OESP, Economia, p. B1, B3
22 de Ago de 2017
Para reforçar o caixa, governo propõe a privatização da Eletrobrás
Segundo o Ministério de Minas e Energia, estatal, que tem valor de mercado de cerca de R$ 20 bilhões, passaria para o controle privado, mas a União permaneceria como sócia, mantendo poder de veto nas decisões consideradas estratégicas
Beth Moreira e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo
21 Agosto 2017 | 19h01
Pressionado pela necessidade de reforçar seu caixa com receitas de concessões e privatizações, o governo anunciou nesta segunda-feira, 21, que pretende privatizar a Eletrobrás, estatal do setor elétrico que controla empresas como Furnas e Chesf. De acordo com o Ministério de Minas e Energia, a União permanecerá como acionista da companhia e receberá dividendos. Também manterá poder de veto na administração, preservando decisões consideradas estratégicas pelo governo no setor.
"A nova Eletrobrás segue um modelo de êxito adotado em diversos países, como Portugal, França e Itália, que transformaram suas estatais de energia elétrica em grandes corporações que atuam no mundo inteiro e mantêm sua identidade nacional", diz nota divulgada pela pasta. Não foi divulgado quanto se espera arrecadar com uma eventual privatização. O valor de mercado da Eletrobrás na Bolsa de Valores de São Paulo (B3) é de cerca de R$ 20 bilhões.
Segundo o ministério, a decisão de propor a privatização da empresa ocorreu após "profundo diagnóstico" sobre o processo de recuperação da estatal que está em curso. O MME alega que as ineficiências acumuladas nos últimos 15 anos na Eletrobrás tiveram impacto negativo de cerca de cerca de R$ 250 bilhões. Esses recursos públicos, avalia a pasta, poderiam ter sido investidos em outras áreas prioritárias do governo. A privatização da estatal será analisada pelo Conselho do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), que coordena as concessões e privatizações do governo.
O ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Moreira Franco, disse ao Estadão/Broadcast que a privatização da Eletrobrás seria um reforço não para o caixa do governo, "mas para a qualidade, produtividade e preços da energia no Brasil". Ele acrescentou não ter avaliado se a operação trará um reforço às receitas primárias do governo.
Gestão. A melhora na gestão foi o centro da argumentação apresentada pelo ministério para a operação. Na nota, a pasta afirma que a medida trará mais competitividade e agilidade à empresa para gerir suas operações, "sem as amarras impostas às estatais". O MME cita como exemplos os processos de privatização da Embraer e da Vale. Essas mesmas justificativas constam de um comunicado enviado pelo ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, à Eletrobrás.
A intenção de vender a estatal foi comunicada em fato relevante à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). No documento, a estatal esclarece que a efetivação da operação depende de autorizações governamentais, avaliação das autorizações legais e regulatórias que serão necessárias, avaliação do modelo a ser adotado e observância dos procedimentos específicos, por ser tratar de sociedade de economia mista, de capital aberto, com ações listadas nas bolsas de São Paulo, de Nova York e de Madri.
Até agora, os planos do governo passavam por vender as subsidiárias da Eletrobrás e as distribuidoras de energia controladas pela estatal. Pela proposta, os recursos obtidos com essas operações seriam divididos entre o governo, a estatal e os consumidores, que poderiam ter descontos na conta de luz.
Antes da Eletrobrás, o governo cogitou também desmontar a Infraero, privatizando todos os seus aeroportos. Porém, a proposta virou ponto de disputa nos bastidores, com o Ministério dos Transportes, Portos e Aviação Civil defendendo a recuperação da estatal.
Venda deve beneficiar estatal, dizem analistas
Para especialistas do setor, País não precisa mais de uma empresa para ser instrumento de política energética, cujo modelo está consolidado
Renée Pereira, O Estado de S.Paulo
21 Agosto 2017 | 22h17
A informação de que o governo quer privatizar a Eletrobrás, uma das maiores empresas de energia elétrica da América Latina, foi recebida por especialistas do setor como uma boa saída para a estatal, que vem enfrentando graves problemas financeiros e acumula dívidas de R$ 43,5 bilhões.
Para o professor da UFRJ, Nivalde de Castro, a decisão de dar um novo rumo à Eletrobrás já vinha sendo colocada em prática pelo atual presidente da estatal, Wilson Ferreira Jr, com a venda da participação da empresa em vários projetos e das distribuidoras. Mas seria um processo mais longo. Segundo fontes, a modelagem para vender a participação da Eletrobrás em projetos de energia eólica e transmissão estava sendo feita pelo banco BTG Pactual e deveria ser concluída no fim deste mês. Agora, esse processo deve ser interrompido.
Na avaliação de Castro, o País hoje não tem mais a necessidade de ter uma estatal como a Eletrobrás para ser instrumento de política energética. "Isso porque o modelo do setor está bem consolidado e a expansão pode ser feita apenas com a iniciativa privada."
O consultor Ricardo Lima, especialista no setor, elogiou a decisão do governo. Na avaliação dele, a redução do peso do Estado, acompanhada de uma melhoria da governança corporativa e da redução do peso político na empresa são ótimas notícias. Mesmo no momento atual, de instabilidade política e crise econômica, a venda pulverizada da empresa pode atrair investidores de peso, como fundos de investimentos internacionais, diz Lima. "Menos Estado é positivo e necessário."
Na avaliação dos especialistas, tirar o controle da empresa das mãos do governo fará muito bem para os negócios da estatal. Quem ficar no controle poderá vender os ativos sem o excesso de burocracia como ocorre hoje.
"A decisão de hoje demonstra emergência por parte do governo, que precisa fazer caixa para reduzir o déficit fiscal", disse o professor Nivalde de Castro, destacando a qualidade dos ativos da empresa.
Reunião. Na tarde de hoje, antes do anúncio, a Eletrobrás realizou uma reunião com investidores e analistas de mercado em São Paulo, mas os representantes da estatal não fizeram qualquer menção ao comunicado, que pouco depois seria arquivado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a respeito da desestatização.
O principal executivo presente era o diretor Financeiro e de Relações com Investidores da estatal, Armando Casado, que deixou o evento às pressas. Um dos funcionários de sua equipe insistiu para a necessidade de irem embora e pediu desculpas aos jornalistas, que tinham iniciado uma entrevista com o executivo. O funcionário acrescentou, na sequência: "Depois vocês vão entender". / COLABOROU LUCIANA COLLET
OESP, 22/08/2017, Economia, p. B3
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