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Parceria entre ONG e produtores recupera mata ciliar no Xingu

Valor Econômico, Agronegócios, p. B12
15 de abr de 2011

Parceria entre ONG e produtores recupera mata ciliar no Xingu

Bettina Barros

Luis Carlos Castelo tem boi, soja e milho em boa parte dos 13.600 hectares de sua "Bang-Bang", em São José do Xingu (MT). A fazenda lhe valeu muitas alegrias nesta safra. A colheita de soja, encerrada em março, rendeu 62 sacas por hectare, uma produtividade acima da média no Brasil. O milho safrinha, que entrou na sequência da soja, terá o volume necessário para a ração que complementará a dieta de capim das 12 mil cabeças de gado. Até aqui, tudo parece dentro da normalidade de uma fazenda. O que foge do script é a máquina de distribuição de adubo espalhando sementes de árvores.

Não qualquer árvore, nem em qualquer lugar. Desde 2007, Castelo está em processo de reconstrução das matas ciliares de sua propriedade rural na tentativa de assegurar o seu abastecimento de água no longo prazo. Outros 340 produtores rurais de Mato Grosso aderiram à ideia.

Eles estão no entorno da bacia do Rio Xingu, que se estende do norte de Mato Grosso até quase o extremo norte do Pará. E sabem - ou descobriram depois - que a mata ciliar é importante porque, na sua ausência, as nascentes correm o risco de secar, iniciando uma perigosa cadência de enxugamento de riachos que se transformam mais à frente nos rios formadores do Xingu. Quem vive na região afirma já sentir o impacto do desmatamento no volume e na qualidade da água.

A recuperação de áreas de mata ciliar está sendo possível graças à parceria dos produtores com o Instituto Socioambiental (ISA), organização ambientalista com know-how de mais de 15 anos no Parque Indígena do Xingu - que completou 50 anos de existência ontem - e idealizadora da campanha "Y Ikatu Xingu" ("Salve a água boa do Xingu", na língua Kamaiura), lançada em 2004 para atuar na conservação da água do Xingu.

Estima-se que quase 6 milhões de hectares de vegetação na Bacia do Rio Xingu em Mato Grosso tenham sido desmatados com a consolidação da agricultura e da pecuária na região (33% da cobertura original). O foco da ação do ISA é no norte de Mato Grosso também porque ali está o berço das cabeceiras do grande rio. Segundo o ISA, foram mapeadas na região 22.291 nascentes.

"No início não foi fácil. Eles tinham restrição a pecuaristas", lembra Castelo, referindo-se aos ambientalistas. "Fomos obrigados a romper com o preconceito de que tínhamos em relação aos sojicultores", admite Rodrigo Junqueira, coordenador-adjunto da campanha.

O pulo do gato da parceria, no entanto, foi a utilização de ferramentas do agronegócio para ganhar escala. Em uma experiência única no país, máquinas tradicionalmente utilizadas para jogar na terra sementes de capim e adubo passaram por pequenos ajustes para espalhar também espécies de sementes do Cerrado e da Amazônia, já que se trata de uma área de transição de biomas.

Segundo Junqueira, sem o maquinário agrícola seria impossível dar ganho de escala ao processo. A ONG calcula que 300 mil hectares estejam em déficit de mata ciliar. Até agora, 2,4 mil estão em processo de recuperação.

A motivação de Castelo para adequar a sua propriedade ambientalmente foi um TAC (Termo de Ajuste de Conduta) com a Secretaria de Meio Ambiente do Estado, assinado em 2004. Pelo termo, Castelo teria de recuperar áreas necessárias de floresta, como a mata ciliar, se quisesse obter a licença ambiental do órgão. Sem a licença, a produção fica sujeita a penalizações comerciais, dentro e fora do Brasil.

"O problema é que a gente não tem a técnica adequada para plantar floresta. Esse não é o nosso trabalho", diz Castelo, explicando que já havia tentado vários métodos de replantio sem sucesso. "Foi então que descobri que o ISA estava trabalhando com a muvuca e fomos atrás".

Além das máquinas, os especialistas do ISA optaram pelo plantio direto de sementes de várias espécies misturadas - a tal "muvuca" - com leguminosas de crescimento rápido, como feijão-de-porco. O feijão, que cresce primeiro, faz a sombra necessária que inibirá o capim. Em alguns meses, o feijão morre e fornece adubo natural para o solo.

Na teoria, seria a reprodução fiel da natureza. Mas isso não aconteceu com a perfeição que se imaginava. Muitos produtores - com o aval da ISA - acabam pulverizando o solo com glifosato. "Ambientalista não gosta muito disso, mas não tem jeito. O capim é uma praga", diz Castelo. "É veneno, mas a nossa experiência mostra que não há alternativa melhor", afirma Junqueira.

Castelo fez o primeiro plantio de sementes de árvores com maquinário em 2007. Até meados do ano, ele fará a última "rodada" para finalizar a recomposição dos 300 hectares deficitários em mata ciliar da fazenda Bang-Bang. "Houve uma inversão na curva do desmatamento da região, e podemos ter contribuído para isso", diz ele, orgulhoso.

Coletores de sementes agilizam a restauração

De São Paulo

A crescente demanda por espécies de árvores nativas para os trabalhos de restauração florestal no entorno da Bacia do Rio Xingu acabou levando à formação de uma rede local de coletores de sementes. Hoje, essa rede é formada por mais de 300 famílias de coletores em 19 municípios e nove aldeias indígenas.
Esses coletores, todos moradores da região, recolhem as sementes espalhadas pela floresta e dentro das fazendas que participam do projeto. Desde 2006, já foram destinadas 45 toneladas de sementes para a restauração das Áreas de Proteção Permanente do entorno da Bacia do Rio Xingu, com mais de 200 espécies do Cerrado e da Amazônia.
Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), muitos coletores já conseguem viver exclusivamente dessa atividade. O quilo da semente mais barata (caju) custa hoje R$ 0, 50, enquanto o quilo da semente de mogno gira em torno de R$ 250, embora sua incidência esteja mais restrita ao Pará, na terra indígena de Panará.
A rede tem "casas de sementes" - locais para a armazenagem - em Canarana, maior e melhor equipada, e São José do Xingu. Nesses locais também existem vi¬veiros e são realizados testes de germinação e a identificação da espécie coletada.
Os coletores reúnem-se em oficinas de capacitação onde são tomadas decisões coletivas como a elaboração da tabela de preço e definição de espécies prioritárias, além da troca de experiências. Cada agricultor pode fazer uma mistura diferente de plantas rasteiras, arbustivas, trepadeiras e árvores, dependendo do seu interesse e do funcionamento da floresta. "A vantagem é que o solo fica coberto, o capim cresce menos e custa menos que um plantio de mudas", diz o ISA. (M)

Valor Econômico, 15/04/2011, Agronegócios, p. B12

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