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Para analistas, faltam avanços em educação e saneamento

O Globo, Economia, p. 37
05 de Abr de 2014

Para analistas, faltam avanços em educação e saneamento
Índice mostra Brasil em 46o lugar em ranking de progresso social

ELIANE OLIVEIRA
elianeo@bsb.oglobo.com.br

BRASÍLIA- A posição do Brasil em 46o lugar no quesito bem-estar social, entre 132 países pesquisados pelo instituto americano Social Progress Imperative, foi considerada positiva, mas vista com ressalvas por especialistas. O levantamento, divulgado na quinta-feira, mostra que o Brasil, embora bem colocado em progresso social, está nos últimos lugares em segurança pessoal (122o lugar) e deixa bastante a desejar em itens como acesso a ensino superior (76o) e água e saneamento básico (67o). Analistas destacam ainda que o índice não avalia a qualidade da educação, um quesito no qual o Brasil não vai bem.
Para Elimar Pinheiro, professor de sociologia da Universidade de Brasília, apesar do desempenho econômico pífio e a insatisfação popular com políticos, o ranking mostra o Brasil em posição acima da média.
- O indicador tem uma lacuna: a qualidade da educação. Mas a pesquisa mostra que o bem-estar se descola do desempenho econômico. As pessoas não estão mais preocupadas só com a economia.
Na avaliação do sociólogo, a pesquisa é fiel no que diz respeito à segurança. Ele lembrou que o estudo também põe o Brasil no vermelho em saúde, com ênfase para taxa de natalidade e desnutrição. Segundo a pesquisa, que trouxe um novo indicador de bem-estar social, a Nova Zelândia está na primeira posição em progresso social, seguida por Suíça, Islândia, Holanda, Noruega, EUA e Uruguai. O Brasil fica à frente de Cuba, Rússia, Índia e Argentina, entre outros, com avaliação positiva em acesso a ensino básico (38o lugar), tolerância e inclusão (33o), liberdades pessoais (27o) e moradia (53o).
O economista André Perfeito, da Gradual Investimentos, diz ser inegável que houve avanços das condições de vida da população. O maior acesso a crédito fez com que surgisse uma nova classe média, que passou a comprar mais bens duráveis, como geladeiras, TVs, fogões e computadores. Por outro lado, surge a questão do desconforto gerado pela nova classe média que, ao consumir mais, ajuda a aumentar a inflação.
Para o historiador Marco Antônio Villa, esse tipo de pesquisa não é totalmente confiável. Embora o país tenha melhorado nas duas últimas décadas, diz, as outras nações também avançaram, num ritmo mais rápido.
- É claro que no campo das liberdades políticas temos um grande avanço, mas caminhamos muito pouco em velhas questões sociais, como saneamento e educação.
Margarida Gutierrez, do Instituto de Economia da UFRJ, disse que medir o bem-estar social depende dos critérios, principalmente em se tratando do peso dos itens no indicador.
Por exemplo, se o índice for medido pela liberdade de expressão religiosa, o Brasil estaria em ótima posição.
- Você pode construir o índice de bem-estar social que quiser. Dependendo do peso dado à poluição, por exemplo, o Rio é a cidade com mais bem-estar social, pois é bem menos poluído que Pequim, Madri ou Nova York.

VIOLÊNCIA PREOCUPA
O presidente da Fundação Perseu Abramo, Márcio Pochmann, disse que a pesquisa, embora importante como contribuição, pode ser "uma fotografia, e não um filme" como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), medido pela ONU. Isto porque o total de países analisados, 183, é maior e, principalmente, pode haver comparações entre um período e outro, ao contrário do índice da instituição americana, lançado este ano.
- O quesito bem-estar está dividido em três blocos de países. O Brasil faz parte do terço de país em melhor situação em termos de progresso social. No critério renda, ficamos no segundo bloco e, em segurança e violência, estamos entre os piores - disse Pochmann.
A ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, foi procurada, mas, no fim da tarde de ontem informou, via assessoria de imprensa, que não teve tempo suficiente para ler o levantamento e, por isso, não iria se manifestar.

O Globo, 05/04/2014, Economia, p. 37

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