VOLTAR

Os meridianos da independência

OESP, Alías, p. J3
Autor: AB'SABER, Aziz
19 de Dez de 2004

Os meridianos da independência
Estudioso da Amazônia, o geógrafo de Lula chama de incompetente o primeiro escalão do governo

Alessandro Greco

Aziz Ab'Saber completou recentemente 80 anos. Professor emérito da USP, autor de mais de 300 trabalhos acadêmicos e considerado um dos geógrafos mais importantes do mundo, a essa altura da vida sente-se à vontade para defender suas bandeiras de forma franca e com a consciência tranqüila. Não se furta, por exemplo, a admitir a decepção com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, de quem se tornou amigo e consultor desde a campanha de 1989. Um dos primeiros intelectuais a embarcar no projeto Lula Presidente, ao lado de nomes como a filósofa Marilena Chauí e o escritor Antônio Cândido, desde o início de 2002 não teve mais contato com o presidente que ajudou a eleger. Ressente-se disso.
Ab'Saber dedica-se há décadas a investigar fenômenos relacionados com ecologia urbana, proteção de biodiversidade, paleoclimas e paleoecologia, patrimônio ambiental, entre outras áreas científicas. Queridíssimo por alunos e colegas, o veterano professor poderia ser definido assim: um oceano de informação, num deserto de vaidade pessoal. Paulista de São Luís do Paraitinga, continua a ir a campo para sentir a realidade brasileira, algo que governantes e parlamentares, segundo ele, evitam. Por essas e outras, o acadêmico de sapatos empoeirados anda muito indignado com o que tem visto e ouvido.
Durante cinco horas - em duas sessões -, ele falou de suas angústias de brasileiro para o caderno Aliás: não poupa o primeiro escalão do governo (sofre de "incompetência técnica, científica, administrativa e social"), critica o projeto de transposição das águas do São Francisco ("afinal, a quem essa obra servirá?"), duvida da recuperação do Rio Tietê ("o rio vai ficar bonito, mas continurá poluído") e denuncia o total desconhecimento da Amazônia por parte de quem já vestiu e veste a faixa presidencial.
O senhor é amigo do presidente Lula há anos. Por que tem se decepcionado com o governo?
É uma situação delicada. Não quero ofender o Lula. Mas, ao mesmo tempo, tenho verdadeira indignação com a incompetência, de modo geral, do primeiro escalão do governo. Incompetência técnica, científica, administrativa e social.
Tem conversado com o presidente sobre os problemas do Brasil?
Não falo com ele desde o início de 2002, quando estive com mais 30 pessoas de várias áreas em uma reunião com ele, o (Antonio) Palocci (ministro da Fazenda) e o (Luiz) Dulci ( secretário geral da Presidência ), em São Paulo. Nessa conversa, todo mundo só falava do problema dos juros. Pedi a palavra e tentei falar um pouquinho sobre a transposição das águas do São Francisco. Alertei para a imprecisão dos números. Disse que não falaria em 10 milhões de empregos, mas em alguns milhões. Nessa hora, o Palocci cochichou no ouvido do Lula e, logo depois, recebi um papelzinho escrito "um minuto para terminar". Depois disso, nunca mais falei com o presidente. Às vezes, pessoas ligadas a ele me ligam. São sempre muito gentis.
Qual a sua visão do Brasil hoje? Há setores em que o País vai bem?
Acho que o presidente está acertando em questões nacionais, e nas nossas relações com outros países. O setor econômico, certamente, tem resultados consistentes. Isso porque o Palocci obedece rigidamente às indicações do Fundo Monetário Internacional. Em relação à educação, à preservação ambiental e a outros pontos, os erros são bárbaros. Falta estudá-los seriamente, com profundidade e interdisciplinaridade. Na área social, nota zero. No planejamento, para atender a áreas críticas do País, também nota zero. E há as falácias, como "a transposição das águas do São Francisco vai resolver o problema do semi-árido". Nota zero, zero, zero.
Por que é uma falácia?
