O Globo, Rio, p. 14
06 de Set de 2009
Ozônio na versão do mal
Gás nocivo aos pulmões está 150 vezes acima do limite na área da Reduc
Tulio Brandão e Custodio Coimbra
Aline dos Santos não consegue se livrar do ar pesado da infância em Campos Elíseos, Duque de Caxias. Ainda criança, incapaz de respirar na atmosfera turva de gases poluentes da Refinaria Duque de Caxias (Reduc) e de outras indústrias e veículos, ela vivia imersa em nebulizações. Hoje, sem qualquer solução dos órgãos públicos e das indústrias para o ar contaminado, ela vê o sufoco se repetir com a filha Gabriele. A diferença é que, agora, além de velhos vilões dos pulmões, como partículas inaláveis, a população descobriu que vive sob a ameaça do ozônio, poluente monitorado há apenas uma década. Apesar de novo na estatística, o gás é hoje o que mais preocupa nas estações de monitoramento de Caxias: desde 2004, o poluente viola o padrão tolerado pelo homem, em média, 150 vezes por ano. O limite disposto em lei é de apenas uma violação anual.
O Instituto Estadual do Ambiente (Inea), responsável pelo monitoramento da região, admite o aumento do registro do gás na região do Polo Gás-Químico da Baixada Fluminense.
O poluente, que na estratosfera protege a Terra de radiações, como a ultravioleta, causa enormes danos quando está ao alcance do homem: irrita as mucosas do sistema respiratório, provoca tosse, causa prejuízos à função pulmonar, reduz a resistência à gripe e à pneumonia e agrava asma, bronquite, enfisema e doenças do coração.
A analista ambiental do Inea Paulina Porto, especialista em poluição do ar, explica que o ozônio registrado nas quatro estações de Duque de Caxias, compradas pela própria Reduc, não se forma apenas a partir dos gases emitidos pela indústrias, mas também pelos veículos que circulam na região:
- O ozônio é, atualmente, o maior vilão da poluição do ar. É óbvio que, no Polo Químico, as indústrias têm participação importante, mas há uma contribuição expressiva dos veículos. Perto dali, estão a Via Dutra, a Linha Vermelha, a Rodovia Washington Luiz e a Avenida Brasil
Um plano de qualidade
Os endereços das quatro estações que denunciaram a explosão do ozônio tornam o problema ainda mais grave. Duas delas estão em escolas estaduais: a de Pilar, no Ciep Cora Coralina, e a de Campos Elíseos, no Colégio Estadual Adelina de Castro. A terceira fica a menos de 200 metros do Hospital Estadual Adão Pereira Nunes, em Saracuruna; e a última, na Secretaria de Meio Ambiente de Caxias.
Uma técnica de enfermagem do Hospital de Saracuruna, que preferiu não se identificar, deu o diagnóstico: - É simples. Mais da metade das crianças chega com problemas respiratórios. Quase todo mundo aqui sofre desse mal.
Os índices são tão assustadores que as indústrias da região, unidas pela Associação de Empresas de Campos Elíseos (Assecampe), estão elaborando um plano de qualidade do ar para a região do polo industrial. A Petrobras, responsável pela Reduc e pela Usina Termelétrica Governador Leonel Brizola, informou, em nota, que participa do comitê, ao lado da Quattor, da Lanxess e da Nitriflex, responsável pelo projeto. A secretária estadual do Ambiente, Marilene Ramos, reconhece que o quadro atual impede qualquer novo licenciamento na região. Por isso, anuncia uma novidade:
- Vamos criar um mercado, limitando as emissões de gases. As indústrias que conseguirem ficar abaixo do limite poderão obter o direito de emitir novos gases. A relação será de dois emitidos para um direito adquirido.
Isso vai ajudar a reduzir a poluição.
No Rio, também pode haver problemas. Segundo o Inea, os índices de ozônio na cidade só não estão altos por causa da localização das estações.
O poluente - formado pela reação do hidrocarboneto e do óxido de nitrogênio (ambos gerados por indústrias e veículos) com a luz do sol - não se forma no local e na hora da emissão dos gases originários. E, na capital, só há equipamentos instalados muito perto das fontes de emissão de poluentes. O órgão estuda levar os equipamentos que medem o ozônio para áreas onde o gás será identificado.
