OESP, Economia, p. B9
12 de Mar de 2007
País pode voltar à 'monocultura da cana', diz especialista
Reunidos em simpósio no Rio, técnicos advertem que forte aumento das plantações terá impactos ambientais
Fabiana Cimieri
Ao contrário da euforia dos produtores e do governo com a perspectiva de produção recorde e crescimento na exportação do etanol, pesquisadores reunidos no 1o Simpósio Brasileiro de Mudanças Climáticas, realizado ontem no Rio, vêem com cautela a expansão da lavoura da cana-de-açúcar, por causa das implicações ambientais de longo prazo. Logo na palestra de abertura do evento, o físico Luiz Pinguelli Rosa, ex-presidente da Eletrobrás, alertou para o risco de o País voltar a ser uma 'monocultura da cana'.
Apesar de emitir menos gases causadores do efeito estufa, o etanol produzido a partir da cana também emite gás carbônico quando queimado. 'É bom que os EUA saiam do álcool de milho, mais poluente, para o álcool da cana, mas temos de cuidar para não sermos pressionados a voltar a ser uma monocultura da cana', disse Pinguelli.
O agroclimatologista da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Eduardo Assad, demonstrou preocupação com o fato de os estudos de viabilidade para plantação de novos canaviais estarem se concentrando no sul do Mato Grosso, mais precisamente na região do Pantanal Mato-Grossense. 'Etanol é muito bom, mas quando aparecerem as células de hidrogênio, fonte alternativa de energia que já vem sendo pesquisada nos países desenvolvidos, vamos perder mercado', disse.
Além do impacto na biodiversidade, ele adverte para o fato de que, por causa do clima do local, a produção de cana no pantanal tende a ser de baixa qualidade e de valor comercial inferior ao da cana plantada em regiões mais favoráveis. Segundo ele, o clima do Pantanal é semelhante ao do semi-árido, porém com forte nebulosidade. 'O calor e a umidade provocam a floração, processo que gasta muita energia da planta, reduzindo a produção de sacarose.'
Segundo Assad, as outras áreas para onde os canaviais estão se expandindo, como o sul dos Estados do Maranhão, Piauí e Tocantins, são mais adequadas para o cultivo e teriam menos impacto no meio ambiente. A melhor solução a longo prazo, diz, é a produção de biodiesel aproveitando produtos locais, como o dendê no Norte, o babaçu no Nordeste, e outras oleaginosas, como o girassol.
Assad acaba de concluir um estudo sobre o impacto do aquecimento global na plantação de cana-de-açúcar. A pesquisa, ainda não publicada em revistas científicas, aponta poucas alterações, já que é uma planta muito resistente ao calor e à seca. A principal mudança seria em São Paulo, onde o cultivo teria de passar da região oeste para o leste do Estado.
Anteriormente, Assad já havia estudado as alterações climáticas no cultivo do arroz, feijão, soja milho e café. Agora, com a divulgação dos resultados do estudo do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), que prevê uma alteração de até 5oC até 2100, ele refez os modelos, com conclusões pessimistas.
Segundo o estudo, um aumento de 1oC na temperatura mínima - a previsão mais favorável, segundo o IPCC -, traria um prejuízo de US$ 375 milhões no plantio de café. Um aumento de 5oC provocaria o fim da produção do café em São Paulo. Os cultivos mais atingidos com o aceleramento do aquecimento global são o de café e o de soja. Os Estados mais prejudicados com a situação seriam os do Nordeste e o Rio Grande do Sul.
OESP, 12/03/2007, Economia, p. B9
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