Essa história me deixa indignado porque eles, os governantes e os políticos, não têm noção de escala, e sabem que o povo também não tem. O semi-árido tem 750 mil quilômetros quadrados, no mínimo. A transposição não irá resolver o problema. É preciso também saber a quem irá servir a transposição das águas. Se servirá aos capitalistas, que têm fazendas e moram em apartamentos chiques em Fortaleza ou Recife? Ou aos pobres da região, pessoas que passaram a vida resistindo à seca? Fiz um trabalho pequeno sobre esse assunto, quando era professor de Planejamento, na USP. Estudando a região do Jaguaribe, no Ceará, que pretensamente será a mais beneficiada pela transposição das águas, parei em uma pensão para descansar. Fazia um calor tremendo e fui ao rio. Um senhor olhava suas culturas de mandioca, milho e feijão. Estava vendo se não havia nascido erva daninha. Perguntei se era econômico o que ele estava fazendo. Disse que não sabia, mas que era a base de sua sobrevivência, já que não tinha terras e estava ameaçado por todos os lados. Disse, também, que os fazendeiros das terras altas na época da seca iam ao Recife e a Fortaleza, e lá conseguiam que fosse liberada a água dos açudes, no departamento de obras. Com isso, a água alagava e destruía as culturas de gente como aquele senhor, que perdiam a sua última forma de resistência. Veja, não sou contra a idéia da transposição das águas, quero apenas fazer uma previsão de impactos positivos e negativos. O problema essencial é que, para um país do tamanho do Brasil, não basta pegar um pequeno ponto e fazer dele uma demagogia sobre planejamento. Com os R$ 2 bilhões necessários para iniciar a transposição do São Francisco, seria possível resolver vários outros problemas do Nordeste. Mas, aí, quando o resultado não for o esperado, quem começou a transposição vai dizer que iniciou o projeto e a responsabilidade é de quem não deu continuidade.
Qual a sua visão do Fome Zero?
Posso falar mal de certos setores do governo porque sempre fui muito amigo do Lula, e vou continuar sendo. Mas todos os erros que ele fizer, eu criticarei. No começo do atual governo, quando se falou em Fome Zero, pensou-se em alguns lugares do Nordeste para servir de piloto. Um deles foi Guaíba, no Piauí. Tudo de Fome Zero foi então centrado em Guaíba. Acho ótimo do ponto de vista humano, assistencial e social, mas e os outros 750 mil quilômetros quadrados de sertões diferenciados? Se vou fazer um assistencialismo sub-regional, tenho de perceber todos os setores e não focar um só. Outro problema é percorrer as áreas e pensar somente no voto. Isso dá certo para políticos, mas não para o País. Lula fez propaganda do Fome Zero antes da vitória. Funcionou para as eleições. Depois, quando presidente, continuou falando em Fome Zero. O programa está fracassando. O próprio presidente disse que é preciso reciclá-lo.
O presidente já disse que a Amazônia brasileira não pode continuar intocada, mesmo porque lá moram 20 milhões de pessoas. O senhor concorda?
É um erro sem tamanho afirmar isso. Cerca de 70% dessa população já migrou para as cidades devido à dificuldade de conseguir um emprego na agropecuária. O problema principal é saber como a Amazônia está sendo tocada, por quem e por que tipo de capitalismo. Para minha decepção, os governantes não fizeram nada, realmente nada para conhecer a Amazônia. Hoje, não tenho esperança que trabalhos sérios de pesquisadores e cientistas cheguem aos governantes.
O senhor costuma dizer que o interesse internacional pela Amazônia é menos pelo subsolo e mais pelos recursos hídricos...
Digo sempre que é também pelos recursos hídricos, minerais e nas espécies de madeira nobre, que têm alto valor aqui e lá fora. O recurso hídrico está sempre na ordem do dia porque desperta cobiça e a Amazônia é um tesouro de águas do ces. Na área do minério, o (ex-presidente) Fer nando Henrique Cardoso privatizou a Vale do Rio Doce, um dos maiores crimes que ele cometeu. Não era só o minério de ferro, era o cartão de visitas do País. Na Amazônia há o último grande distrito mineral descoberto no século 20, com ferro em quantidade, um pouco de ouro, prata, nióbio e urânio. Agora, com as imagens de satélite, sabemos que não há possi bilidade de achar outro igual. Privatizar e perder o potencial econômico disso foi muito ruim.
O que seria um bom exemplo dessa perda?
