OESP, Vida, p. A26
13 de Jul de 2008
Para fazer de Cubatão um pomar, mudas em pet
O pescador Josuel de Abreu recolheu garrafas plásticas e terra, investiu R$ 200 e montou um viveiro com diversas espécies de árvores frutíferas
Rejane Lima
O pescador Josuel Ferraz de Abreu, de 33 anos, há 12 morador da Vila dos Pescadores, em Cubatão, na Baixada Santista, montou entre as palafitas um canteiro com mais de 2 mil mudas de árvores frutíferas, todas plantadas em garrafas pet, recolhidas do estuário.
Feito com telhas e tijolos, o viveiro de 18 metros tem camadas de cascalho e terra, recolhida do outro lado do rio. Foi construído grudado à parede do barraco vizinho, que ganhou calhas para que a chuva não alague o plantio.
Pintor afastado por acidente de trabalho, Abreu investiu cerca de R$ 200 em seu projeto. A idéia veio há nove meses, durante uma visita à escola de seu filho Jefferson, de 8 anos. 'Percebi que lá tinha muito espaço vazio e nenhuma árvore. Conversei com a diretora e ela falou que não plantava porque não tinha mudas. Pretendo mudar isso, quero doar mudas para as escolas e toda a cidade', diz. Migrante nordestino, Abreu vivia em um sítio no interior de Pernambuco. 'Lá eu plantava muito, mas essa terra aqui é boa demais, eu pego do aterro do antigo lixão de Santos. O bom de plantar na garrafa pet é que você transporta junto, leva para onde quiser. É fácil de manusear.'
As centenas de garrafas retiradas do estuário e doadas por vizinhos acumulam-se na casa do pescador e já causaram algumas brigas. 'Primeiro eu não gostei, porque fazia sujeira em casa, mas agora que está dando certo. Aprovei e quero que ele faça uma horta para eu plantar alface, coentro e rabanete', afirma a mulher de Abreu, a dona de casa Luciana.
Por enquanto, o canteiro tem apenas árvores frutíferas e chuchu. São mudas de laranja, acerola, mexerica, carambola, abacate, jabuticaba, jaca, maracujá, pinha, goiaba, manga, tamarindo, cambuci e pinha. Abreu está esperando as plantas atingirem um metro de altura para replantá-las por toda Cubatão. 'Quero mudar a cara da cidade, que só tem uma avenida com árvores frutíferas', planeja.
'Em um ano quero ter 10 mil mudas. Em cada metro quadrado de pet dá para plantar cem árvores', contabiliza. Ele comprou os tambores para o novo canteiro, que pretende erguer onde havia alguns barracos, destruídos num incêndio.
Assim como a família de Abreu, cerca de 9.800 pessoas moram na Vila dos Pescadores, área invadida à margem da rodovia Anchieta, do Rio Casqueiro - e da sociedade. No local, paga-se um taxa simbólica pela eletricidade (não há relógios individuais). Há rede de água encanada.
Já o esgoto é despejado sem nenhum tratamento no mangue. O forte cheiro ruim contrasta com a delicadeza das futuras árvores de Abreu.
Risco de contaminação é baixo, diz especialista
Rejane Lima
Especialista em epidemiologia e saúde pública, o professor do curso de Ciências Biológicas da Unimonte, de Santos, Fabio Lopes Correa, afirma que dificilmente as frutas produzidas pelas árvores plantadas por Josuel Ferraz de Abreu estarão contaminadas. 'Se não tiver metal pesado ou contaminação da indústria, provavelmente não haverá nenhum problema.'
No entanto, o professor alerta que garrafas pet retiradas de locais poluídos podem trazer danos à saúde de quem as manuseia. 'Ele (Abreu) pode se contaminar com cólera, hepatite ou leptospirose', explica.
O secretário do Meio Ambiente de Cubatão, Eduardo Silveira Belo, elogia a iniciativa do morador, mas lembra que as árvores não poderão ser plantadas aleatoriamente, pois as frutas precisam ser originárias da mata atlântica. 'Mas a gente agradece a colaboração. Desenvolvemos um sério trabalho de reflorestamento, mas de cada dez árvores que plantamos, seis são destruídas pelos próprios munícipes', diz o secretário.
OESP, 13/07/2008, Vida, p. A26
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