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Paz e cuidado da natureza

OESP, Espaço Aberto, p. A2
Autor: SCHERER, Dom Odilo P.
09 de Jan de 2010

Paz e cuidado da natureza

Dom Odilo P. Scherer

Há 73 anos, no ano-novo, o papa envia uma mensagem sobre a paz aos chefes das nações, das igrejas, das comunidades religiosas e a todo o povo. A Igreja Católica celebra o Dia Mundial da Paz justamente no dia de ano-novo. Desta vez, a mensagem do papa Bento XVI não podia ser mais atual e oportuna: "Se queres a paz, preserva a criação." Na compreensão cristã, "criação" refere-se ao conjunto da natureza, do cosmos e de tudo aquilo que não é o próprio Deus.

A recente Conferência sobre o Clima, em Copenhague, bem que poderia ter trazido mais esperança para o futuro da vida no planeta azul, nossa casa comum; ficou aquém do esperado e deixou evidentes as dificuldades para a tomada das decisões necessárias. Até quando? Vamos esperar que o chão comece a queimar debaixo de nossos pés? Enquanto os responsáveis das nações raciocinarem com base em vantagens políticas, econômicas e estratégicas, o terreno continuará movediço, não oferecendo base comum para as decisões adequadas e urgentes. E a situação vai piorando.

Bento XVI, como fizera seu predecessor, destaca a dimensão eminentemente ética da crise ecológica. De fato, João Paulo II, na sua mensagem para o dia 1o de janeiro de 1990, já havia abordado o tema - "paz com Deus criador, paz com toda a criação" -, apelando para uma nova solidariedade como exigência moral e base para as soluções da crise ecológica, cujos efeitos incidirão de maneira mais direta e pesada sobre os pobres do mundo. E as questões ambientais já começam a ter profundo impacto no exercício dos direitos humanos, como o direito à vida, à alimentação, à saúde, à moradia digna, ao trabalho, ao desenvolvimento. Como atender a tudo isso sem causar ulteriores danos ao equilíbrio ambiental?

A crise ecológica não vem sozinha, mas acompanha uma crise antropológica, cultural e moral. Como entender o ser humano, enquanto parte deste mundo? E seus valores mais importantes? E suas relações com a natureza? Bento XVI aponta para a necessária revisão do modelo de desenvolvimento que hoje orienta as políticas econômicas e as relações do homem com a natureza; também o conceito das relações do homem com seus semelhantes. Continuaremos a ver a natureza como um depósito de riquezas e recursos prontos para serem apropriados pelo homem de maneira gulosa, deixando atrás de si destruição e lixo e fumaça? Deveríamos, acima de tudo, compreender-nos como administradores e zeladores de um patrimônio que está, sim, à nossa disposição, mas não só para nós: também para os outros, no presente e no futuro. "É preciso redescobrir aqueles valores que constituem o alicerce firme sobre o qual se pode construir um futuro melhor para todos" (no 5). E o valor ético a ser destacado, e que perpassa toda a Mensagem, é o da solidariedade.

Muito da crise ecológica existe porque o homem tende a se considerar senhor absoluto do mundo, não reconhecendo o desígnio de Deus; o mundo, que não é obra do acaso, nem de um destino cego. As leis da natureza são sábias e revelam o desígnio do Criador. O ser humano recebeu o encargo de "cultivar e guardar a terra" (cf. Gn 2,15), não de maneira arbitrária, tiranizando-a e submetendo-a aos seus desejos desordenados. "O homem tem o dever de exercer um governo responsável sobre a criação, preservando-a e cultivando-a" (no 6). Infelizmente, muitos se recusam a exercer sobre o ambiente um governo responsável e as consequências não se fazem esperar. Quando a natureza não é respeitada, ela se revolta contra seu agressor.

O papa recorda um princípio basilar e caro ao ensino social da Igreja: o destino universal dos bens da criação. A Terra e a natureza pertencem à humanidade inteira e seu uso privado não deve comprometer o bem comum. O atual ritmo de exploração levanta sérias preocupações sobre a disponibilidade de alguns recursos naturais essenciais, não só para a geração presente, mas ainda mais para as futuras. Que mundo deixaremos como herança para os que virão depois de nós? Por isso, diz o papa, a atividade econômica deve respeitar mais o ambiente e cada decisão econômica tem consequências de caráter moral. A exploração dos recursos deve sempre levar em conta a sua preservação sustentável e também prever os custos ambientais e sociais, a serem contabilizados em toda atividade econômica. A comunidade internacional e os governos nacionais devem tutelar, mediante instrumentos jurídicos acertados, o ambiente, os recursos naturais e o clima, tendo bem em conta a solidariedade para com as populações mais pobres. Atenção especial deve ser dada à solidariedade entre as gerações, pois os custos do mau uso da natureza não devem ser debitados de maneira irresponsável na conta das gerações futuras (cf. no 6-7). Seremos questionados e cobrados pelos futuros ocupantes desta casa.

Mudança cultural e recuperação moral na relação do homem com a natureza também requerem modos de vida mais sóbrios e a revisão de estilos de vida baseados no consumismo predador contra a natureza e no acúmulo voraz de bens. Não é difícil perceber que tudo isso tem que ver com a paz. Os projetos prepotentes de domínio sobre os recursos naturais estão na origem de guerras e tensões entre povos; a persistir a atual degradação ambiental, são previsíveis sérias disputas futuras, migrações em massa, convulsões sociais, fome e miséria de muitos. Quem duvida que o futuro da paz depende do cuidado da natureza? E esta é uma tarefa comum de toda a família humana; obra de uma solidariedade sempre mais global.

Dom Odilo P. Scherer é cardeal-arcebispo de São Paulo

OESP, 09/01/2010, Espaço Aberto, p. A2

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