O Globo, Ciência, p. 42
01 de Dez de 2010
Paraíso ameaçado
Mais de 300 resorts de luxo do Caribe poderão ser tragados pela elevação do mar
Catarina Alencastro
Enviada especial Cancún
A elevação do nível do mar causada pelas mudanças climáticas provocará a destruição de mais de 300 resorts turísticos de luxo na região do Caribe, como revela um novo estudo divulgado ontem na Convenção do Clima, em Cancún.
Aeroportos, usinas energéticas, estradas e cultivos localizados em áreas mais baixas, bem como grandes regiões turísticas das ilhas serão severamente atingidas e até completamente perdidas, com graves implicações para as economias de cada país e o bem-estar de centenas de milhares de pessoas, de acordo com o relatório.
O relatório sugere que, somente para as 15 maiores nações de língua inglesa, os custos dos danos e dos trabalhos de reconstrução provocados pela elevação do nível do mar até 2080 alcançaria US$ 120 bilhões.
Danos a aeroportos e usinas de energia
Com uma elevação do nível do mar de um metro, o que hoje é considerado altamente provável até o fim do século, "pelo menos 149 resorts de luxo seria seriamente danificados ou perdidos" no Caribe, juntamente com 21 aeroportos da Comunidade Caribenha (Caricom) e 35 dos 44 portos da região. Se o mar subir dois metros - o que não é, de forma alguma, considerado impossível -, "pelo menos 233 resorts de luxo se perderiam". Seriam registrados ainda danos graves ou perda total em nove usinas de energia, 31 aeroportos e 710 quilômetros de estradas.
Quando se coloca na conta, além da elevação das águas, o efeito da erosão, os danos se revelam muito piores. Com uma elevação de um metro, a erosão estimada alcançaria de 50 a 100 metros. Com isso, o número de resorts de luxo destruídos poderia chegar facilmente a 307.
Com apoio do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, o Departamento de Desenvolvimento Internacional do Reino Unido e a Organização dos Estados do Caribe Oriental, o estudo foi produzido pela Caribsave, uma parceria entre o Centro para Mudanças Climáticas da Comunidade Caribenha e a Universidade de Oxford. Coordenado por Murray Simpson, do departamento de meio ambiente da Universidade, o estudo é considerado o mais detalhado já feito sobre os impactos da elevação do nível do mar na região.
- Somos os países mais vulneráveis do mundo, embora sejamos os menos poluentes, afirmou Antonio Lima, embaixador de Cabo Verde nas Nações Unidas, falando em nome de todos os países insulares. No segundo dia de conferência, os avanços ainda pareciam muito incertos.
Enquanto não há sinalização de que Cancún trará um acordo fixando novas metas de redução de CO2 para os países desenvolvidos a partir de 2012, quando expira o Protocolo de Kyoto, nos bastidores delegados já vêm cogitando alternativas para preencher o vazio. Uma delas é a adoção de uma regra segundo a qual não é preciso o consenso dos 194 países membros da convenção para que uma decisão seja adotada. O tema é polêmico e conta com a rejeição de pelo menos 50 países. Outro tema que vem sendo debatido a portas fechadas é o que poderá ser feito enquanto novas metas não são acordadas. Segundo o negociador-chefe do Brasil, embaixador Luiz Figueiredo, a adoção de um segundo período de compromisso de Kioto é urgente. Mas caso isso não aconteça nos próximos dois anos, todo o arcabouço legal sobre como os países devem cortar suas emissões não ficará invalidado.
- Os países têm regras com base em Kioto. Isso não vai acabar em 31 de dezembro. Eles vão continuar a fazer reduções. É claro que isto não é sustentável no longo prazo.
(*)A repórter viajou a convite da CNA
Os grupos de negociação
Os diversos grupos formados nas últimas conferências da ONU sobre o clima atuam sem trégua na formação de consensos e na derrubada de propostas apresentadas em Cancún.
G-77: O maior dos grupos reúne as nações em desenvolvimento. Devido ao tamanho, o grupo tem várias subdivisões. Estão nele os países produtores de petróleo, os menos desenvolvidos, os africanos mais afetados pelo aumento da temperatura e as pequenas ilhas. Há, ainda, o Basic, formado por Brasil, África do Sul, Índia e China, que surgiu na COP-15.
Integridade ambiental: O bloco formado por México, Coreia do Sul e Suíça reúne países com posições avançadas em relação à questão climática.
Guarda-chuva: Neste grupo de stacam-se EUA, Austrália, Noruega, Rússia e Nova Zelândia. Com raras exceções, os americanos evitam negociar separados.
Brasil cobra dever de casa
Sérgio Serra
Enquanto o Brasil internalizou rapidamente metas para reduzir emissões de gases, outros, como os Estados Unidos e a União Europeia, não fizeram seu dever de casa, diz Sérgio Serra, embaixador extraordinário para mudanças climáticas.
Eliane Oliveira
O Globo: Como está o cumprimento de metas?
Sérgio Serra: Os países da União Europeia, por exemplo, têm um número firme de corte de 20% de suas emissões em relação a 1990, podendo chegar a 30%, desde que outros países façam o mesmo. Os Estados Unidos dizem que tudo era condicionado à aprovação do Congresso. O projeto de lei de energia e clima não foi aprovado e ainda saiu da pauta. A delegação americana tem dito que continua a se comprometer, mas acho difícil fazer isso sem o Legislativo.
E os chineses?
Seraa: O país tem ações para reduzir o índice de carvão por unidade de PIB e está tomando medidas, algumas louváveis.
Há um programa ambicioso de crescer usando fontes renováveis em energia eólica, por exemplo. Eles estão fazendo sua parte.
O que cobrar em Cancún?
Serra: Os recursos de US$ 30 bilhões para o financiamento, a curto prazo, para mitigar os efeitos da mudança do clima não saíram do papel e para nós é crucial. Isso vai esfriar um pouco o clima de desconfiança que existe.
O Globo, 01/12/2010, Ciência, p. 42
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