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Ótimo para trabalhar, ruim para viver

Diário da Amazônia - http://www.diariodaamazonia.com.br
10 de Ago de 2011

Dentro do novo panorama pelo qual passa Jacy-Paraná, distrito a 80 quilômetros de Porto Velho, afetado pela construção das usinas do rio Madeira, a atuação de associações se torna uma forma de unir a comunidade em busca de objetivos em comum para tentar minimizar prejuízos e dificuldades. José Willane é presidente da Associação dos Moradores de Jacy-Paraná há quatro anos e morador do distrito há 16. Ele explica que sua função é ajudar a reivindicar melhores condições para a localidade, junto à prefeitura. E afirma que hoje a participação dos moradores é mínima, já que muitos não acreditam mais que as mudanças possam acontecer e acabaram se afastando.

O presidente acha natural que as mudanças tenham "dois lados da moeda" e, por isso, o distrito ganha e perde com os novos empreendimentos. O aumento na oferta de emprego, melhores salários, desenvolvimento da região e a concorrência de mercado, são apontados por ele como pontos positivos. "Jacy renasceu com as obras", certifica.

Para Willane, a população do distrito agora tem "confiança no futuro" e já pode até lutar pela emancipação, se tornando um município independente. "As obras podem acabar, mas a hidrelétrica vai continuar aqui, próximo da gente. O governo vai continuar sendo obrigado a olhar pela cidade".

Mas quando o assunto é o outro lado da moeda, o semblante do presidente muda. Para ele, junto ao progresso vieram a violência, os problemas sociais, as drogas e a prostituição. A realidade é ainda mais grave quando se trata de saúde. "O posto de saúde era para estar funcionando do jeito como está hoje, quando a cidade tinha quatro mil habitantes, aponta. Willane também diz que as escolas "deixam a desejar" e que "não são suficientes".

"Se fosse feito tudo que já foi discutido em reuniões com comissões da prefeitura, já estaria melhor". A afirmação diz respeito à segurança pública, considerada por ele "fraca" e às obras de saneamento básico que eram para ter começado há dois anos. O asfalto e as obras da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) entram na lista de promessas não cumpridas. "Quando se fala em obras, a prefeitura sempre usa como justificativa as ampliações nas escolas e no posto de saúde e os quatro quilômetros de asfalto que fizeram, porque foram as únicas melhorias do local".

Como todos os entrevistados, Willane diz que o distrito deveria ter sido beneficiado antes do início da construção das usinas. Para ele, pode estar havendo uma jogada política: "Vão querer iniciar obras e liberar verba no ano que vem, ano de eleição, pra mostrar trabalho".

O presidente diz que Jacy-Paraná possui cerca de 3,5 mil votos e sabe que "para uma prefeitura é pouco" e que, por isso, "as autoridades preferem investir em Porto Velho".

Ao final da conversa, Willane resume em uma frase o que pensa sobre a situação do distrito: "Para se trabalhar, está ótimo, mas para viver está sem condições".

Contra-cheque, pesca e agricultura

Além de administrador do distrito, Nilton Barbosa é o vice-presidente da Associação Rural. Ele explica que a função da associação é dar suporte ao agricultor e dar base para os financiamentos. Atuando há pouco mais de 20 anos, a organização reúne um grupo de aproximadamente 80 pessoas.
Nilton afirma que existem grandes dificuldades em lidar com a área rural, e que conta com o apoio da Associação de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) e do Banco da Amazônia (Basa). O administrador garante que a população de Jacy, no geral, trabalha em três frentes: setor público, pesca e agricultura. Os produtos mais cultivados na região são banana, mandioca, abacaxi e café.

Independência financeira e descontentamento

Joana Ferreira da Silva é funcionária pública e, paralelamente, atua à frente da Associação das Mulheres há três anos. Ela diz que o principal objetivo é proporcionar às mulheres de Jacy benefícios, como cursos e capacitações visando à geração de renda. "Hoje tem bastante emprego aqui, em função das obras, mas até quatro anos atrás não tinha", explica a presidente.

De acordo com Joana, atualmente o trabalho da associação é tímido porque todas as mulheres possuem emprego e se reúnem apenas nos momentos de folga. Apesar do grupo já existir há 10 anos, não há motivação para continuar o trabalho.

Como mulher, Joana diz que as usinas trouxeram vantagens: "Tendo seu emprego a mulher passa a ser mais independente". Como moradora, as reclamações aparecem: "De uns dois meses pra cá deu uma melhorada, mas a violência está terrível. Na minha casa a gente não deixa nem sandália na porta porque ela não amanhece".

Morando em Jacy-Paraná há 19 anos, a jovem senhora já diz que os assaltos se tornaram recorrentes. Mercados e panificadoras são os principais alvos. "A vinda das usinas foi boa por um lado e ruim por outro. A gente não teve e ainda não tem estrutura para receber essa quantidade de pessoas que veio pra cá. Faltou incentivo público e isso facilitou tudo de ruim que tem acontecido agora", opina. "O povo diz que não tem segurança, não tem ambulância, não tem escola. Tem sim, mas não suprem a nossa necessidade", continua.

Outra reclamação é quanto ao preço dos imóveis. "Antigamente se comprava um terreno, uma casinha, com R$ 4 mil. Hoje em dia por menos de R$ 25 mil você não encontra", conta.

Para confirmar, o Diário da Amazônia visitou algumas das casas que possuem placas anunciando a venda. A afirmação de dona Joana é verdadeira: uma casa de madeira, com quatro cômodos, em um pequeno terreno do bairro Nova Esperança, custa R$ 40 mil, a vista.

Sintonia publicitária é a rádio cipó de Jacy

"Alô, alô, meu amigo, minha amiga". É assim que Lucas Silva inicia a transmissão do programa que apresenta na Rádio Sintonia Publicitária, em Jacy-Paraná. O menino, de apenas 11 anos, ajuda o padrasto, Francisco Oliveira, a colocar no ar, diariamente, a programação da rádio. Com uma variedade de repertório, Lucas utiliza a aparelhagem improvisada e programas de computador ao mesmo tempo que atende ligações e reproduz os pedidos dos ouvintes.

A história da rádio começou em outubro de 2005, quando Francisco abandonou o emprego em uma empresa de comunicação de Porto Velho e com 400 metros de fios iniciou uma tímida transmissão, que contava com apenas três caixas de som, estrategicamente posicionadas em um poste do distrito; e um transmissor cedido por uma igreja.

A parceira com Lucas iniciou em maio deste ano. A mãe do menino, Odaci Martins, recém-chegada em Jacy-Paraná, procurou a rádio para divulgar seus serviços de babá. Após o primeiro encontro com Francisco, que estava viúvo, Odaci retornou à Sintonia Publicitária 20 dias depois para uma nova tentativa de conseguir emprego. A partir daí viraram amigos e logo iniciaram o namoro.

Hoje, os três moram juntos. Francisco cuida da rádio no período da manhã, enquanto Lucas está na escola e assume os equipamentos na parte da tarde. "Eu gosto de estar aqui [na rádio]. Para mim é diversão, mas ao mesmo tempo já aprendo uma profissão para o futuro", conta o simpático menino.

Assim, em família, a Sintonia Publicitária ganhou vida e, hoje, com 22 rolos de fios, totalizando quase nove mil metros de extensão, a rádio atinge todo o distrito. Para se manter, recebe uma quantia de R$ 100, por cada anúncio de comércio e divulgação de eventos e serviços oferecidos.

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