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Parentes de caes e gatos sofrem na mata

OESP, Geral, p.A14
05 de Set de 2004

Parentes de cães e gatos sofrem na mata
Três espécies de canídeos e sete de felídeos correm risco de extinção por mudanças no seu hábitat
Simone Iwasso
Ao anoitecer, entre as plantas rasteiras do cerrado, o lobo-guará leva seus filhotes de uma toca para outra. A onça-pintada devora uma capivara na mata fechada da Amazônia. De cima da árvore, o gato-maracajá procura alimento, em meio a aves típicas da mata atlântica. Longe dali, uma matilha de cachorro-vinagre passa pelas planícies do Pantanal.
O homem não vê nenhuma dessas ações, mas elas se repetem cotidianamente na natureza, de maneira equilibrada. São parte de um mundo ameaçado, mas que ainda resiste. Os protagonistas são seis espécies de canídeos e oito espécies de felídeos que habitam o território brasileiro - os parentes selvagens dos familiares gatos e cachorros domésticos.
No entanto, enquanto os animais que foram domesticados adaptaram-se à vida em apartamentos, casas e ruas das cidades, reproduzindo-se em grande quantidade, as espécies selvagens sofrem com a destruição de seu ambiente natural. Como conseqüência, metade dos cachorros está ameaçada de extinção.
Entre os gatos, o número sobe: das oito espécies existentes, apenas uma não está na lista de animais ameaçados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
O risco é visível. Quando aparecem para os seres humanos, esses animais estão em uma composição diferente, afastados da equilibrada cadeia alimentar natural. O lobo-guará revira latas de lixo de fazendas. A arma de um caçador derruba a onça-pintada. Os pequenos gatos morrem sem alimento. Nenhum deles reconhece mais seu hábitat.
Em busca de um caminho possível e dispostos a contribuir para a preservação desses animais, pesquisadores de organizações não-governamentais, faculdades e zoológicos buscam a conservação dessas espécies. Apontam para uma alternativa que consiste em aumentar as taxas de reprodução em cativeiro e proteger as populações em vida livre pelo País.
Atualmente, diversas instituições trabalham em um mesmo projeto de manejo. O objetivo é descobrir mais sobre a genética, comportamento na natureza, reprodução em cativeiro e alimentação desses animais, para um dia reintroduzi-los na natureza.
"Cada pesquisador ou instituto contribui com a sua especialidade de pesquisa. Começamos o trabalho e daqui a 18 meses vamos apresentar um projeto. Precisamos pesquisar mais, porque ainda se sabe pouco sobre a maioria desses pequenos carnívoros", explica a bióloga Kátia Cassaro, chefe do setor de mamíferos da Fundação Zoológico de São Paulo.
A bióloga explica que as maiores dificuldades são em relação aos felídeos, mais sensíveis a mudanças de ambiente, ao contato com outros animais e à alimentação. Da onça-pintada ao gato-do-mato-pequeno, eles alimentam-se apenas de carne e precisam de territórios grandes.
Os canídeos, ao contrário, comem, além de carne, ovos, insetos e frutas. São mais flexíveis e podem sobreviver em áreas pouco degradadas e campos abertos. Conseguem manter-se em áreas menores.
De onde vieram - O Brasil tem 8 das 37 espécies de felídeos que existem no mundo, originárias de três grupos evolutivos: o da jaguatirica, o da onça-parda e o da onça-pintada. Há aproximadamente 2 ou 3 milhões de anos, os ancestrais desses três grupos chegaram à América do Sul, espalhando-se pelo território e adaptando-se conforme o hábitat encontrado.
"Pelas pesquisas genéticas, podemos dizer que os felídeos brasileiros desenvolveram-se a partir desses três grandes grupos. Já o gato doméstico é uma versão domesticada dos gatos selvagens europeu e asiático", afirma o biólogo Eduardo Eizirik, professor da PUC-RS e pesquisador da Associação Pró-Carnívoros.
Já em relação aos cachorros, o histórico é mais incerto. "Sobre os cachorros, a gente ainda não sabe tão bem a linha evolutiva. Não está bem esclarecido de onde eles se desenvolveram. É provável que de um ancestral, de 7 milhões de anos", completa.
