OESP, Espaço Aberto, p. A2
Autor: NOVAES, Washington
05 de Set de 2008
Os riscos do clima para cada setor
Washington Novaes
Enquanto em Acra (Gana), na África, se discutia, em mais uma reunião da Convenção do Clima, como chegar a um acordo que permita reduzir em pelo menos 50% as emissões de gases que intensificam o efeito estufa - principalmente no uso de combustíveis como o petróleo, o carvão mineral e o gás -, no Brasil ocupavam páginas e páginas dos jornais os debates sobre quem terá direito às vultosas receitas que se espera obter com a exploração do petróleo descoberto na camada pré-sal, como é chamada. Sem nenhuma palavra sobre os cenários para o petróleo nos próximos anos e décadas, em função do seu papel nas mudanças climáticas. E com grande parte das opiniões dando como favas contadas que o Brasil se tornará grande exportador de petróleo - sem levar em conta possíveis restrições globais.
Na África, o secretário-geral da convenção, Yvo De Boer, pediu ajuda à comunicação mundial, de modo a criar pressão política sobre os governos, já que vários relatórios indicam prazos cada vez mais curtos para se chegar a reduções efetivas nas emissões de gases. Tanto o presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), Rajendra Pashauri, como o ex-economista-chefe do Banco Mundial sir Nicholas Stern pensam que temos poucos anos para começar a reverter o quadro das emissões, sob pena de conseqüências muito graves.
Outro relatório, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, pede que todos os países deixem de subsidiar o uso de energia, porque esse caminho, além de não ajudar os pobres, desperdiça recursos e é ruim para o cenário do clima. Em alguns países, os subsídios à energia são maiores que os recursos destinados à educação e à saúde. Quem mais subsidia é a Rússia (US$ 40 bilhões anuais), seguida do Irã e do Afeganistão. Mas o Brasil não está fora, principalmente em setores como o dos eletrointensivos (alumínio, ferro gusa), que consome quase 30% da energia total no País, em grande parte na produção de bens exportados. Se todos os subsídios à energia fossem eliminados, diz o relatório, as emissões de gases cairiam 6% - o que não é pouco, em 2007 elas cresceram 2,8%. De Boer sugeriu também que os países comecem a inventariar suas emissões nas áreas da produção do cimento, do aço e do alumínio. Mas os países produtores protestaram, alegando que esse caminho dará margem a que os importadores imponham taxas na entrada desses produtos.
Um terceiro tema capital para nós foi a discussão em Acra sobre como reduzir as emissões de gases em conseqüência de desmatamento. São 130 milhões de hectares anuais desmatados no mundo, segundo a Organização para a Alimentação e a Agricultura, da ONU. E o desmatamento, juntamente com mudanças no uso do solo e queimadas, já responde por quase 20% das emissões totais. No Brasil (inventário de 1994) são 750 milhões de toneladas anuais de dióxido de carbono emitidas por esse caminho. Em Acra, discutiram-se formatos financeiros para incentivar a conservação de florestas, que podem custar entre US$ 20 bilhões e US$ 30 bilhões anuais, segundo o WWF - mas ainda sem acordo, principalmente para saber quem paga.
É um tema que precisa ser colocado em sua justa medida. Até aqui, em geral se considera que o problema brasileiro nessa área está todo na Amazônia. Mas, segundo a Secretaria de Mudanças Climáticas, ali ocorrem 59% das emissões desse tipo. Quase todo o restante, portanto, ocorre no Cerrado, onde se desmatam 22,1 mil quilômetros quadrados por ano. E uma das primeiras decisões do atual ministro do Meio Ambiente foi a de retirar municípios desmatadores do Cerrado na transição para a Amazônia da proibição de novos créditos oficiais.
Quase ao mesmo tempo que se discutia o clima em Acra, da Semana Internacional da Água, em Estocolmo, veio uma notícia surpreendente: o Brasil lidera a importação "virtual" de água no mundo, pois há mais uso do líquido implícito em produtos que importamos (commodities, tecidos e outros) do que nos itens que exportamos (principalmente carnes e grãos). Seriam 199 bilhões de metros cúbicos anuais importados, ante 91 bilhões exportados, com um saldo negativo de 107 bilhões de metros cúbicos anuais . Até aqui se argumentava que o Brasil era grande exportador virtual e deveria exigir compensação por isso dos países industrializados. Agora...
A discussão nessa área está acesa também na Alemanha, onde, segundo o Der Spiegel, o "lobby do agronegócio" tenta impedir uma discussão que os ambientalistas querem levar à frente, que é a das emissões de gases pela agropecuária no país - 133 milhões de toneladas anuais equivalentes de dióxido de carbono, provenientes do metano emitido pelo gado e das emissões da agricultura, inclusive orgânica (ante 152 milhões de toneladas/ano dos transportes). O Foodwatch, um organismo de proteção ao consumidor, quer eliminar subsídios agrícolas e taxar vários produtos, como queijo, leite, carne, além de proibir a importação de rações para o gado provenientes de áreas desflorestadas. É uma discussão tão difícil quanto a que se esboça no Brasil, onde o rebanho bovino (mais de 200 milhões de cabeças) responde pela emissão de mais de 10 milhões de toneladas anuais de metano (equivalentes a quase 250 milhões de toneladas de dióxido de carbono, tanto quanto os setores industrial e de transportes somados).
Enfim, essas e outras discussões evidenciam que não há como escapar à questão das emissões e sua relação com o clima em todos os setores, seja o do petróleo, do agronegócio, dos eletrointensivos ou qualquer outro. Recente relatório do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, que reúne 200 corporações, afirma que esses problemas exigem novas estratégias, para permitir a sobrevivência de muitas empresas. Inclusive porque "os riscos são diferentes para cada setor". É bom pensar.
Washington Novaes é jornalista
E-mail: wlrnovaes@uol.com.br
OESP, 05/09/2008, Espaço Aberto, p. A2
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.