundo. Da floresta amazônica

A floresta tem dono: a curupira. Protege os bichos, despista os caçadores com os pés: são virados para trás. Tem encantos múltiplos, se transforma em qualquer animal, em qualquer pessoa. Tem alma de guri e gosta de brincar com meninos, costuma levá-los para a floresta, às vezes não devolve. Há cinco meses, meu neto de três anos estava brincando perto da mata e de repente sumiu. Ficou desaparecido cinco dias. Montamos patrulha de 30 homens, víamos os rastros da curupira, o lugar em que ela dormia junto com o menino, mas não encontrávamos ninguém. Éramos todos mateiros experientes, desabafava Valdeci Rios, apelido Soldado, nascido e criado na floresta, mateiro mais competente de nossa expedição. Nas caminhadas, era ele o primeiro da fila, o homem que abria a selva. Quando o neto se perdeu, a experiência não lhe valeu. Ficou desesperado. Procurei em todos os lugares. Dia e noite. Sempre me seguia um casal de passarinhos. Era meu neto e a Curupira. Ela se transforma em qualquer coisa. Só consegui achar o garoto numa quinta-feira. Quinta-feira é o dia que a curupira sai para fazer negócios, para conversar com os bichos e não tem tempo de cuidar de pessoas. O menino estava muito longe, a 20 quilômetros de casa, contou. O neto não tinha fome nem sede. Não chorava. Só dizia que estava brincando com a tia, que a tia deu de comer. Era a curupira fantasiada de tia. Ela foi boa para ele. Deu comida, botou para dormir. Um menino de três anos não consegue sobreviver sozinho na mata, dizia, sentado na cozinha do acampamento que ajudou a erguer, na margem esquerda do rio Jandiatuba, na última fase da expedição quando as duas equipes se reencontraram, na tarde de 30 de abril. No dia seguinte, caminhamos seis horas. Descobri que a maior floresta do mundo é feita de três tipos de troncos: os que têm formigas, os que estão podres e os que têm espinhos. Segurei em todos. Caminhar na mata é se equilibrar em pinguelas, atravessar igarapés, subir e descer barrancos. Anda-se em fila, os mais rápidos na frente, os mais lentos atrás – dizem os caboclos que a curupira pega quem fica por último. Sobrevi à curupira, mas fiquei exausta. A floresta suga. Parece que alimenta seu gigantismo arrancando a força dos homens. Sofrem tanto para conviver com a natureza, que terminam por mitificá-la. Inventam mitos e lendas. Povoam a selva de seres mais vivos do que a própria selva. O que é mais importante na mata é o que a gente não vê. O que está dentro das árvores, dos frutos, das sementes, ensinou Iracema Pereira, 38 anos, bisneta de índio, mulher que transforma a selva em farmácia. É curandeira. Trata hepatite com chá de raíz de açaí misturada com raíz de manga. Quando alguém está de urina amarela, pego a raiz do açaí, bato e fervo junto com a raiz de manga. É ótimo cura hepatites das bravas, diz Iracema, mãe de cinco filhos. Teve todos em casa. Para anemia, o melhor é uma folha, a coerama Dona Iracema é a Amazônia que deu certo. Que combina culturas. Que enfrenta a imensidão da maior floresta do mundo com humildade e criatividade – a casa de dona Iracema é cheia de enfeites: feitos de revista e de coquinhos. Aqui só tem dois jeitos de aprender: com a mãe ou com a Natureza, ensina a mulher ao lado da mãe, dona Maria, 64 anos. Até para parir minha mãe e a natureza foram minhas professoras. Depois de 43 dias, muitas lições, de Amazônia e de vida, chegamos em Tabatinga, na noite de 7 de maio. Fim da Expedição pelas águas da solidão.

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