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Patrimônio sob risco

CB, Brasil, p. 9
11 de Jul de 2007

Patrimônio sob risco
Inpe revela aumento de 50% nos focos de queimada na Amazônia no primeiro semestre deste ano. Dados são coletados por sistema de satélites, cuja eficiência será alvo de debates na reunião da SBPC

Ulisses Campbell
Da equipe do Correio

Relatório do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revela que os focos de queimadas na Floresta Amazônica aumentaram 50% no primeiro semestre de 2007 em comparação ao mesmo período do ano passado. Foram 28.427 pontos de incêndio neste ano, contra 14.930 nos seis primeiros meses de 2006. Esses focos são locais onde os satélites identificam zonas de calor, que podem virar grandes incêndios. O monitoramento feito no espaço pode evitar que esses pontos de fogo se transformem em grandes incêndios. Dados do Inpe também apontam que, em 2006, 13,1 km² de floresta nativa foram desmatados. Nos três últimos anos, a área devastada soma 58 mil km².

Os dados precisos que revelam a destruição da Amazônia, seja por fogo ou motosserra, vêm do espaço. Três satélites mantidos nos ares pelo governo federal captam milhares de imagens e informações sobre como e onde a floresta vem sendo dizimada. Outro dado fornecido pelos satélites revelam que pelo menos 18% da área da Amazônia que hoje é mata deve virar uma vegetação rala, semelhante ao cerrado, num processo conhecido como savanização.

Mas, apesar de o Brasil ter um dos melhores sistemas de monitoramento por satélites do mundo, ainda há deficiência na formação de profissionais para atuar nesse ramo. Quando se fala na proteção do espaço aéreo da Amazônia, há uma deficiência que autoridades do governo preferem não discutir.

Na 59ª reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), aberta no início da semana, em Belém, cientistas vão debater a cobertura de satélites do país, em especial do espaço aéreo da Amazônia. Um grupo de pesquisadores do Inpe, liderado pelo presidente da instituição, Gilberto Câmara, e por especialistas da Associação Brasileira de Direito Aeronáutico e Espacial (SBDA), vai mostrar quantos satélites estão em órbita no espaço a serviço do governo brasileiro e que tipo de trabalho eles realizam. "Na mesa de discussão, faremos um levantamento das atividade desses satélites e das tecnologias espaciais disponíveis", antecipa José Monserrat Filho, coordenador SBDA.

Os satélites que orbitam sobre a Amazônia têm múltiplas funções. Prevêem chuvas, apontam queimadas, denunciam ocupação irregular do solo, identificam riquezas minerais, mas falham muito ao monitorar o espaço aéreo. São deficientes inclusive quando satélites espiões invadem o céu brasileiro para obter informações sigilosas. Suspeita-se, por exemplo, que plantadores de laranjas norte-americanos já tenham lançado mão de tecnologia espacial para espionar agricultores brasileiros, que produzem a fruta de maneira mais competitiva. "Na SBPC, vamos avaliar se os sistemas de satélites são eficientes e as formas de aprimorá-los", atesta Monserrat.

Quanto à proteção do espaço aéreo, os especialistas são unânimes em afirmar que o sistema de controle de aeronaves é ultrapassado. "Falta investimento. O ideal seria que os vôos fossem controlados por satélites", defende Monserrat. Como a polêmica envolve militares, a SBPC não se aprofundará no tema.

Para o coordenador do Programa Amazônia do Inpe, Dalton Morisson, o Brasil está avançado tecnologicamente quando se trata do uso de satélites. Mas ele reconhece que os sistemas espaciais podem melhorar, principalmente quando o assunto é recursos humanos. "Precisamos melhorar o patrulhamento do espaço aéreo e incrementar as escolas que formam especialistas na área", ressalta.

Atualmente, há nove satélites brasileiros em órbita. Seis são de empresas privadas e três estão a serviço da União. Em 2008, o Inpe tentará por em órbita mais um satélite genuinamente nacional. Há muita expectativa em torno desse lançamento porque, na última tentativa, em 2003, o foguete VLS (veículo lançador de satélite) explodiu, matando 21 pessoas.

Fonte de pesquisa

A 59ª Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) reunirá até sexta-feira representantes de todas as áreas de pesquisa. O encontro tem o objetivo de defender o avanço científico e o desenvolvimento educacional e cultural do país. A reunião anual atrai cerca de 15 mil pessoas, entre pesquisadores, estudantes e representantes de 83 sociedades e associações científicas. O tema deste ano do encontro será Amazônia: Desafio Nacional. "Nós temos a chance de encontrar na Amazônia uma fonte inesgotável de conhecimentos novos", afirma o presidente da entidade, Ennio Candotti. "A Amazônia tem que ser estudada diretamente nos seus laboratórios naturais", completa.

Na opinião de Candotti, o governo deveria ter um projeto nacional para a região, que "atraia recursos humanos e amplie a presença de empresas inovadoras, comprometidas com o desenvolvimento sustentável". "Temos discutido o modelo amazônico de desenvolvimento, com alternativas econômicas e tecnológicas apropriadas para a região".

Além da Amazônia, o encontro irá tratar de temas como aquecimento global, neurociência, universo eterno e big-bang, febre amarela, desenvolvimento na China, diversidade vegetal e agricultura sustentável, dermatologia tropical e terapias gênicas.

Em relação ao sistema de satélites de monitoramento da Amazônia, foi formado um grupo de trabalho. Os pesquisadores tentarão aprofundar os debates sobre sensoriamento remoto, meteorologia, navegação e localização.

CB, 11/07/2007, Brasil, p. 9

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