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Os sem-queimada

OESP, Economia, p. B2
Autor: MING, Celso
06 de Jun de 2007

Os sem-queimada

Celso Ming, celso.ming@grupoestado.com.br

Entendimento entre o governador paulista, José Serra, e a União da Indústria de Cana de Açúcar (Unica), que defende os interesses dos usineiros do Estado, garante a antecipação em sete anos do fim das queimadas na colheita da cana.

Uma lei estadual, a 11.241, de 2002, previa esse objetivo apenas para 2021. As queimadas se fazem imediatamente antes do corte. Um fogo rápido sapeca o canavial para eliminar a palha (folhas secas) e facilitar o trabalho manual.

Essas queimadas são parte do processo de produção. São feitas desde que a cultura da cana-de-açúcar foi introduzida no Brasil. O problema é que lançam uma quantidade colossal de monóxido de carbono na atmosfera (cerca de 800 milhões de toneladas por ano apenas em São Paulo) misturada com fuligem e cinza. Nos dias de vento, as cidades próximas do canavial recebem essa carga que invade as casas e obriga a população a respirar um ar carregado de partículas negras. A criançada na escola, onde as janelas não podem permanecer fechadas, não pára de tossir. O prejuízo para a saúde e para a limpeza pública é incalculável.

Sem as queimadas, a colheita manual fica impraticável. Um trabalhador corta, em média, 10 toneladas de cana por dia. Dispensada a queimada, não passaria de 2 ou, quem sabe, 3. A solução é a utilização intensiva da colheita mecânica, que só não é praticável em solos com declive superior a 12%. No ano passado, em São Paulo, apenas 26% da cana foi colhida por colheitadeiras.

O governador José Serra vai tratando de reduzir a deterioração da qualidade do ar e, ao mesmo tempo, de reduzir os custos da saúde pública no atendimento às deficiências respiratórias.

Está também se antecipando a um provável movimento de europeus e americanos que se apegam a argumentos ambientalistas para expandir seu protecionismo comercial e, assim, restringir importações de produtos brasileiros, especialmente agora que a qualidade e o baixo custo de produção do etanol nacional vão sendo reconhecidos.

O presidente da Unica, Eduardo Carvalho, não esconde que há um importante objetivo de marketing por trás da iniciativa. 'O produtor que conseguir eliminar inteiramente as queimadas ganhará um certificado (selo verde) emitido pela autoridade ambiental e seu produto (etanol) terá mais aceitação no exterior.'

Mas a mecanização eliminará ao menos 250 mil empregos: os 165 mil hoje existentes e mais 85 mil que se criariam com a expansão para dar conta da demanda de etanol. Uma única colheitadeira de cana corta cerca de 700 toneladas diárias e pode substituir 70 pares de braços. Isso eliminará outra acusação que vem de fora: o de uso de trabalho semi-escravo na produção de etanol.

A iniciativa de acabar com o foco de poluição é elogiável. Mas é preocupante a falta de empenho no remanejamento do pessoal que ganha o pão que o diabo amassou. Esses bóias-frias, sem-grana e sem-teto, vão se tornar sem-queimada. Vão deixar de empunhar o facão entre abril e dezembro, safra no Centro-Sul, e tenderão a engrossar os acampamentos dos sem-terra.

OESP, 06/06/2007, Economia, p. B2

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