Além de levantar o passado, as pesquisas genéticas, segundo o biólogo, são importantes para ajudar a vislumbrar perspectivas futuras, ajudando na reprodução de espécies com poucos indivíduos e pouca variação genética, o que compromete a existência de novos filhotes saudáveis.
Com essa mesma intenção, pesquisadores da Associação Mata Ciliar estão montando um banco genético desses animais, armazenando dados a partir das criações em cativeiro. "Ainda não temos uma variedade suficiente para conhecer totalmente uma espécie, mas a intenção do trabalho é essa", diz Cláudio da Silva, biólogo da associação.
Uma contribuição também vem de Mato Grosso, onde pesquisadores observam pela primeira vez uma matilha de cachorros-vinagre na natureza. "Foi a primeira vez que conseguimos capturar esse animal e colocar coleiras com sensores neles. Assim poderemos saber mais sobre esse canídeo, que é considerado raro, por falta de conhecimento sobre ele", diz o biólogo Edson de Souza Lima, um dos responsáveis pela pesquisa.
Ameaças - Só conhecimento não é suficiente, no entanto. O trabalho para conhecer melhor as espécies precisará vir acompanhado da preservação do hábitat desses animais. Desmatamentos, atividades agrícolas, pecuária e queimadas destroem as regiões em que eles vivem, expulsando-os para o contato com o homem e os animais domésticos.
Sem mata, acaba o alimento e as populações começam a desaparecer. O contato com bichinhos de casa transmite doenças. Quando chegam às estradas, são atropelados ou recolhidos. "Destruição de hábitat é com certeza a maior ameaça. E, como conseqüência, os animais começam a aparecer em áreas habitadas, atacando criações de galinhas e gado", explica Rogério Cunha de Paula, da Associação Pró-Carnívoros e do Centro Nacional de Pesquisas para Conservação dos Predadores Naturais (Cenap), do Ibama.
Todos os dias, Cunha recebe ligações de fazendeiros preocupados com onças, gatos-do-mato e jaguatiricas que apareceram em suas plantações.
"Aconselhamos eles a não atirarem no animal. Além de serem protegidos, eles são predadores naturais de uma série de outros animais, como os roedores. E, ao contrário do que muitos pensam, eles não atacam o homem. São bastante tímidos e se assustam com facilidade."
Canídeos
Lobo-Guará (Chrysocyon brachyurus) Ameaçado de extinção
De cor castanho-avermelhada, crina de pêlos pretos, com pontas da cauda e parte interna das orelhas brancas, o lobo-guará vive cerca de 13 anos e chega a pesar entre 20 kg e 23 kg quando adulto. Alimenta-se de pequenas presas, sapos, lagartos, roedores, insetos, raízes e frutas. encontrado no Centro-Sul e Nordeste
Cachorro-do Mato-Vinagre (Speothos venaticus) Ameaçado de extinção
A cabeça e os ombros são marrom claro, escurecendo gradualmente ao longo do corpo. Às vezes, possui manchas brancas no peito. Pesa entre 5 kg e 7 kg e vive cerca de 10 anos. Fazem parte da dieta do animal pacas, pássaros, pequenos vertebrados e frutas. Encontrado em todo o território brasileiro
Cachorro-do Mato (Cerdocyon thous)
Tem pelagem cinza, com alguns pêlos negros. Alimenta-se de pequenos vertebrados, ovos, insetos, animais mortos e frutas. Pesa, quando adulto, cerca de 7 kg e vive aproximadamente 11 anos. De fácil adaptação, é encontrado em todo o território brasileiro
Graxaim-do-Campo (Pseudalopex gymnocercus) Ameaçado de extinção
Existe apenas na região Sul do País e é alvo de caçadores. Tem coloração cinza amarelada, com tons mais escuros na cabeça e na nuca. O peso pode variar de 4 kg a 13 kg e o tempo médio de vida é de 13 anos
Raposa-do-Campo (Pseudalopex vetulus)
