OESP, Geral, p.A15
09 de Mai de 2004
Paraná declara guerra à Anvisa Em carta enviada a Lula, coordenador da Casa Civil faz acusações por causa da soja transgênica
LÍGIA FORMENTI
BRASÍLIA - Uma carta de duas páginas enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com acusações e ofensas à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e ao serviço público, de um modo geral, é o mais novo lance na guerra que o governo do Paraná move contra a soja transgênica, em oposição ao governo federal.
A carta, assinada pelo coordenador político da Casa Civil do Governo do Paraná, Hasiel Pereira, é de conhecimento do governador Roberto Requião, e circula na internet denunciando a Anvisa como uma "corja" a serviço das multinacionais e das indústrias envolvidas com a transgenia. A Anvisa reagiu anunciando que irá levar o caso à Justiça.
A carta reproduz trechos de tese subscrita pela veterinária gaúcha Eliane Dallegrave, sustentando que o glifosato, substância encontrada no herbicida Roundup, produzido pela Monsanto, é um "desregulador endócrino" capaz de causar sérios danos à saúde humana, desde a degeneração do fígado e dos rins até a redução drástica da produção de espermatozóides. A veterinária sustenta a tese com base em testes feitos com ratos. "É isso, Sr.
Presidente, o Roundup, da Monsanto, não é água com açúcar", diz o funcionário de Requião.
"Apesar disso, a Anvisa aumentou o limite do resíduo do herbicida de 0,2mg/kl, para 10mg/kl, ou seja, 50 vezes mais", acusa Hasiel Pereira. E dispara: "Para essa corja, o que interessa é o lucro oriundo do monopólio, da patente e do preço pago pela tecnologia transgênica".
Pereira insere nesse contexto cientistas e secretarias de Estado, especialmente aquelas envolvidas com o cadastramento de produtos agrotóxicos. Acusa a todos de venderem seus serviços às multinacionais do setor e diz ter o aval do governador do Paraná. "Ele leu e gostou da carta", disse ao Estado.
Na carta, enviada terça-feira pelo correio ao presidente, com cópia para o governador do Paraná, Roberto Requião, e para o Ministério do Meio Ambiente, há ainda a denúncia de que um navio carregado com soja exportada pelo Rio Grande do Sul está sendo devolvido ao Brasil pelo governo da China, por causa de seu alto grau de toxicidade.
Pereira se defende quanto à circulação do documento na internet, mas acha positiva sua distribuição na rede virtual. "Não coloquei a carta na internet. Mas achei bom. No Paraná, somos a vanguarda da legislação ambiental. Ótimo que todos saibam disso."
Reação - Uma cópia do documento também chegou às mãos do gerente-geral de Toxicologia da Anvisa, Luiz Cláudio Meirelles.
"Estou em estado de choque. São acusações levianas, para dizer o mínimo", reagiu ele.
O técnico da Anvisa deverá encaminhar a carta ao departamento jurídico da instituição. "Ele chama de corja não só a Anvisa, mas todo o sistema público, incluindo a Presidência da República, para a qual ele enviou o documento. Não há dúvida de que teremos de ingressar na Justiça." Meirelles argumentou que não há como estabelecer a periculosidade do glifosato baseado apenas em uma pesquisa, como fez Pereira. "Isso é básico. Este senhor não apresenta nenhum conhecimento técnico ou jurídico sobre o assunto. Todas as regras da Anvisa são baseadas na análise de uma série de estudos, nacionais e internacionais."
O técnico da Anvisa também rebateu a acusação de que a carga de soja devolvida pela China tenha alto teor de glifosato. "Ele só pode dizer isso se for adivinho. Sabemos apenas que a recusa foi provocada por alto teor de agrotóxico, mas não sabemos ainda qual deles é. Isso somente será possível com o laudo, ainda não disponível." Meirelles admitiu, porém, que a agência ampliou de forma significativa o limite de resíduo do glifosato na soja, como consta na carta. "Mas o nosso limite está muito abaixo do que é recomendado por agências européias e a agência americana", disse.
OESP, 09/05/2004, p. A15
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