VOLTAR

Os lagos perdidos da Antártica

O Globo, Ciência, p. 28
12 de Out de 2011

Os lagos perdidos da Antártica
Isoladas sob o gelo há milhares de anos, áreas podem abrigar formas inéditas de vida

Cesar Baima
cesar.baima@oglobo.com.br

Isolados há centenas de milhares de anos, se não milhões, sob a grossa camada de gelo que cobre a Antártica, lagos intocados são o destino de três expedições que esperam alcançá-los e recolher amostras deles ao longo dos próximos dois anos. Como os ambientes estão isolados há tanto tempo, cientistas esperam encontrar até mesmo formas de vida nunca antes vistas. Além disso, buscam respostas para o aquecimento global.
Ontem, um consórcio britânico anunciou que a partir da semana que vem começa a enviar uma equipe de engenheiros e cerca de 70 toneladas de equipamentos com o objetivo de, no verão antártico de 2012/2013, perfurar mais de três quilômetros de gelo à procura de micro-organismos que tenham sobrevivido e evoluído no Lago Ellsworth, no oeste do continente.
Em fevereiro deste ano, cientistas russos foram forçados pelo frio a interromper os trabalhos de perfuração rumo ao Lago Vostok, próximo à estação polar da Rússia, quando faltavam pouco metros para atingir seu objetivo, a aproximadamente 3,7 quilômetros sob o gelo.
Últimos habitats inexplorados
Em janeiro, no entanto, eles voltam para o continente gelado na esperança de se tornarem os primeiros a obter amostras de água e sedimentos deste que é o maior lago subglacial da Antártica, com cerca de 250 quilômetros de comprimento e 50 de largura.
- Durante quase 15 anos planejamos explorar esse mundo escondido - conta Martin Siegert, professor da Universidade de Edimburgo e principal pesquisador do projeto britânico. - Mas só agora temos o conhecimento e a tecnologia para perfurar a camada de gelo mais grossa da Antártica e coletar amostras sem contaminar este ambiente intocado.
Ao todo, já são conhecidos 387 lagos subglaciais na Antártica. Eles são os últimos habitats inexplorados da Terra. Apesar de sua localização, a pressão exercida pelo peso do gelo e possíveis fontes de calor das rochas abaixo fazem com que os cientistas acreditem que muitos deles tenham temperaturas relativamente moderadas, próximas a 3 graus Celsius, com a água permanecendo líquida e supersaturada de oxigênio como em nenhum outro ambiente no planeta.
Enquanto os russos estão usando métodos tradicionais de perfuração para chegar ao Vostok, os britânicos têm uma carta na manga que pode fazer com que acabem ultrapassando os rivais: uma perfuradora de alta tecnologia a base de água quente desenvolvida especialmente para o trabalho. Segundo Siegert, quando estiver em operação, ela será capaz de fazer um estreito buraco com os mais de três quilômetros de profundidade em apenas três dias, permanecendo aberto por 24 horas e reduzindo as chances de contaminação do lago e das amostras.
- Será como se nunca tivéssemos estado lá - afirma. - Este é um ambiente puro e não queremos perturbá-lo.
Já um terceiro projeto, batizado Wissard, vai perfurar o gelo sobre o Lago Whillans, também no oeste da Antártica. Mas, diferentemente do Vostok e do Ellsworth, que ficaram isolados por milhares de anos, o Whillans é parte de uma extensa rede de lagos e canais que correm sob o gelo e trocam água com o oceano.
- Sabemos que ele se enche de água e depois esvazia - disse Ross Powell, da Universidade do Norte de Illinois, nos EUA, e um dos integrantes do projeto, à revista "New Scientist".
Powell espera observar o processo de enchimento e esvaziamento do lago e monitorar como isso afeta a capa de gelo sobre ele. Além disso, o projeto deverá enviar um robô para explorar o lago.
Além de buscar formas de vida ainda desconhecidas que tenham se desenvolvido em total isolamento do resto do mundo, ajudando a melhor compreender como a vida evoluiu na Terra e pode evoluir em outros planetas, as expedições esperam obter dados sobre como era o clima na Antártica há milhares de anos e como o aquecimento global está afetando a cobertura de gelo do continente.

Ambientes únicos

Isolados do resto do mundo há milhares e até milhões de anos, os lagos subglaciais da Antártica podem fornecer pistas sobre a evolução da vida e do clima da Terra.

ÁGUA: Devido ao peso do gelo e possíveis fontes geotermais, acredita-se que a temperatura da água dos lagos seja relativamente moderada, permitindo que ela permaneça em estado líquido e abrigue diversas formas de vida.

SEDIMENTOS: Os depósitos no fundo dos lagos podem revelar o passado do clima no continente e no planeta, além de conter mais tipos de micro-organismos.

O Globo, 12/10/2011, Ciência, p. 28

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.