OESP, Vida, p. A42
11 de Nov de 2006
Países ricos usam 'política do esperto', acusa Lula
Presidente enfraquece proposta do País em conferência sobre clima
Leonencio Nossa, João Domingos
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusou ontem os países ricos de praticarem "a política do esperto" na questão do controle da emissão de gases do efeito estufa e acabou enfraquecendo uma proposta que o Brasil leva para a 12ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudanças Climáticas, que acontece em Nairóbi (Quênia).
Em discurso de improviso no Fórum Brasileiro de Mudança Climática, no Palácio do Planalto, Lula afirmou que esses países se limitam a comprar cotas de emissão de gás carbônico das nações pobres em vez de colaborar no combate às emissões, que são causadoras do efeito estufa, responsável pelo aquecimento do planeta.
"Não basta os países ricos nos darem um pouco de dinheiro e continuarem poluindo o planeta. O compromisso deles não é apenas nos dar dinheiro, é o de diminuir a poluição", afirmou o presidente.
"São os países ricos os responsáveis por mais de 70% da poluição do planeta e, portanto, eles têm de ter compromisso, porque, se não, fica a política do esperto", acusou. E reproduziu o que ele acredita que se passa na cabeça dos governantes desses países: "Eu já desmatei, já poluí os rios e já acabei com tudo. Agora vou criar uma política de compensação para os países pobres continuarem pobres, e nós (países ricos) nos desenvolvermos cada vez mais."
Nos próximos dias, na conferência, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, apresentará justamente um mecanismo de compensação para premiar os países pobres que não desmatarem suas florestas tropicais - atualmente a maior fonte brasileira de emissão de gases-estufa. O prêmio viria de doações feitas pelos países ricos.
Para Sérgio Leitão, coordenador de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil, a proposta não deve receber apoio internacional enquanto o Brasil não estabelecer metas claras de controle do desmatamento. "Tal qual o governo passado, este não aceita discutir metas."
FOSSILIZADO
Enquanto isso, em Nairóbi, o Brasil ganhou um prêmio às avessas. O "Fóssil do Dia" foi concedido à delegação brasileira pela Rede de Ação Climática, que reúne 365 ONGs do mundo inteiro, porque o País estaria atrapalhando os debates sobre o futuro do Protocolo de Kyoto.
"Apesar da urgência do problema e da inexistência de respostas, o Brasil insiste em uma interpretação limitada e legalista do texto do protocolo, focado em discussões fragmentadas sujeitas a diversos caminhos de negociação, e atrasando qualquer discussão séria."
A posição brasileira é não aceitar metas de redução de emissão dos gases do efeito estufa no segundo período do protocolo, que começa em 2013. O governo lembra que os países que se desenvolveram às custas do planeta devem pagar mais caro.
Já os países ricos, que seguem hoje metas de redução, as quais ficarão ainda mais restritas no futuro, querem que economias em transição, como o Brasil, passem a dançar a mesma música. O planeta, lembram, é o mesmo para todas as nações.
Um membro da delegação da União Européia disse que o bloco já se prepara para o impacto negativo das mudanças climáticas, como ondas de calor mais quentes, intensas e freqüentes, como os cientistas projetam para a Europa.
Artur Runge-Metzger, do Escritório de Mudanças Climáticas, lembra que parte das 35 mil pessoas que morreram em 2003, por causa de uma onda de calor, "ainda estariam vivas se tivessem se preparado".
Ele afirma que, no começo do próximo ano, a Comissão Européia divulgará um documento para estimular o debate sobre o tema. "Precisamos nos assegurar de que as decisões tomadas em todos os níveis sejam apropriadas."
OESP, 11/11/2006, Vida, p. A42
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