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Peixes contaminados

O Globo, Ciência, p. 32
26 de Ago de 2011

Peixes contaminados
Levantamento revela altos níveis de metais tóxicos em pescados no Rio

Cesar Baima
cesar.baima@oglobo.com.br

Os olhos podem não ver, mas o corpo certamente sentirá seu peso. Levantamento realizado pela bióloga Rachel Ann Hauser Davis, aluna de doutorado em Química Analítica do Centro Técnico Científico da PUC-Rio (CTC/PUCRio), revela que alguns dos peixes mais comuns pescados, e consumidos, em diversos locais do Rio apresentam altos níveis de contaminação por metais pesados. Acumulados no organismo, estes elementos podem provocar sérios problemas de saúde, como câncer, danos celulares, mal de Parkinson, impotência, alucinações, insônia, anorexia e dificuldades de memória, entre outros.
Rachel recolheu amostras de mais de cem tainhas e tilápias capturadas nas lagoas Rodrigo de Freitas, na Zona Sul do Rio; do Ipiranga, em Magé; de Itaipu, em Niterói; de Jacarepaguá, na Zona Oeste; e no mar, em frente à Praia de Copacabana, além de exemplares vendidos em feiras e supermercados. A bióloga mediu a presença de cromo, cádmio, manganês, níquel, cobre, zinco e chumbo nos peixes, constatando que muitos deles tinham níveis de contaminação pelos três primeiros metais muito além do limite recomendado.
- Em mais de 50% dos peixes os limites ficaram bem acima do recomendável - conta ela. - O mais preocupante é que a população não sabe que isso está acontecendo. Nem o consumidor final, nem o feirante nem o pescador têm a mínima idéia do problema.
No levantamento mais completo, feito em Ipiranga e Itaipu - e que será apresentado no 37 Colóquio Internacional de Espectroscopia, promovido pelo CTC-PUC-Rio a partir de domingo em Búzios -, Rachel verificou que 43% das tainhas capturadas em Itaipu e 23% das pescadas em Ipiranga tinham níveis de cromo acima do limite estabelecido pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que é de 0,1 parte por milhão (ppm), sendo que em alguns casos eles chegavam a 2,5 ppm.
Já para o cádmio, a proporção de peixes contaminados além do limite de 0,05 ppm foi bem menor - 10% em Itaipu e 5% em Ipiranga, mas alcançando concentrações de até 10 ppm. Para o manganês, cujo limite é de 1 ppm, as tainhas de Itaipu tiveram o pior resultado da pesquisa, com 79% deles com níveis do elemento bem acima do recomendado, chegando a 3,7 ppm. A grande contaminação dos peixes de Itaipu surpreendeu
a bióloga.
- Em Ipiranga isso até era esperado, em razão da grande poluição da Baía de Guanabara - diz. - Mas o mais preocupante é ver estes dados de Itaipu, pois é lá que muita gente vai para comprar peixe, acreditando que são de águas limpas. Para os outros locais, Rachel admite que a quantidade de amostras avaliadas não é estatisticamente significativa. Ainda assim, uma grande proporção dos peixes apresentou problemas. Na Lagoa Rodrigo de Freitas, duas das 15 tilápias tinham mais cromo que o recomendado, enquanto três superavam o limite para cádmio. E das dez tainhas retiradas do mar em Copacabana, três tinham níveis altos de cromo, de até 6 ppm.
- Embora sejam poucos peixes, a contaminação é alta - destaca. - É um forte sinal de alerta de que é grande a contaminação por metais pesados na costa do estado do Rio.
Segundo o químico Reinaldo Calixto de Campos, do CTC/PUC-Rio e orientador da pesquisa de Rachel, as fontes de contaminação são variadas. Ele lembra que a Baía de Guanabara recebe efluentes de centenas e até milhares de indústrias no seu entorno, além de esgoto não tratado, lixo jogado diretamente nela e é vítima de repetidos derrames de óleo.
- Esta poluição vem se acumulando ao longo de anos na baía e no seu entorno, pois há também uma troca constante de água com o oceano - comenta. - Tudo isso se junta para conspirar contra a qualidade de vida da população do Rio.
'A luz amarela está acesa', diz cientista
Para os cientistas, no entanto, os altos níveis de contaminação não devem ser motivo de alarme. Segundo eles, os dados devem ser usados para orientar ações de prevenção e monitoramento ambiental, além de educação e conscientização tanto de pescadores quanto de consumidores, que não devem capturar e comprar, respectivamente, peixes em áreas onde é sabido que a poluição é grande.
- Além de metal acima do limite, encontrei peixes infestados com tumores e parasitas - conta Rachel. - Esses são indícios de contaminação aos quais pescadores e consumidores devem estar atentos.
Calixto, por sua vez, cobra ações integradas dos órgãos estaduais:
- Temos que ter cuidado para não sermos alarmistas, mas a luz amarela está acesa. Temos que criar sistemas de monitoramento de longo prazo para poder identificar as fontes de contaminação e tomar medidas para enfrentar o problema.

Saiba mais sobre o estudo da PUC
- Por que foram escolhidas essas
espécies? Por serem comuns e normalmente pescadas nos locais estudados.

- Que metais foram encontrados? Foi constatada a contaminação por cromo, cádmio, manganês, níquel, cobre, zinco e chumbo, com níveis acima dos recomendados apenas para o três primeiros.

- O que eles provocam? Os metais pesados se acumulam no organismo e, dependendo da quantidade, podem provocar diversos problemas de saúde. Entre eles, danos celulares, alterações cromossômicas e no DNA, Parkinson, impotência, alucinações, insônia e anorexia.

- O que a população deve fazer? Não se deve consumir peixes capturados em locais de alta concentração de poluentes, como a Baía de Guanabara e a Lagoa Rodrigo de Freitas.

O Globo, 26/08/2011, Ciência, p. 32

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