OESP, Metrópole, p A10
10 de Mar de 2014
Para salvar verde, plano põe 1/4 de SP como zona rural
Ambiente torna-se prioridade e exigência mínima para loteamento passaria de 7,5 mil m² para 20 mil m²; projeto ainda permite a transferência de potencial construtivo de terrenos arborizados, que podem virar parques. Meta é votar texto antes da Copa
Fabio Leite - O Estado de São Paulo
SÃO PAULO - Na tentativa de preservar o que resta das áreas verdes públicas e particulares da cidade, o novo Plano Diretor de São Paulo pretende recriar, após 12 anos, uma zona rural com regras de adensamento mais restritivas em praticamente um quarto do território paulistano. Também quer permitir a transferência de potencial construtivo de terrenos arborizados que podem virar parques e propõe o pagamento em dinheiro aos donos de propriedades que prestam serviços ambientais ao Município.
As propostas estão no substitutivo que o relator do Plano Diretor, vereador Nabil Bonduki (PT), vai apresentar nesta semana à Câmara Municipal. A expectativa é de que o projeto de revisão da lei que dita as regras do uso e ocupação do solo em toda a cidade seja votado antes do início da Copa do Mundo, em junho. A versão original foi enviada ao Legislativo em setembro pelo prefeito Fernando Haddad (PT).
A ideia de recriação da zona rural, extinta pelo plano vigente aprovado em 2002 na gestão Marta Suplicy (PT), é limitar o parcelamento do solo em uma área de 219 km² nos distritos de Parelheiros, Grajaú e Marsilac, extremo da zona sul da capital. Com cerca de 27 mil moradores, ela fica majoritariamente nas Áreas de Proteção Ambiental (APAs) Capivari e Bororé, mas inclui franjas onde há atividades urbanas permitidas pela lei atual.
Ao transformar todo esse território em zona rural, a exigência mínima para loteamento de terrenos sobe dos atuais 7,5 mil m² para 20 mil m². "A ideia do substitutivo é conter a expansão horizontal da cidade e fazer essas áreas serem melhor utilizadas, criando emprego e renda com atividades que garantam a preservação do meio ambiente, como a agricultura orgânica e o ecoturismo", disse Bonduki.
Segundo o cadastro da supervisão de abastecimento da Prefeitura de São Paulo, há hoje na região 316 propriedades rurais. A ideia é que a localidade receba, por exemplo, novos produtores de alimentos e hotéis-fazenda, levando emprego sem comprometer o ecossistema no local, que concentra os afluentes da Represa do Guarapiranga, responsável pelo abastecimento de água para 20% da Região Metropolitana de São Paulo.
"Esse é o conceito de zona rural moderna. Além das atividades estritamente rurais, você permite a exploração sustentável da terra", disse Bonduki. Somando os 226 km² de parques já existentes na cidade, como Cantareira e Jaraguá, na zona norte, e Serra do Mar, zona sul, onde não há moradias e são permitidos apenas atividades de pesquisa, educação e turismo, a nova zona rural compreenderá quase 30% de todo território paulistano e menos de 1% da população.
O substitutivo também cria uma nova macroárea chamada Controle e Qualificação Urbana e Ambiental, que compreende distritos altamente adensados dentro da macrozona de preservação. A maioria deles fica na zona sul, como Cidade Dutra, Jardim Ângela e Socorro, também em áreas de mananciais. Lá, o parcelamento do solo continuará sendo a partir de 250 m², mas, segundo o relator do Plano Diretor, haverá restrições nas regras para novas construções para aumentar a permeabilidade do solo.
Ambiente. "Um grande avanço do substitutivo é incorporar no Plano Diretor as diretrizes da Política de Mudanças Climáticas aprovada tanto no Estado como no Município", disse Bonduki. Segundo ele, a essência de todo o projeto é reequilibrar o desenvolvimento da cidade, que viu o centro expandido perder 500 mil habitantes nos últimos 20 anos, enquanto que o crescimento se deu na periferia carente de infraestrutura.
Um lugar com cheiro e jeito de interior
Biólogo mantém casa com lago, minibosque e 11 vacas na Estrada de Engenheiro Marsilac
Laura Maia de Castro - O Estado de São Paulo
SÃO PAULO - Em Parelheiros, na zona sul da capital, o biólogo Daniel Lima, de 26 anos, mora com a família em uma propriedade de dois hectares que chama atenção de quem passa pela Estrada Engenheiro Marsilac. Isso porque no local há um pequeno lago, 11 vacas, 1 minibosque, 10 pés de açaí, limão, tangerina, acerola, jabuticaba, entre outras frutas. Esse é o perfil de morador que o novo Plano Diretor de São Paulo quer replicar na região.
