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País terá centro tecnológico de etanol

OESP, Vida, p. A24
30 de Mar de 2008

País terá centro tecnológico de etanol
Com investimento de R$ 150 milhões em 5 anos, laboratório visa a manter o Brasil na liderança do setor

Herton Escobar

O Brasil é hoje, indiscutivelmente, a maior referência mundial em tecnologia para produção de etanol. Na corrida internacional pela conquista dos biocombustíveis, deflagrada pelo aquecimento global e a alta do petróleo, o País está mais para Michael Schumacher do que para Ayrton Senna. Como fazia o piloto alemão nos melhores tempos da Ferrari, o País largou na pole position, colocou duas voltas de vantagem sobre os retardatários e agora passeia pela pista calmamente, sem ser ameaçado.

Mas esse sossego brasileiro está chegando ao fim. Os Estados Unidos, principal concorrente do País no setor, estão investindo pesado em pesquisas para o desenvolvimento do etanol de celulose, chamado "de segunda geração". E já aparecem como um vulto incômodo no espelho retrovisor do Brasil.

Só o Departamento de Energia (DOE) americano está injetando mais de US$ 1 bilhão na construção de refinarias experimentais e diversos projetos de pesquisa voltados para a transformação de matéria vegetal em álcool combustível. Sem falar em outros investimentos milionários de governos estaduais, universidades, e de um batalhão de empresas de biotecnologia competindo como loucas para revolucionar o setor.

As pesquisas brasileiras, por outro lado, parecem estagnadas. Atento ao problema, o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) está criando em Campinas, no interior paulista, um centro nacional dedicado exclusivamente ao desenvolvimento tecnológico do etanol. O Centro de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), como deverá ser chamado, prevê investimentos da ordem de R$ 150 milhões nos próximos cinco anos. O primeiro cheque, de R$ 10 milhões, já foi depositado, e as entrevistas para contratação de pessoal devem começar nesta semana, segundo apurou o Estado.

A justificativa para o centro é detalhada em um documento interno que descreve o projeto. Segundo o texto, a liderança do Brasil no setor "está seriamente comprometida em função da frágil base de pesquisa e desenvolvimento atualmente existente". Portanto, considera-se "imprescindível, com absoluta urgência, iniciar um grande esforço de pesquisa e desenvolvimento, mais estruturado e mais intenso do que é feito atualmente".

Caso contrário, conclui o texto, "a posição de supremacia que o País ocupa hoje poderá ser facilmente alcançada por países sem tradição na produção de etanol, mas que contam com ampla capacidade de investimentos em pesquisa direcionada".

PLANEJAMENTO

O centro será construído junto ao Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) e, assim como ele, será gerido pela Associação Brasileira de Tecnologia de Luz Síncrotron (ABTLuS), via contratos com o MCT. Uma usina experimental para produção de etanol celulósico também consta no plano de obras.

O projeto é filho de um estudo iniciado em 2005 pelo Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), por encomenda do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), uma organização social ligada ao MCT. O projeto é coordenado pelo físico Rogério Cerqueira Leite.

O estudo mostrou que há vários projetos de pesquisa com etanol no Brasil, mas em número e escala muito abaixo do necessário para garantir a competitividade do País num futuro mercado internacional de biocombustíveis.

"A liderança que o Brasil tem hoje não caiu do céu; foi conquistada com muito desenvolvimento tecnológico", afirma Marcelo Poppe, responsável por projetos de Energia do CGEE. "Precisamos investir de novo nesse esforço, ou seremos ultrapassados."

Para a bioquímica Elba Bon, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), os esforços de pesquisa estão descoordenados. "Todo mundo quer fazer tudo, em vez de sentar junto e distribuir funções. Falta uma organização de competências em torno de um objetivo único", afirma Elba, que coordena uma rede de quase 20 grupos de pesquisa focada no etanol de celulose - o Projeto Bioetanol. "Nos EUA eles sabem o tamanho do desafio; aqui todo mundo se acha importante, todo mundo quer fazer tudo, da cana até o combustível."

A proposta do CTBE é fazer esse ordenamento. Além de manter uma equipe própria de cem pesquisadores, o centro trabalhará com uma rede de laboratórios associados, articulando e financiando pesquisas com etanol em outras instituições.

Uso da celulose triplicaria ganho de energia

Todo o etanol brasileiro hoje é produzido a partir de caldo de cana. Assim como nas barracas de feira e pastelarias, a cana passa por uma máquina de moagem, que separa a parte líquida (caldo), cheia de açúcar, da parte sólida (bagaço), recheada de celulose. Só que, em vez de servido no copo, o caldo é jogado num fermentador com leveduras (fungos microscópicos), que transformam o açúcar em álcool.

Os EUA fazem o mesmo com o amido de milho. Mas o que todo mundo quer agora é fazer isso com a celulose. A celulose é um componente básico de todas as plantas, e é também uma molécula de açúcar. O problema é que é grande demais e dura demais para as leveduras se alimentarem dela. Como um tijolo de rapadura para uma formiga.

O desafio é desenvolver processos capazes de desmontar a celulose em pedaços menores, que as leveduras consigam fermentar. Isso permitiria, em tese, transformar qualquer matéria vegetal em etanol. Para o Brasil, seria um ganho enorme, já que dois terços da energia estão no bagaço e na palha da cana. Ou seja: com o caldo, estamos usando só um terço do potencial energético da planta.

