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Para Ermírio de Moraes, burocracia breca o País

OESP, Economia, p. B2
Autor: MORAES, Antônio Ermírio de
24 de dez de 2006

Para Ermírio de Moraes, burocracia breca o País

Sonia Racy
Direto da fonte
sonia.racy@grupoestado.com.br

O Grupo Votorantim vai mais que bem, obrigada. Só as exportações do conglomerado cresceram cerca de 50% este ano, na comparação com o ano passado, chegando a US$ 2,2 bilhões. Mas isto não satisfaz o empresário Antônio Ermírio de Moraes, que quer ver o Brasil todo em uma rota de crescimento sustentável. E investir, no Brasil, segundo ele, está se tornando tarefa difícil. Mesmo assim, nos últimos 6 anos, o Grupo investiu uma média de R$ 4 bilhões por ano entre expansões próprias, participações e aquisições. Para 2007, segundo Ermírio de Moraes, os investimentos orçados somam R$ 4,6 bilhões em expansões. E a internacionalização do Grupo já é uma realidade. Os ativos de cimento, nos EUA e Canadá, e de mineração e metalurgia, no Peru, representam investimentos de cerca de US$ 1,5 bilhão.

Mas em que áreas os investimentos têm tido dificuldades? O exemplo mais claro disto, dentro dos projetos da Votorantim, é a Usina Hidrelétrica do Tijuco Alto, que a CBA quer construir no Rio Ribeira. Projetada em 88, ela não saiu do papel e seu custo praticamente já dobrou. Falta a aprovação ambiental. "Não consigo entender por que não aprovaram até agora", lamenta Ermírio de Moraes.

A seguir, trechos da entrevista feita semana passada, em seu escritório, no centro da cidade:

Vários governos assumem jurando que "agora, sim, o País vai crescer". Por que é, então, que nunca conseguimos crescer?

Burocracia. Incompetência e muita burocracia. Esta burocracia, em muitos casos, foi montada para evitar que as pessoas procedessem mal. E não funcionou. O fato é que temos que ter uma maior agilidade para poder produzir, crescer. Quem agir contra as regras tem de ser punido pelo seu procedimento. E não o contrário. No Brasil, existe a mentalidade de que todo mundo é desonesto até que se prove o contrário. Isto impede, muitas vezes, que o Brasil ande para frente. Não precisamos de engessamento. A Constituição dos EUA tem três páginas. Aqui, a Constituição de 88 tem tanto detalhe que acabou engessando o Estado e paralisando o País. Pode reparar que as coisas boas são sempre simples. Quando há muito detalhe, como em nossa Constituição, elas não funcionam. Uma Constituição tem que ser pequena e clara, para que todos possam entender, sem precisar de conselho de advogado. Fizeram uma Constituição para a Academia Brasileira de Letras.

Mesmo com a Constituinte de 88 tendo dado no que deu, tem muita gente defendendo a convocação de uma nova Constituinte. Isso resolveria o problema?

Não, seria perda de tempo. Nosso problema é simplificar a Constituição que já temos. Sou totalmente contrário a uma nova Constituição, porque a tendência é, em vez de simplificar, complicar ainda mais. É o que a experiência mostra.

Então qual a solução para o Brasil crescer? Seria trabalho, trabalho, produção, juros baixos, como o senhor tem pregado sempre?

Isso mesmo. Essa continua sendo a fórmula, além de acreditar no Brasil. Nós acreditamos muito no Brasil, mas muito mesmo, e quero que a próxima geração continue acreditando. Eu os preparo para isso, repito sempre que o Brasil vai ser um grande país, que talvez demore um tempo, mas vai ser um país respeitado. Não perco as esperanças.

A Votorantim está tendo problema em investir em energia?

Estamos sim. A Usina Hidrelétrica de Tijuco Alto, no Vale do Ribeira, é um caso típico, semelhante a outros que se repetem pelo País. Esse projeto, que já se arrasta há oito anos, tem como principal objetivo fornecer energia elétrica para ampliar a produção da nossa fábrica de Mairinque. É um projeto decente, correto e é essencial para o nosso crescimento, é uma garantia. Nossa política sempre foi a de produzir pelo menos 60% da energia que consumimos.

O problema ainda é ambiental?

É. Não entendo por que o projeto não foi aprovado até agora. Esse projeto, visto de uma maneira geral, não causa danos a ninguém. Além disso, não se trata de uma usina grande. Ela vai gerar uns 650 MWh, mas é importante para a nossa produção.

O presidente Lula pretende rever os procedimentos do meio ambiente. O senhor acredita que isso vai andar?

Se andar, vou parabenizá-lo. Mas venho escutando essa conversa há muitos anos. O Brasil tem que deslanchar, não podemos crescer da maneira que estamos crescendo. Podemos crescer, tranqüilamente, 5% ao ano, sem favor de ninguém. O que não dá é continuar crescendo 2% ou 3% ao ano. Estamos perdendo para a América do Sul, coisa que realmente nos constrange.

Depois de tanto tempo, o senhor não se desanima com o andar da carruagem do Brasil, o eterno país do futuro?

Amo o Brasil. Meu desejo é que possamos trabalhar, pagar corretamente nossos impostos e diminuir consideravelmente o número de pessoas pobres neste país. E isso só se faz com muito trabalho, acreditando no País, e com muita educação. Esta, aliás, deveria ser a principal prioridade, pois sem educação não se faz nada. O País não cresce, ou cresce de uma maneira tímida. Educação é o princípio básico, fundamental para que o Brasil possa ter um crescimento saudável.

OESP, 24/12/2006, Economia, p. B2

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