Enquanto isso, em Caxias, onde há diversas estações distantes mais de um quilômetro de indústrias e estradas, o ozônio sabidamente afeta a todos. No Ciep Cora Coralina, sem se identificar, uma funcionária lamentou que as crianças fiquem em condição tão inóspita:
- Volta e meia, elas aparecem com dor de cabeça, coceira nos olhos e falta de ar. É triste.
Não muito longe da escola, na rua onde moram Aline dos Santos e sua filha Gabriele, a comunidade enfrenta como pode o fantasma da falta de ar.
Grace Kelli, com 23 anos e três filhos, apela para remédios.
- Outro dia, a Keilane passou sete dias no hospital com problema respiratório, mas nem sempre dá para internar. Por isso, tenho uma coleção de xaropes e receitas médicas em casa - disse, mostrando um maço de papéis assinados por médicos recomendando nebulização.
O instrumento mais importante na luta contra a poluição está na casa da doméstica Marli Santos, de 45 anos.
Ela resolveu socializar o único nebulizador das redondezas, já que quase ninguém tem dinheiro para comprar o próprio aparelho.
- Vem gente de todo lugar. O nebulizador tem mais de 20 anos e às vezes quebra. Aí, a gente pede a Deus e a máquina volta a funcionar.
Emissão de gases reprovará veículos a partir de 2010
Detran só dará licença a modelos aprovados em teste
Os veículos são responsáveis por 75% do total da emissão de gases no Estado do Rio, revela o Instituto Estadual do Ambiente (Inea). Por conta desse peso na poluição, o Detran anunciou que, a partir do primeiro dia útil de janeiro de 2010, todos os veículos submetidos à vistoria do Detran passarão pela inspeção de emissão de gases poluentes, com possível reprovação. Segundo o órgão, carros, motos, vans, ônibus e caminhões que emitirem poluentes acima do limite máximo não terão o documento de licenciamento emitido. Atualmente, a inspeção é feita apenas em veículos de grande circulação (frota-alvo), como táxis, vans e ônibus, e vários postos estão com os equipamentos desativados. O controle de emissão de gases é fruto de uma parceria entre a Secretaria estadual do Ambiente e o DetranRJ, iniciada em 1997.
Entre setembro e dezembro, a frota passará a ser vistoriada experimentalmente com os novos equipamentos, mas ainda sem reprovação.
Até hoje, o órgão só havia feito a inspeção de gases de forma educativa.
O presidente do Detran-RJ, Fernando Avelino, comemorou: - O Departamento de Trânsito do Rio será o primeiro do Brasil a realizar efetivamente a fiscalização de poluentes com reprovação.
Segundo a assessoria de imprensa do órgão, os equipamentos atuais de vistoria tiveram problemas com os dispositivos eletrônicos dos novos veículos. O tempo de verificação, segundo o Detran, muitas vezes passava de 40 minutos, já que os motores mais novos têm mecanismos que dificultam a estabilização da aceleração e a máquina só emitia laudos com o veículo em alta rotação. Diante do problema, o órgão decidiu desenvolver uma tecnologia para medir os gases em aceleração reduzida.
A partir de janeiro, a frota terá de ser aprovada segundo os novos padrões do Conselho Estadual de Meio Ambiente (Conema) da Secretaria Estadual do Ambiente. A nova resolução impõe padrões mais restritivos. Atualmente, os veículos com maior número de reprovação no teste de emissão são os da frotaalvo, com muito tempo de uso. Segundo a assessoria do Detran, o avanço tecnológico estaria contribuindo para melhorar a qualidade do meio ambiente.
De acordo com o último relatório sobre poluição do ar do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), à exceção do ozônio, quase todos os parâmetros associados à emissão de gases veiculares se mantiveram estáveis.
Segundo técnicos do órgão, o avanço da tecnologia dos veículos tem compensado a poluição da frota antiga e as falhas na fiscalização.
O Globo, 06/09/2009, Rio, p. 14
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