O Globo, Opinião, p. 14
29 de Mar de 2015
País precisa de política de economia de água
Atividades econômicas são responsáveis por mais de dois terços do consumo no Estado do Rio, mas falta uma definição de processos e metas para poupar
Em tempos de seca, os apelos para não deixar a torneira pingando, evitar banhos demorados e se mobilizar para aproveitar a água da chuva são recados simples e diretos. Assim, toda a população é convocada a racionalizar o consumo e evitar que o drama se agrave. Que é oportuno bater nessa tecla, ninguém discute. No entanto, a questão extrapola - e muito - a vida doméstica. Atividades econômicas são responsáveis por mais de dois terços do consumo no Estado do Rio de Janeiro, na seguinte proporção: indústria, 37,7%; agropecuária, mineração e outros setores, 36,6%, conforme artigo do deputado estadual Flavio Serafini (PSOL-RJ), publicado no GLOBO semana passada.
Esses números indicam a urgência de fazer do uso racional da água não só questão de conscientização. É claro que a adesão do consumidor doméstico é muito importante, mas a atividade econômica, por natureza, exige uma racionalidade na qual não podem faltar a definição clara dos processos a serem adotados e as metas - e punições - para poupar insumo tão vital. Ou seja, é preciso uma política.
É como um bem que deve gerar riqueza que a água é vista na Austrália, um dos países mais secos do mundo e exemplo na forma de tratar o assunto. Os prejuízos à economia são evitados com medidas duras, inclusive punições para quem não cumpre a sua parte.
Nos casos mais graves, a água só pode ser usada em estabelecimentos públicos e para o gado. "Um copo é visto como um cifrão", disse ao GLOBO o brasiliense Marlos de Souza, diretor de Política e Planejamento da Autoridade da Bacia Murray-Darling, a região australiana mais importante para o setor agropecuário. E a situação é considerada alarmante quando os reservatórios operam com 30% de sua capacidade - nos nossos no Rio Paraíba do Sul, o percentual é de 15%.
O Brasil vive situação oposta. Segundo estudo do Instituto Trata Brasil, mais de 6,5 bilhões de metros cúbicos de água tratada foram desperdiçados no país em 2013, correspondendo a uma perda financeira de R$ 8,015 bilhões ao ano e a cerca de 80% dos investimentos em água e esgoto. Uma tragédia em tempos de prevenção urgente contra a seca.
A postura das autoridades é lamentável. Tanto o governador paulista Geraldo Alckmin quanto a presidente Dilma Rousseff evitaram o assunto ano passado para não prejudicar suas campanhas à reeleição. Ele, responsável por um estado duramente castigado pela seca; ela, conhecedora dos riscos para o setor elétrico, até por ter sido ministra de Minas e Energia. Ambos empurraram o problema para frente, mas de nada adiantou. Apesar de chuvas recentes, o Sistema Cantareira, em São Paulo, continua em situação delicada. E o acionamento de termelétricas para gerar energia encareceu as tarifas ao consumidor. A conta começou a chegar.
O Globo, 29/03/2015, Opinião, p. 14
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