OESP, Vida, p. A14
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
07 de Fev de 2007
Para o ambiente tudo, menos verbas
Marcos Sá Correa
Coitado do embaixador brasileiro para o aquecimento global. O chanceler Celso Amorim ameaça criar o cargo para provar ao mundo que o Itamaraty não tem medo da mudança climática,pelo menos enquanto a política externa puder contar com salões refrigerados. Mas o escolhido cairá num posto seco,previamente queimado pela parlapatice da diplomacia latino-americana, a mesma que há anos ouve calada países ricos derrubarem a cotação do Brasil no mercado internacional das incertezas planetárias.
Quem fez a conta dessas perdas e danos foi a ambientalista Suzana Padua, com a mesma voz moderada que usa para defender pontos de vista em bate-boca de assentamento do MST no Pontal do Paranapanema. "Estamos assistindo a uma redução drástica do apoio internacional ao meio ambiente", avisa.
Vão tomando o rumo de outras prioridades os US$ 5 milhões que os EUA, através da Usaid, tradicionalmente destinavam "a projetos integrados de conservação da natureza e melhoria de vida de comunidades locais", apoiando alternativas menos predatórias para geração de renda. A secretária de Estado Condoleezza Rice declarou há meses que "o Brasil já não seria prioridade" nessa linha de financiamento. "Ninguém reagiu", diz Suzana. "As verbas para o País estão em risco de extinção."
Não confundir esses argumentos com a choradeira típica dos ambientalistas que vivem de esmola. Suzana preside o Ipê. Esse Instituto de Pesquisas Ecológicas nasceu há 15 anos em seu quarto, por absoluta falta de outro espaço para reunir a equipe, que se resumia ao biólogo Claudio Padua, marido dela, e um punhado de estudantes. A equipe estava interessada em salvar micos-leões-pretos que estudava no Morro do Diabo, reserva no sudoeste de São Paulo.
Nos primeiros tempos, o Ipê funcionou da mão para a boca, com um orçamento que a duras penas lhe cobria as despesas de US$ 20 mil por ano. Hoje, administra R$ 5 milhões. Atua em cinco regiões do País. Emprega 85 pessoas - 10 doutores e 16 mestres. Tem patrocínio cativo de grandes marcas, como Havaianas e Natura. Coleciona os melhores prêmios internacionais, como o Whitley e o Rolex. Está construindo em Nazaré Paulista um centro avançado de biologia da conservação.
O Ipê não tem de que se queixar. Por isso, quando Suzana Padua reclama,convém ouvi-la, porque se trata de interesses legítimos. O que a preocupa atualmente é que o meio ambiente está se deixando desvalorizar por estas bandas, apesar dos trunfos inegáveis de nosso patrimônio natural. "O Departamento para o Desenvolvimento Internacional do Reino Unido também reduziu os aportes que eram destinados ao Brasil." Por mais de uma década, vieram de Londres para cá anualmente cerca de 12 milhões de libras. Em 2002, o dinheiro dos ingleses começou a secar. Em 2005, acabaram os últimos projetos que bancava e não brotaram outros.
No Banco Mundial, o Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais, montado em US$ 250 milhões, "está agora em marcha lenta". Ultimamente, fala-se mais no Banco Mundial "em rodovias e hidrelétricas para a Amazônia, tendência apoiada pelo governo brasileiro , que tem, no mínimo, visão de curto prazo". Em outras palavras, numa hora em que salvar a natureza tem tudo para virar bom negócio, o País parece decidido a passar o ponto.
Se recua em silêncio, não é por falta de gogó. A política externa brasileira raras vezes gostou tanto de uma boa fanfarronada. Mas Suzana, pessoa amável, faz o possível para ouvir, por trás do mutismo de Brasília, a palpitação de "um senso de orgulho,como se o Brasil fosse auto-suficiente". Quer dizer, vem aí o embaixador do autismo diplomático.
Jornalista e editor do site O Eco
OESP, 07/02/2007, Vida, p. A14
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