OESP, Economia, p. B5
13 de Fev de 2007
'País quer enriquecer urânio', diz Goldemberg
Agnaldo Brito
O físico José Goldemberg, ex-secretário de Meio Ambiente de São Paulo, disse ontem que o Brasil não precisa investir numa "energia cara", como a nuclear, se pretende resolver o problema do déficit de eletricidade nos próximos anos. Segundo Goldemberg, o plano da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), que prevê a retomada do programa nuclear com a proposta de construção de até seis usinas, serve apenas para ampliar o enriquecimento de urânio para exportação e não para resolver o déficit do setor elétrico.
Goldemberg afirma que o Brasil tem potencial hídrico para atender à demanda de energia do País, sem a necessidade de buscar alternativa nuclear. "O nosso problema é falta de energia, mas, diferente da França, da Alemanha e do Japão, temos alternativas." Atualmente, apenas um terço do potencial hidrelétrico é explorado no País.
Secretário de Ciência e Tecnologia do governo Fernando Collor de Mello (1990-1991), Goldemberg disse que a ampliação do parque gerador nuclear é uma desculpa para o Brasil investir em enriquecimento de urânio para abastecer o mercado mundial.
O investimento para atender ao aumento da demanda sugerida pelo CNEN seria de US$ 1 bilhão em investimentos na cadeia de produção do elemento combustível usado nos reatores nucleares, o que inclui mineração, beneficiamento e montagem das estruturas com o combustível.
O Brasil é dono da sexta reserva mundial de urânio e detém a tecnologia das supercentrífugas. A empresa detentora da tecnologia é a estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB), localizada em Resende (RJ).
O plano da INB é até o fim desta década produzir 60% da demanda de recarga dos reatores das usinas de Angra 1 e 2. Até 2015, o Brasil poderá alcançar a auto-suficiência para abastecer até Angra 3, caso esta saia do papel. O País já faz até poucas exportações de urânio enriquecido.
De acordo com o físico, o Brasil deveria apenas concluir a construção de Angra 3. Para ele, a retomada do programa nuclear reacenderia dúvidas sobre o uso do urânio no Brasil. "Seria reacender uma polêmica hoje adormecida. O Brasil seria alvo de dúvidas como as que o Irã enfrenta", avalia. Além disso, há o problema do destino final do lixo nuclear, algo ainda não definido.
OESP, 13/02/2007, Economia, p. B5
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