O Globo, Sociedade, p. 26
06 de Ago de 2014
Os índios estrangeiros da Amazônia brasileira
Espetáculos oferecidos para visitantes da região são feitos com nativos da Colômbia, não do Brasil
AITOR ÁLVAREZ GARCIA
Especial para O GLOBO
sociedade@oglobo.com.br
A cidade de Manaus é o ponto de partida para a maioria dos turistas que desejam descobrir o Amazonas. Várias agências disputam a venda dos pacotes de excursões para os visitantes que procuram a melhor relação custo-benefício para entrar na desconhecida selva, cheia de mistérios. Nos últimos anos, os passeios com duração de um dia viraram moda. Eles incluem uma visita ao ponto do encontro das águas dos rios Negro e Solimões, a experiência de pendurar uma cobra no pescoço, pescar um pirarucu e nadar com os botos. Todo o pacote sai por cerca de R$ 300 por pessoa.
A cereja do bolo é o espetáculo oferecido por uma tribo indígena que vive perto de Manaus. Para eles, o turismo é a principal fonte de renda e, por isso, já têm tudo preparado para receber vários grupos de estrangeiros todos os dias. Basta o visitante chegar, e os indígenas sacam dezenas de colares e peças artesanais para tentar vender. Em seguida, um deles apresenta a tribo usando um português carregado de sotaque espanhol.
Ao ser perguntado por O GLOBO sobre a procedência de sua tribo, um dos membros mais jovens afirma: "Somos todos colombianos". Evidentemente, a pergunta seguinte é como eles chegaram até o Brasil e por quê.
- Viemos para trabalhar - diz o rapaz de 20 anos, que não mostra vergonha alguma em admitir o fato, ainda que, imediatamente depois, explique que tanto ele quanto seus amigos estão ali para mostrar a cultura local e dar educação às crianças.
Na verdade, trata-se de um fenômeno muito peculiar: as migrações internas na selva amazônica. As tribos que querem prosperar se aproximam das áreas urbanas e ali conseguem acesso a serviços como educação, saúde e, por que não, antena parabólica.
- Assistimos a toda a Copa do Mundo e por isso demos à nossa cobra o nome de Neymar - explica o rapaz em referência à mascote da tribo.
De acordo com ele, a aldeia também conta com telefones celulares e acesso à internet.
A boa conversa com o jovem indígena, que lamenta não saber inglês para falar com todos os turistas, é interrompida com o guia pedindo que todos voltem aos seus lugares para o retorno a Manaus, antes que anoiteça. O diretor da agência de turismo, Pedro Neto, garante que os indígenas vieram para Manaus incentivados por parentes que já estavam por ali e trabalhando no setor.
Para ele, apesar de não serem nativos daquela região, os indígenas permitem que o turista perceba e consiga entender como é viver em uma tribo.
O espetáculo, de fato, é o que todos esperam e não deixa nada a desejar: gritos, danças tribais e uso de vários instrumentos inusitados, tudo isso aliado à possibilidade de fotografar cada detalhe o tempo todo, já que as mulheres, assim como crianças e idosos, andam descobertos. Para quem ainda não achar suficiente, eles estão dispostos a posar ao lado dos turistas e repetir a foto quantas vezes for necessário.
Ao fim da apresentação, o guia entrega um bolo de dinheiro para o líder da tribo. Faz parte do acordo, e esta não é a única agência que os visita. Perguntado para que serve o dinheiro, outro jovem do grupo diz:
- Para ir a Manaus comprar coisas.
Ele confessa que, para a cidade, eles vão vestidos de roupas comuns, ao contrário das penas e dos apetrechos coloridos usados para os turistas. O espetáculo acontece em uma cobertura de madeira destinada exclusivamente a receber os visitantes, que não podem ir a nenhum outro lugar da área.
Não resta tempo sequer para conhecer o povoado, deixando para a imaginação a tarefa de elaborar como seria a vida dos índios colombianos numa aldeia tão perto de Manaus.
O Globo, 06/08/2014, Sociedade, p. 26
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