Confundida por muitos com um cachorro, pesa cerca de ,4 kg. Tem a pelagem cinza, cauda preta e pescoço branco. Alimenta-se de formigas e outros insetos. Come também roedores, pequenas aves e ovos. Está espalhada nas regiões Centro-Oeste e Sudeste. De MT e MG até o oeste de SP
Cachorro-do-Mato-de-Orelha-Curta (Atelocynus microtis)
Animal raro e pouco estudado pelos cientistas. No Ibama, consta como espécie insuficientemente conhecida. Tem dorso cinza escuro, cauda negra, pernas pretas ou marrom escuro. Pesa cerca de 10 kg e pode viver mais ou menos 11 anos. No Brasil, sabe-se que habita a região sul do Amazonas, do Rio Tocantins a MT
Felídeos
Gato-do-mato-grande (Oncifelis geoffroyi) Ameaçado de extinção
Encontrado somente em áreas florestadas do sul -do RS. É um animal pouco estudado e raramente encontrado em cativeiro. Pesa cerca de 3,9 kg e tem 58 cm de comprimento. A coloração varia entre o cinza claro e o amarelo avermelhado, com pintas pretas. Alguns podem ser melânicos
Jaguatirica (Leopardus pardalis) Ameaçado de extinção
Animal de porte médio, com 77 cm de comprimento e cerca de 16 kg. Seu hábitat principal são as áreas de mata atlântica, mas também é encontrado no cerrado e na Amazônia. Tem apenas um filhote por ninhada, o que limita sua existência na natureza. A cor varia muito, de cinza-amarelado a um castanho escuro, com manchas pretas que formam faixas nos lados do corpo
Onça-Pintada - (Panthera onca) Ameaçado de extinção
É o maior dos felinos brasileiros e só sobrevive onde restam matas extensas. Estima-se que existam apenas 200 em toda a mata atlântica. No Pantanal e na Amazônia ainda são mais comuns. Como estão no topo da cadeia alimentar, alimentam-se da caça de outros animais. Têm corpo robusto, pesando de 60 kg a 130 kg. A cor varia entre amarelo e castanho, revestido por manchas negras
Gato-Palheiro (Lynchailurus colocolo) Ameaçado de extinção
Habitante do cerrado e de áreas abertas, no Centro-Sul do Brasil. Pelo tamanho, formato da cara e das orelhas, é o que mais se assemelha a um gato doméstico. Tem de 77 cm a 90 cm e pesa cerca de 3 kg. Alimenta-se de aves e pequenos mamíferos
Gato-do-Mato-Pequeno (Leopardus tigrinus) Ameaçado de extinção
Tem grande semelhança com gato doméstico. A cor varia do amarelo ao marrom, com manchas pretas pelo corpo. Pesa cerca de 3kg e ainda consegue sobreviver em trechos de matas perto de cidades. Adulto precisa buscar seu território, e acaba sendo atropelado em estradas. Alimenta-se de aves, roedores e pequenos animais
Onça-Parda (Puma Concolor) Ameaçado de extinção
É o segundo maior felino do País e está espalhado pelo território brasileiro. Pode ser encontrada em ambientes abertos, desde que próximo de matas. Alimenta-se de outros mamíferos. Pesa em média 32 kg e tem 108 cm de comprimento. A cor é uniforme, marrom claro ou acinzentado
Gato-Mourisco (Herpailurus yagouaroundi)
Tem cabeça pequena, com orelhas arredondadas. As pernas são curtas em relação ao corpo, e a cauda é longa. Pesa cerca de 5 kg, tem cerca de 1 metro e cor uniforme: . preto, cinza ou vermelho amarelada. E encontrado no Brasil todo, adapta-se facilmente a ambientes degradados
Gato-Maracajá (Leopardus wiedii) Ameaçado de extinção
Difere-se bastante dos outro gatos por passar muito tempo em cima das árvores. Para isso, tem uma cauda longa, que proporciona equilíbrio, e uma rotação nas patas, que o ajuda a se agarrar nos troncos. Tem também olhos muito grandes. Pesa cerca de 3 kg e tem cerca de 78 cm. Alimenta-se de aves e pequenos animais. Encontrado na mata atlântica e Amazônia, precisa de áreas para sobreviver
Fonte: Cenap (Ibama), Pró-Carnívoros, Associação Mata Ciliar, Fundação Zoológico de São Paulo ArtEstado/Glauco Lara

OESP, 05/09/2004, p. A14

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