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Pará registra o maior número de mortes por Covid-19 entre quilombolas

G1 PA — Belém
Autor: G1 PA - Belém
16 de jun de 2020

Estado registra 28 mortes de quilombolas. Dados são registrados pelas próprias associações em um trabalho independente. Ministério Público não dispõe de levantamento oficial.

O Pará tem cerca de 600 comunidades quilombolas com 70 mil famílias. São 400 mil de pessoas que têm enfrentado a pandemia em meio ao descaso do poder público. O estado registra o maior número de mortes por Covid-19 entre moradores de comunidades remanescentes de quilombolas. De acordo com as associações "Malungu" e "Núcleo Sacaca", da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), 28 moradores quilombolas já morreram por causa da Covid-19.

O monitoramento dos casos de Covid-19 em quilombos é feito de forma independente. A pesquisa é realizada por telefone e o acompanhamento dos dados é realizado com o auxílio de uma rede de voluntários que incluem advogados, médicos, enfermeiros e outros profissionais. Segundo o Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), a pesquisa ainda conta com apoio da Ufopa.

"O monitoramento é feito por meio de telefone e WhatsApp. Temos a regional do Baixo Amazonas, do Marajó, Nordeste, região Guajarina e Tocantina. As regionais têm contato com os líderes de cada comunidade e levantam esses dados", explica Magno Cardoso, quilombola integrante da Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará "Malungu" e morador de comunidade da cidade de Moju, no Pará.

Itacoã
A comunidade de Itacoã, no Acará, nordeste do estado, é uma das comunidades. Mesmo afastada 104 da cidade, o local já enfrenta a contaminação pelo novo coronavírus. A maioria dos moradores apresentou sintomas da Covid-19. Uma pessoa morreu. Segundo os moradores, o descaso é grande. Não há plano específico de saúde e prevenção na área.

"Eu acredito que não chegaram a ser feitos 20 testes aqui, e tem muita gente doente. Foi feita uma reunião pedindo auxílio, testes, informações, alimentos", diz José Maria Alves, líder comunitário de Itacoã.

A área de Itacoã é de cerca de 970 hectares, onde vivem 80 famílias, que além da piscicultura, produzem carvão e vendem frutas regionais. A população vive sem estrutura básica de saúde. As condições do único posto são precárias. Na antiga unidade, há sujeira e abandono. As telhas estão quebradas. Ele foi desativado há quatro anos. Ao lado, foi iniciada a obra de um anexo com quatro salas, que deveria atender os moradores, mas o projeto não foi concluído. Cerca de R$ 80 mil foram gastos, mas dentro das unidades não há energia elétrica e nem água. Tudo é no improviso. Também falta estrutura para quem trabalha aqui.

"Faltam estrutura, remédios, atendentes. Quando precisamos de atendimento, a gente vai lá pra Boa Vista, que fica a 8 km daqui", conta a estudante Elisa Monteiro.

"Diante da falta de políticas públicas eficazes e dos problemas de estrutura na área da saúde, cobramos do governo do estado um plano emergencial no atendimento aos moradores dessas comunidades", diz Érica Monteiro, coordenação de Associação de Quilombos do Pará "Malungu".

Marajó
Os problemas na estrutura da saúde se repetem em outras comunidades quilombolas. Em Salvaterra, no Marajó, a unidade de saúde da localidade de Passagem Grande está fechada. Um aviso informa que os atendimentos são feitos por telefone.

Na comunidade quilombola de Boa Vista, as obras do posto de saúde se arrastam há 4 anos e nada do prédio ser entregue.

Oriximiná
A base econômica das comunidades costuma ser o extrativismo e a agricultura familiar. As atividades pararam e o impacto econômico se aprofunda.

Sem o auxílio de prefeituras e governos, os próprios quilombolas se organizam. Na comunidade de Boa Vista, em Oriximiná, oeste do estado, uma embarcação sai pelos rios orientado os moradores.

"Só saia de casa em caso de extrema urgência. Tome cuidado. Você e sua família podem se contaminar. O número de leitos e remédios boa hospitais é limitado. Então, quilombola, fica em casa. Essa é a dica. Isolamento na comunidade, isolamento dentro de casa. Vamos nos prevenir", alerta o barco.

A região possui 37 comunidades quilombolas com cerca de 15 mil habitantes. Uma ação civil pública foi ajuizada para limitar o acesso de pessoas. O trânsito de embarcações fluviais e de veículos terrestres está suspenso nos territórios quilombolas, que não tenham a autorização da Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Município de Oriximiná (ARQMO), para evitar a propagação do novo coronavírus.

Sespa
Segundo a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), "as ações nos municípios de Acará, Salvaterra e Oriximiná e as atividades em unidades básicas de saúde são de responsabilidade das gestões municipais".

Em nota, a Sespa informou "que enviou aos 144 municípios paraenses medicamentos, máscaras e álcool 70% para tratamento de pacientes com covid-19 e que acompanha a situação epidemiológica das comunidades quilombolas.

Além disso, a Sespa diz que também está orientando e capacitando profissionais e gestores municipais de saúde quanto às notas técnicas, protocolos e fluxos estabelecidos para assistência a pacientes confirmados ou com suspeita de covid-19 em comunidades quilombolas".

https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2020/06/16/para-registra-o-maior-n…

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