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Pará sofre a violência no campo

CB, Brasil, p. 13
11 de Mai de 2006

Pará sofre a violência no campo
Dados divulgados em encontro nacional de secretários de segurança revelam que para cada família assentada no estado ocorreram 237 crimes nos últimos anos: 40% motivados por conflitos agrários

Ullisses Campbell
Da equipe do Correio

Levantamento divulgado na 15ª Reunião do Colégio Nacional de Secretários de Segurança Pública do Brasil, em Belém, revelou que ocorreram 237 crimes no campo para cada família assentada no estado do Pará. Os dados referem-se aos últimos 20 anos. De acordo com a pesquisa, dos 588 crimes mais recentes ocorridos na zona rural listados pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetagri), 40% tiveram como motivo a briga pela posse da terra. E 6% foram por motivos diversos, como crime passional. A maior parte dos crimes, cerca de 54%, têm causas indefinidas.

A Comissão Pastoral da Terra (CPT), entidade ligada à Igreja Católica, já havia chamado a atenção para o número elevado de crimes que ocorrem no interior do país por conta da luta fundiária na publicação Conflitos no Campo 2005, lançada há um mês. Segundo a CPT, o Pará responde por 15% de todos os crimes ocorridos no Brasil em razão da posse pela terra. "Os números são estimativas. A violência no campo é muito maior do que se imagina", afirma Phelippe Rocha, da Sociedade de Defesa dos Direitos Humanos.

O professor Antônio Valladares, especialista em Segurança Pública pela Universidade de São Paulo (USP), acredita que o número está diretamente relacionado à situação de pobreza e à adversidade das famílias que moram em barracões na região. "Historicamente, o Brasil tem tradição de crimes na zona rural. Mas muita gente é vítima de crimes passionais no campo também. Em algumas regiões, até mais do que nas grandes cidades", analisa.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) atribui à falta de policiamento e à implantação de milícias armadas a violência no campo. Segundo o coordenador do movimento no Pará, José Maria Costa, a criminalidade aumenta na região porque não há policiamento. "No sul do Pará, a Polícia Militar protege fazendeiros e estabelecimentos comerciais", critica.

Para o padre Eloi Schettino, da CPT de Marabá, o Pará está no centro da violência nacional por causa da ausência do poder público nas cidades do interior. E cita números. "A situação é grave: 29% de todas as pessoas que foram presas no ano passado em conflito de terra estavam no Pará tentando conseguir um lote e 34% de todas as pessoas que estão ameaçadas de morte neste momento no Brasil moram no estado", ressalta.

A Secretaria de Segurança Pública do Pará rebate as estatísticas da CPT e afirma que, a cada ano, consegue diminuir a criminalidade no estado. Do total de crimes cometidos na zona rural paraense, 34% são investigados em inquéritos policiais e 22% não têm informações suficientes para a realização de investigações, o que dificulta o trabalho dos policiais.

O relatório divulgado mostra ainda um mapeamento inédito das situações processuais referentes ao crime no campo, no Pará. Em 8% do processos foram instauradas ações penais, mas a Justiça recusou a denúncia alegando insuficiência de dados. Dos que chegaram a ser julgados, 5% foram condenados e 1% foi absolvido. A CPT contesta esses dados.

Ocupação na Bahia

Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocuparam mais uma fazenda na Bahia, argumentando haver ameaça de a área ser destinada ao plantio de eucalipto. Cerca de 300 famílias acamparam na Fazenda Conjunto Palheta, de 2.800 hectares, em Vitória da Conquista.

Como os funcionários do Incra estão em greve, uma negociação com os trabalhadores rurais ficou mais difícil. As lideranças justificaram a ação informando haver boato na região segundo o qual a empresa Veracel estaria comprando a Conjunto Palheta para ampliar o plantio de eucalipto.

A estrada de acesso à fazenda é controlada pelos invasores. Os líderes disseram ter visto jagunços circulando de moto pela área, embora não houvesse registro de confronto. Há meses as famílias estavam acampadas perto da fazenda, à espera da desapropriação das terras, mas diante do boato do interesse da Veracel resolveram invadir. Em abril, 400 famílias ocuparam a Fazenda Céu Azul, da Suzano Celulose, em Teixeira de Freitas.

CB, 11/05/2006, Brasil, p. 13

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