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Parabólicas

Folha de Boa Vista-Boa Vista-RR
05 de Jan de 2005

Quando Néstor Kirschiner assumiu a Argentina literalmente quebrada e disse, logo de cara, que não poderia pagar as dívidas do país com o Fundo Monetário Internacional e com os bancos estrangeiros, os ardorosos defensores da ortodoxia do mercado o taxaram de louco e despreparado. Enfrentando as pressões do mercado, o presidente argentino manteve-se firme na defesa dos interesses nacionais platinos e fez o FMI e a banca internacional dobrarem as vértebras, aceitando sentarem-se à mesa de negociação, para que o povo argentino não fosse ainda mais sacrificado.
Um ano após o enfrentamento entre o governo Kirschiner e o FMI, a Argentina deu claros sinais de recuperação com indicadores econômicos muito melhores que os apresentados pela economia brasileira. Ao contrário do que os analistas de plantão previam, em vez de quebrar a Argentina, a coragem e a firmeza do seu presidente salvou a nação platina da tragédia. O famoso mercado, que no caso brasileiro serve para justificar a subserviência à ortodoxia do FMI, teve de se curvar aos interesses maiores da Argentina.
O leitor deve estar perguntando por que estamos falando da Argentina, se temos tanta coisa para resolver por aqui? A resposta é simples. Quando a coluna estava para ser redigida, chegou, vindo de Brasília, um pouco do conteúdo da conversa do presidente Lula da Silva (PT) com o governador Ottomar Pinto (PTB), que se fez acompanhar de parte da bancada federal do Estado e de um líder indígena, em audiência ocorrida ontem, no Palácio do Planalto.
À comitiva roraimense, Lula disse que já não agüenta mais receber pressões internas e externas para a demarcação da Raposa/Serra do Sol em área contínua. Confessou que em qualquer ambiente em suas viagens internacionais, principalmente quando vai a Organização das Nações Unidas, é cobrado sobre a homologação da imensa reserva indígena. Disse por isso mesmo, que tão logo retorne de sua próxima viagem ao exterior (ao Suriname), que deverá ocorrer em fevereiro, decidirá sobre a questão.
As declarações do presidente da República -e ninguém deve suspeitar de que sejam sinceras-, não deixam dúvida quanto ao interesse dos países industrializados em internacionalizar a Amazônia, utilizando para tanto a questão indígena como aríete para abrir o caminho. Isso vem sendo denunciado faz décadas pelos brasileiros que ainda teimam em defender os interesses pátrios.
Por outro lado, espanta que o presidente Lula da Silva não exerça na plenitude o mandato popular que lhe foi outorgado, dizendo em alto e bom tom que a Raposa/Serra do Sol será demarcada no tempo devido e resguardado o interesse nacional. Custa querer que lhe falte a coragem necessária para dizer, pelo menos uma vez, que o Brasil é um país soberano, democrático, com suas instituições funcionando e que seu primeiro mandatário não aceita pressões para tomar decisões que firam o interesse pátrio, mesmo que isso signifique um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Falta à Pátria tupiniquim, um Néstor Kirschener!
SOLITÁRIO
Ao repórter Carvílio Pires, o advogado e ex-deputado federal Alcides Lima Filho disse que mantém uma luta quase que solitária, para sustentar em Brasília, a tramitação da Ação Popular que tem servido para evitar que a Raposa/Serra do Sol seja homologada em área contínua. "Recebi durante algum tempo ajuda do Salomão Cruz para custear viagens à Capital Federal e, agora, vez por outra, o Mozarildo tem ajudado", diz o causídico

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