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Parabólicas

Folha de Boa Vista-Boa Vista-RR
08 de Jan de 2004

O Estado de Roraima vive hoje uma situação de tensão bem clara e inusitada, provocada pelo Governo Federal. O clima de ebulição social ora vivenciado tira a tranquilidade da população e deixa a todos temerosos quanto ao futuro desta terra macuxi. O poder central de uma forma que parece orquestrada, tem colocado determinados setores da sociedade roraimense uns contra os outros.

Uma demonstração emblemática disso é dada pela questão indígena. O Ministério da Justiça e os órgãos a ele vinculados, como a Funai, por exemplo, se colocam claramente favoráveis à homologação da Raposa/Serra do Sol em área contínua, defendendo os interesses de um segmento de comunidades indígenas ligados à Igreja Católica e ao Cir (Conselho Indígena de Roraima).

Enquanto isso, os indígenas que não concordam com essa posição, revoltados com a iminência de ver consolidada a homologação da reserva em área única, se vêem na obrigação de partirem para um confronto ideológico para dizer da sua discordância sobre essa questão.

Por outro lado, surge um novo pequeno conflito, dessa vez entre agricultores familiares e produtores de arroz. Tudo ainda por conta da questão indígena. Os pequenos produtores, que antes concordavam com o movimento contra a homologação da reserva indígena em área contínua, agora se dizem prejudicados pela ocupação do pátio do Incra pelos caminhões e máquinas dos rizicultores.

A Fetagre (Federação dos Trabalhadores em Agricultura do Estado) divulgou, ontem, uma nota culpando o movimento da sociedade civil organizada, desencadeado anteontem, pela não liberação dos recursos do crédito agrícola que segundo o presidente da entidade, Juarez Pereira de Sousa, deveria ter sido iniciada ontem.

O Incra se encontra com as portas fechadas a cadeados. Tudo isso gera desentendimentos entre grandes e pequenos produtores rurais, o que contribui para o acirramento dos ânimos em um grau maior do que a coisa já se encontra.

O pior é saber que todo esse clima de tensão é alimentado pela forma desdenhosa com que o poder central tem tratado Roraima. Um Governo que deveria apresentar um discurso uníssono demonstra ser composto por gente das mais variadas tendências político-ideológicas, dificultando o diálogo entre seus próprios integrantes. Essa postura acaba por causar reflexos nos entes federativos mais carentes de atenção de Brasília, como é o caso de Roraima.

PRESSÃO

Fontes ligadas ao Palácio do Planalto garantem que o presidente dos Estados Unidos George W. Bush vai interferir na questão indígena local e dizer ao presidente Lula da Silva que o "Tio Sam" não abrirá mão da homologação da reserva indígena Raposa/Serra do Sol em área contínua. E tudo indica que Lula vai abaixar a cabeça.

ADESÃO 1

O movimento da sociedade civil organizada de Roraima contra a homologação da Raposa/Serra do Sol em área contínua está se agigantando cada vez mais. Ontem o comércio resolveu fechar as portas, como forma de adesão ao protesto iniciado na manhã de anteontem. Ao meio-dia fecharam as lojas da rua Jaime Brasil, seguidas pelas localizadas na avenida Ataíde Teive.

ADESÃO 2

Com o fechamento das estradas federais e principais vias de acesso a Boa Vista, os postos de gasolina fecharam, na tarde de ontem, em sinal de solidariedade ao movimento. Com medo de desabastecimento, motoristas formaram filas imensas em alguns postos, ávidos por conseguir um pouco de gasolina para não ficarem na mão.

ISOLAMENTO

A situação em Roraima tende a ficar ainda mais crítica. Os líderes indígenas da Sodiur, Alidcir, Arikom e AARKAF ameaçam agora fechar a estrada que dá acesso ao Aeroporto Internacional de Boa Vista, para impedir a entrada e saída de passageiros pela via aérea.

EXIGÊNCIAS

Os indígenas sustentam que só cessarão o movimento e desocuparão a sede da Funai, quando o presidente Nacional do órgão, Mércio Pereira Gomes, ou o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, vierem a Roraima. Eles querem discutir uma solução consensual que não seja a homologação da reserva indígena em área contínua, com a extinção do Município de Uiramutã, como quer o CIR (Conselho Indígena de Roraima).

ESTRATÉGIA

Enquanto isso, os três religiosos continuam sendo mantidos como reféns na maloca do Contão, Município de Uiramutã. O tuxaua Pedro Celso da Silva, também da região da Raposa/Serra do Sol disse que a manutenção dos dois padres e do missionário como reféns é uma estratégia para atrair a atenção das autoridades de Brasília para Roraima. Mas garante que está sendo dispensado um tratamento humano aos religiosos. "Lá não falta nem refrigerante para eles", frisou.

COMODISMO

O senador, Mozarildo Cavalcanti (PPS), disse ontem a esta "Parabólica" que a sociedade civil organizada de Roraima demorou muito para esboçar uma reação contra a possibilidade de homologação da Raposa/ Serra do Sol em área contínua. "Por muito tempo os produtores adotaram uma postura de comodismo", disse o parlamentar.

TENSÃO

Mozarildo afirmou ter mantido contato, no dia de ontem, com o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, cobrando providência urgente do Governo Federal para que possa amenizar a situação de tensão hoje verificada no Estado. "A demarcação da Raposa/Serra do Sol em área contínua significará a criação de um conflito sem precedentes em Roraima", afirmou.

LINHA DIRETA

Já o deputado, Titonho Beserra (PT), líder do Governo Estadual na Assembléia Legislativa, manteve contato com o secretário-geral da Presidência da República, Luiz Dulce, colocando-o a par do que está acontecendo em Roraima.

RELATÓRIO

O líder governista passou para Dulce um relatório contando todos os últimos acontecimentos e aguarda um posicionamento do Governo Federal sobre quais providências serão adotadas em relação ao movimento desencadeado pela sociedade civil organizada, que fechou todas as entradas e saídas do Estado como protesto às declarações do ministro, Márcio Thomaz Bastos, de que a Raposa/Serra do sol será homologada em área contínua ainda neste mês de janeiro.

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