O cheiro de mato remete ao interior e até a temperatura é mais agradável no alto do terreno inclinado. A família mora na propriedade há cerca de seis anos e escolheu preservar o espaço que, em sua maior parte, é de grama, mas tem também um bosque. "Você pode perceber que o ar é mais puro aqui. Penso até em construir uma outra casa ao lado, mas só nesse espaço que já não tem vegetação", diz o biólogo.
Segundo Lima, as frutas plantadas no entorno da casa são para consumo da própria família e os animais estão ali para equilibrar o ambiente. No pequeno lago, há tilápias e carás, mas a pesca é só por diversão e entre os pés de açaí, três coelhos bem peludos andam livremente ao lado de um grupo de perus.
A família tem uma loja de material de construção e uma outra de ração para animais na beira da estrada e é delas que tira o sustento. De acordo com Lima, caso houvesse ajuda do Município para quem mantivesse o ambiente preservado, eles investiriam na manutenção da propriedade. "Espaços como esse são fundamentais para o equilíbrio, o aumento da qualidade de vida da população", disse.
A alguns minutos dali, a analista ambiental, Suzana Ouro, de 28 anos, tem um sítio de 12 hectares, dos quais pelo menos 10 são de mata nativa. A vegetação predominante é o ipê, mas também tem araucária e outras árvores. Segundo Suzana, não são raras as visitas de bugios (espécie de macaco), capivaras e garças. O local é alugado para eventos como casamentos e confraternizações e o público-alvo é justamente quem valoriza espaços com bastante verde.
Para ela, que trabalha com o meio ambiente, o incentivo por parte da Prefeitura não necessariamente precisaria ser uma espécie de remuneração. "Poderia ser, por exemplo, a isenção ou diminuição de alguns impostos ou até ajudar na aquisição de mudas de espécies nativas."
Educação. Entretanto, Suzana afirma que o que precisa mudar é a educação ambiental. "Precisamos de mais educação ambiental e mais incentivo e propagandas para a conscientização da população. Muita gente sabe o que deve fazer, mas ainda acredita que não faz diferença."
Proposta prevê que Prefeitura pague dono por preservação
Fabio Leite - O Estado de São Paulo
Outra novidade apresentada no substitutivo do Plano Diretor é a criação de dois instrumentos de incentivo financeiro que podem permitir a preservação de áreas verdes privadas. A proposta lista 90 terrenos que passarão a ser Zonas Especiais de Proteção Ambiental (Zepam), totalizando 158 áreas onde há projetos para construção de parques públicos. São 82 km² de áreas verdes - atualmente só 68 são Zepam -, praticamente o dobro dos 42 km² de área dos parques atuais na cidade.
Hoje, para tornar uma área particular parque a Prefeitura precisa comprar o terreno do proprietário, mas quase nunca há dinheiro para fazê-lo. Dos 78 Decretos de Utilidade Pública (DUPs), a administração realizou apenas 12 depósitos. Um caso emblemático é o do Parque Augusta, na região da Paulista, cujo custo da desapropriação é estimado em R$ 70 milhões.
Para suprir a falta de recursos públicos, o novo Plano Diretor prevê duas medidas para estimular a manutenção da vegetação. Na chamada macrozona de proteção e recuperação ambiental, que pega os extremos das quatro zonas da cidade, como Parelheiros, na sul, a Prefeitura vai pagar em dinheiro pela prestação de serviços ambientais aos proprietários que preservarem o ecossistema dentro da propriedade.
Segundo o vereador Nabil Bonduki (PT), relator do Plano Diretor, a fórmula que vai calcular o valor a ser pago pela Prefeitura está sendo concluída e constará do substitutivo que será apresentado nesta semana na Câmara Municipal. "Vamos dar estímulo financeiro, não só com isenção tributária, para que essas pessoas mantenham suas áreas intactas de modo a evitar que haja uma devastação e o consequente impacto no meio ambiente", disse.
Já na chamada macrozona de estruturação e qualificação urbana, que compreende o centro expandido e seu entorno, será aplicado o instrumento de transferência de potencial construtivo. Na prática, o dono de uma Zepam poderá negociar no mercado imobiliário o estoque virtual da metragem que seria possível construir no seu terreno para uma construtora utilizá-lo para erguer uma torre acima do limite básico - em outro local onde a Prefeitura pretende incentivar o adensamento.
Um exemplo é o da proposta de criação do Parque da Fonte, uma área de 37 mil m² no Butantã, zona oeste da capital. Já há um DUP do local, mas a prefeitura não tem dinheiro para desapropriar o terreno. Ao ser enquadrado como Zepam, o dono da área pode transferir o potencial construtivo da área e mantê-la para sempre preservada ou doá-la para a administração. Segundo Bonduki, no caso de doação, o valor do papel do potencial construtivo é maior.
OESP, 10/03/2014, Metrópole, p A10
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,para-salvar-verde-plano-poe…
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,um-lugar-com-cheiro-e-jeito…
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,proposta-preve-que-prefeitu…
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.