OESP, Vida, p.A16
21 de Abr de 2005
Parque onde tico-tico canta para jandaia já atrai milhares
Maior viveiro de aves do País, na Região dos Lagos fluminense, recebeu, desde dezembro, 8 mil visitantes
Passaredo, de Chico Buarque e Francis Hime, é a exata tradução do maior viveiro de aves do País, localizado em Rio das Ostras, na Região do Lagos fluminense. Mas só na variedade de espécies contida na letra. Pois lá, apesar de ter pintassilgo, tiê-sangue, sanhaço, tico-tico, patativa, nenhum precisa se esconder ou ficar de "bico calado" porque "o homem vem aí", como diz a canção. No espaço de 40 mil metros cúbicos, a cantoria dos passarinhos corre solta, já que os caçadores passam longe, e quem chega só tem um objetivo: apreciar a riqueza da fauna.
Maior atração do Parque Natural dos Pássaros, unidade de conservação ambiental inaugurada pela prefeitura em dezembro, o viveiro tem dimensões grandiosas: 20 metros de altura, 80 de comprimento e 30 de largura. Coberto com tela de aço galvanizado e revestido com PVC verde, abriga 180 pássaros de 40 espécies, mas tem capacidade para quantidade quase três vezes maior.
Todas elas vêm de criatórios ou centros de triagem do Ibama, onde ficam os animais capturados ilegalmente, e encontram no novo ambiente uma área semelhante ao hábitat natural, com muito verde e um lago artificial, reproduzindo vários ecossistemas da mata atlântica. Há pássaros pequeninos, do tamanho do indicador, e grandes como uma galinha. Tem ainda os coloridos e os de um só tom. E existem os mais amigáveis, como as jandaias, e os ariscos, como o tiê-sangue. Cada um traz consigo uma anilha, pequeno anel de metal contendo informações como a espécie e a origem.
Responsável pelo plano de manejo do viveiro, Flávio Medeiros de Britto Pereira observa que as aves já provaram estar à vontade no local. "O fato de terem procriado, e em um espaço tão curto de tempo, é o maior indicativo disso. Espécies difíceis de se reproduzir em cativeiro, como o galo-de-campina, já têm filhotes", diz o biólogo, da Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza, ONG que desenvolveu o projeto do parque e selecionou os exemplares. "Não entram aqui espécies de comportamento agressivo e predadoras, pois precisamos manter um convívio harmonioso."
Uma tela separa os visitantes das aves, já que o Ibama ainda não deu a licença ambiental para que se possa circular entre os pássaros. Apesar da limitação, mais de 8 mil pessoas passaram pelo local desde dezembro. "É importante dar um tempo maior para a adaptação das aves, esperar que toda a vegetação do viveiro cresça. Só aí vamos permitir que as pessoas entrem", explica o engenheiro agrônomo Marcelo Valinhas, da Secretaria de Meio Ambiente de Rio das Ostras.
Mas, mesmo com a licença, não será possível que levas de pessoas entrem no viveiro de uma só vez. "Isto não é um zoológico. É uma unidade de conservação criacionista. Por isso, é preciso haver um controle rigoroso. Serão apenas cinco pessoas por vez circulando no local", explica o biólogo, chamando a atenção para a maneira correta de associar turismo e proteção do meio ambiente. "Precisamos tomar muito cuidado. Aqui estão espécies raras, como o araçari-banana, o furriel e o bico-de-pimenta", diz. As visitas são acompanhadas por monitores.
Companhia
Quando for possível ultrapassar o portão do viveiro, os visitantes, provavelmente, serão recebidos pelo Juca. Foi ele quem saudou repórter e fotógrafo do Estado com uma intimidade surpreendente, pousando nos ombros e nos dedos e bicando lábios, num arremedo de beijo. Curioso, o corrupião acompanhou a visita. "Ele chegou aqui no segundo dia. Percebi de cara que era adestrado. Fica junto da gente e quer abrir tudo o que vê com o bico", conta o técnico agrícola Marcelo Pinheiro Ferreira, de 36 anos, tratador das aves.
Os pássaros, que só entram no viveiro após quarentena em um hospital veterinário, são alimentados no início da manhã e no fim da tarde. "Além de frutas, eles comem ração e insetos, larvas e vermes, criados num biotério aqui do lado", explica o tratador, que já batizou outros pássaros, além do Juca. "Tem a Catarina, o Faísca, a Nazaré, a Joaquina.. Todo dia eu aprendo uma coisa diferente. Já descobri que a araçari, por exemplo, é como criança mimada. Só come fruta descascada e se eu cortar em pedaços bem pequenos."
O parque tem também duas trilhas ecológicas, onde é possível topar com lagartos, preás e até alguma jibóia. Há, ainda, duas unidades de pesquisa, um centro de visitantes e um espaço com uma biblioteca virtual. "As áreas de estudo da flora e da fauna vão ser abertas para receber pesquisadores. A região aqui é muito rica, pois são quase 6,5 hectares de matas de restinga, remanescentes da mata atlântica", destaca o geógrafo Ronaldo Nunes, coordenador do Núcleo de Educação Ambiental.
População pediu transformação da área, que já foi lixão
RIQUEZAS: O terreno de 6,5 hectares onde foi construído o Parque Natural dos Pássaros já serviu de lixão e, mais recentemente, estava na mira de especuladores imobiliários. Receosos, os moradores do entorno pediram ajuda da prefeitura de Rio das Ostras, que acabou transformando o lugar em um espaço promissor para o turismo ecológico e a proteção da fauna Além do espaço dedicado às aves, o município, de 45 mil habitantes, tem hoje três unidades de conservação ambiental. "De toda a região, o que sobrou da área de restinga da mata atlântica está aqui. É um ambiente muito rico, de diversos ecossistemas, que poderia ter sido devastado como foi todo o resto, pois retiravam muita areia para a construção e jogavam bastante lixo neste local", conta Ronaldo Nunes, coordenador Núcleo de Educação Ambiental do parque. Ele destaca a importância da manutenção das riquezas da região, que vem crescendo em ritmo acelerado por causa do turismo e da indústria do petróleo, fonte de royalties e razão do aumento da receita de Rio das Ostras. Primeira unidade de conservação do município, criada em 2000, a Área de Proteção Ambiental da Lagoa de Iriry fica a dez minutos de carro do Parque dos Pássaros. Além do espelho de água muito escura, fruto de substâncias químicas, como o iodo, o ambiente é formado por dunas, restingas e brejos, distribuídos em 850 mil metros quadrados. O mar fica ao lado e, do mirante construído sobre areias brancas, tem-se unia visão privilegiada As outras duas unidades de conservação são o Monumento Natural dos Costões Rochosos, formado por praias e ilhas, onde é possível encontrar pedras cobertas com unia vegetação que parece um tapete colorido, e a Área de Relevante Interesse Ecológico de Itapebussus, onde houve pouca intervenção humana a KR
OESP, 21/04/2005, p. A16
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