Quando estive na França, algumas pessoas correram para mim e disseram: "professor, diga aos seus colegas que é muito triste saber que o minério de Carajás, comprado a preços aviltantes, serviram para fazer o túnel do Canal da Mancha". Fiquei abismado, não sabia disso. Hoje ainda não temos uma boa ponte para atravessar da margem direita para a região de Manaus. Temos o aço, temos tudo, mas não temos a ponte, ainda. É um problema sério. O caso do manganês é outro. Muita gente achava que a descoberta dele na Serra do Navio, no Amapá, traria desenvolvimento para a região. Não trouxe e o manganês se esgotou rapidamente.
E o que o governo deveria fazer para desenvolver a Amazônia?
Um governo decente tem de se preocupar com toda a Amazônia, não com um ponto ou uma linha específica. Governantes deveriam, no início do mandato, fazer uma equipe polivalente para entender a Amazônia. Ela criaria uma metodologia para que outras equipes fossem para as várias subáreas e verificassem os problemas da urbanização, dos igarapés que foram engolidos pelas cidades, dos dejetos que passam dentro das casas. Devemos pensar em um desenvolvimento que não agrida a continuidade da floresta. Lula assinou comigo essa idéia. Agora diz que a Amazônia não deve ficar intocada. Ninguém sabe o que há dentro do solo, mas a devastação destrói esses microorganismos das florestas, que têm uma biodiversidade fantástica. O solo é o tapete da vida na Terra! Ele é rico para a floresta. Mas, com a devastação, 80% dele passa a ser pobre na floresta amazônica. Se um dia houver um ecoturismo bem-feito, deve levar em conta a natureza e as populações tradicionais.
Como o senhor vê o avanço da soja na Amazônia? E no cerrado?
Na Amazônia, a tendência é de a soja entrar cada vez mais. É um fator de risco para a biodiversidade da região. Não se sabem as conseqüências da interação da soja com as florestas da Amazônia. No cerrado, com a entrada da soja estamos perdendo biodiversidade regional, que existe somente ali. Não é só o cerrado, mas cerradões, cerradinhos e campestres.
Como está o Projeto Floram, que pretende reflorestar 20 milhões de hectares pelo País?
Essa é uma das maiores tristezas da minha vida. Trabalhei 45 dias sem ver familiares e amigos para fazer o Floram, e ele ficou parado dentro do governo Collor. Não houve ninguém que olhasse para ele de forma técnica. Quando (José) Lutzenberger, então ministro do Meio Ambiente, soube do assunto, disse: "não li e não gostei". O projeto acabou engavetado. Isso me deixa profundamente triste pois o Floram não foi em frente por falta de uma política de governo.
O senhor falou com o presidente Lula sobre o Floram?
Conversamos quando ele ainda era candidato. Lula disse que não queria saber de reflorestamento, pois houve muita falcatrua nessa área em Brasília.
O senhor conhece bem os problemas das cidades. Recentemente, as chuvas castigaram São Paulo com várias enchentes. Essas enchentes têm solução?
As inundações estão ficando menos extensivas. Muitas áreas já perderam esse processo de inundação. Há várias soluções, entre elas os piscinões, e São Paulo está caminhando rapidamente para elas.
O senhor é contra a despoluição do Rio Tietê. Por quê?
Porque não funciona. Para salvar o Tietê, teríamos de começar a despoluir os córregos que deságuam nele. Isso é quase impossível, pois muitos deles estão tamponados. Não iremos resolver uma ferida longa como o Tietê sem resolver a causa dessa ferida, que são os córregos que constantemente jogam dejetos nele. O que estamos fazendo no Tietê, com os paredões de cimento, é um cenário novo que imita os dos grandes rios europeus, mas ele, o Tietê, continua poluído. Quando saio pela entrada principal da USP sinto o cheiro do (córrego) Pirajussara.
Somos um país imenso, mas vivemos em espaços exíguos nas cidades , como em países do tamanho do Japão. Por quê?
Desconcentração populacional não depende de vontade política. Toda vez que se tentou levar as pessoas de volta para suas terras de origem, o capitalismo falou mais alto.
O senhor daria um curso de preservação ambiental para governantes?
Não, porque não adianta. Precisamos de um sistema de educação amplo, que sensibilize as pessoas para a preservação, e que elas possam cobrar os governantes, em geral, muito ignorantes.
Hoje, a devastação provocada pela miséria não é muito mais grave que a devastação do meio ambiente produzida pelo dinheiro?
Eu me preocupo com as duas. Quem não fizer isso não pode pensar no futuro da humanidade.

OESP, 19/12/2004, Aliás, p. J3

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.