Folha de S. Paulo-São Paulo-SP
Autor: KÁTIA BRASIL
29 de Ago de 2003
Decisão afeta análise de ossos achados em Manaus
Pajés de tribos indígenas do Amazonas disseram ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) que não querem a exumação de ossos achados em uma urna enterrada numa praça no centro de Manaus. A recusa foi apresentada anteontem em reunião no Iphan que autorizou uma escavação na praça.
Os ossos foram achados em julho na praça D. Pedro, quando operários trabalhavam numa obra hidráulica da prefeitura da capital. Arqueólogos do Projeto Amazônia Central, coordenado por Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, identificaram no lugar 270 urnas, que teriam sido confeccionadas há pelo menos 1.300 anos.
A exumação dos ossos possibilitaria a realização de exames de DNA e de datação, que poderiam comprovar a tese de que as urnas evidenciam a presença humana em larga escala na região, defendida por Neves. Outros especialistas acham que a Amazônia sempre foi habitada por tribos nômades, não sociedades complexas.
Procurado pela Agência Folha, Neves disse que não sabia da exigência dos pajés e que conversaria com técnicos do Iphan antes de emitir sua opinião a respeito.
O arqueólogo Carlos Augusto da Silva, do Projeto Amazônia Central, disse que respeitava a decisão dos índios, mas alertou para o risco de destruição dos objetos. A urna de 1,10 m de altura e cerca de 90 cm de diâmetro, com ossos de duas pessoas, está numa escavação de 2 m de profundidade exposta às altas temperaturas e à umidade do ar em Manaus.
"O perigo é a perda total do material. A urna pode se desintegrar com as altas temperaturas, de até 35C", disse Silva.
Na reunião de anteontem, representantes da Fepi (Fundação Estadual de Política Indigenista do Amazonas) levaram à superintendente regional do órgão, Bernadete Andrade, carta assinada por quatro pajés, o apurinã Leôncio Miguel Lima, 70, os tucanos Avelino Trindade, 74, e Gabriel dos Santos Gentil, 50, e o dessana Domingos Sávio Veloso Vaz, 42.
Os pajés pediram que sejam respeitados os espíritos dos antepassados. "Deixando as urnas onde estão e não as removendo para lugar nenhum, respeitaremos a paz de espírito de cada um que ali ainda vive", afirmam na carta.
Também fizeram um alerta, caso o pedido não seja aceito: "Poderemos ser cobrados destes espíritos a nossa força espiritual, tornando cada um de nós sem força para guiar o nosso povo". No documento, anunciam que farão pajelança na noite de 18 de setembro, na qual pedirão para transformar num memorial o lugar onde está a única urna escavada.
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