Pesquisa mira produtividade
Evitar explosão de área plantada eliminaria conflitos

Com ou sem celulose, o primeiro passo para aumentar a produção brasileira de etanol é aumentar a produtividade da cana-de-açúcar no campo. A equação é simples: quanto mais cana, mais açúcar, mais celulose, mais energia. O desafio lançado aos cientistas é fazer isso sem precisar aumentar demais a área plantada, evitando conflitos com a produção de alimentos e a preservação ambiental.

Além do melhoramento genético tradicional, alguns laboratórios estão investindo no desenvolvimento de canas transgênicas. Também em Campinas, não muito longe de onde vai ser construído o Centro de Ciência e Tecnologia do Bioetanol, a empresa de biotecnologia Alellyx trabalha com dois tipos de cana geneticamente modificada: uma com alto teor de sacarose (açúcar) e outra, mais resistente a condições de seca. Quinze experimentos de campo estão em andamento, autorizados pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).

Um terceiro projeto busca uma solução inusitada para o problema da celulose. Os cientistas querem inserir no DNA da cana genes codificadores de celulases - as tais enzimas que degradam a celulose - de modo que a planta possa ser convertida em etanol mais facilmente.

O biólogo Fernando Reinach, co-fundador da Alellyx e diretor da Votorantim Novos Negócios, que financia a empresa, vê com bons olhos a criação do CTBE em Campinas. Mas considera o esforço brasileiro "minúsculo" frente ao de outros países.

"Toda vez que o Brasil entrou numa corrida, entrou quando todo mundo estava na frente. Agora nós é que somos líderes e precisamos nos organizar para continuar na frente", diz. "O que está acontecendo é que estamos perdendo. Na tecnologia do futuro, já ficamos para trás."

DOENÇAS

Na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), cientistas estão desenvolvendo canas transgênicas resistentes à seca e a três tipos de pragas: vermes nematóides, broca da cana e broca gigante. A meta é tornar a lavoura mais produtiva, reduzir o uso de pesticidas e permitir a ocupação de terras menos férteis - beneficiando, por tabela, a produção de etanol.

Mesmo sem transgenia, só com o melhoramento tradicional de variedades, já seria possível aumentar a produtividade agrícola da cana em 30%, segundo o geneticista e secretário-executivo da Embrapa, José Geraldo Eugênio de França. Ele também considera crucial que o País invista no etanol de celulose. "Não podemos ficar fora desse vagão", disse. "O Brasil não pode abdicar de investir nessa tecnologia, mesmo que com recursos menores."

O Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), em Piracicaba, também tem projetos com canas transgênicas, autorizados pela CTNBio.

EUA têm mais dinheiro, mas Brasil tem a matéria-prima

Nem todos acreditam que o Brasil está ficando para trás na corrida pelo etanol de celulose. Para o engenheiro químico Jaime Finguerut, o País não só tem condições de competir nas pesquisas, como poderá dominar a tecnologia até mesmo antes dos americanos. "Não temos US$ 1 bilhão, mas temos alguns diferenciais muito fortes", diz. "Essa tecnologia tem de começar aqui. Se não der certo no Brasil, não vai dar certo em lugar nenhum."

Finguerut é gerente de desenvolvimento estratégico industrial do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), um núcleo privado de pesquisa da indústria sucroalcooleira. A grande vantagem do Brasil, segundo especialistas, é ter uma fonte de biomassa farta, altamente energética, de fácil digestão e imediatamente disponível: o bagaço da cana.

Enquanto os Estados Unidos precisariam criar uma cadeia de produção inteiramente nova para a biomassa de milho ou gramíneas, por exemplo, o bagaço brasileiro já está integrado à cadeia produtiva da cana - moído, lavado e pronto para uso. Quase todo o bagaço hoje é queimado nas próprias usinas para produzir eletricidade. Com a transformação de celulose, tudo isso poderia virar álcool também.

Nenhum outro país possui um estoque tão farto de biomassa. "Existe uma verdade preponderante: o bagaço é nosso", diz a pesquisadora Elba Bon, coordenadora científica do Projeto Bioetanol, do qual o CTC faz parte. "Eles (os americanos) têm todas as vantagens tecnológicas, mas nós temos a matéria-prima."

A tecnologia para transformar celulose em etanol, na verdade, já existe. Está sendo usada em várias plantas piloto ao redor do mundo, inclusive uma no Centro de Pesquisas da Petrobrás, no Rio, inaugurada em outubro pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas não há nada em escala comercial.

Em resumo, o processo é possível, mas é caro demais. Um dos gargalos é o custo das enzimas necessárias para quebrar a celulose em pedaços menores, passíveis de fermentação. Cientistas no mundo todo estão à caça de microrganismos capazes de sintetizar enzimas mais eficientes e com menor custo de produção.

O Projeto Bioetanol patenteou no ano passado um processo de transformação enzimática de celulose, que precisa ser testado em escala industrial.

ÁLCOOL VS. ELETRICIDADE

Para o especialista Luiz Augusto Horta Nogueira, professor da Universidade Federal de Itajubá e ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo, o etanol celulósico não é prioridade para o Brasil. Segundo ele, é mais vantajoso ao País usar o bagaço para produzir eletricidade do que álcool. "Falar em etanol de bagaço hoje é precipitado", disse. "É não fazer as contas."

Mesmo no cenário mais otimista, calcula ele, o custo do etanol de celulose será equivalente ao do etanol convencional da cana: 23 centavos de dólar.

OESP, 30/03/2008, Vida, p. A24

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