VOLTAR

Os guaranis ameaçam, em Peruíbe

O Estado de São Paulo, p. 1, 24
05 de ago de 1979

Os guaranis ameaçam, em Peruíbe

JOSÉ MEIRELLES PASSOS
Da sucursal de SANTOS

Walfredo Silva está com medo.
Ele é sertanista da Funai, chefe do posto indígena Peruíbe, no Litoral Sul paulista, e sabe que numa noite dessas os índios guaranis de sua reserva poderão matar um homem; Avelino Seguro, 54 anos.
Avelino Seguro diz que não tem medo.
"Só tenho receio. Mas vou voltar lá, sim, apesar disso", ele garante, ainda marcado pela última agressão.
Avelino Seguro ocupa 14 alqueires de terra na zona rural de Peruíbe. Ele diz que "é tudo terra devoluta do governo". A área, porém, fica exatamente dentro da reserva que a Funai mantém para os índios há 50 anos.
Ali, Avelino plantou cana e banana, e instalou uma criação de porcos e galinhas. Além disso, montou um alambique e nele chegou a produzir - e armazenar -19 mil litros de cachaça, a "aguardente pura de cana, marca Bambu, da aldeia dos índios" - conforme diz o rótulo dos garrafões. Há 14 anos, Avelino Seguro, mais seu irmão João José e seus pais Cecília e João, ocupam aquele pedaço.
Há 14 anos os índios vinham esperando, pacientemente, que a Justiça expulsasse os invasores. "Eles acabaram se acostumando com a idéia de que, pela lei, a coisa demora", diz Walfredo Silva, um moço de 30 anos, que nos últimos dois convive com os guaranis.
Por isso, na noite de 28 de junho passado os índios se juntaram, empunhando armas, e destruíram o que a família Seguro havia erguido há mais de uma década. Avelino quase foi morto: só escapou por sorte. "Fingi que estava morto e me deixaram."
Mas os índios já sabem que Avelino continua vivo e pretende voltar ao terreno. Por isso, já avisaram aos seus empregados; "Vocês não precisam ter medo, nós queremos é o seu patrão. Se ele voltar aqui, nós o mataremos".
Waldredo Silva, o sertanista, sabe que eles são capazes disso: "A primeira vez foi só para dar um susto. Mas se o Avelino insiste em permanecer na terra, eles podem voltar lá e eu não terei condições de segurá-los. Há muito tempo venho tentando refre-á-los, argumentando que a Justiça está apreciando o caso. Mas eles já me disseram que um dia me prendem e atacam o Avelino".

Os Guarani de Peruíbe já haviam advertido a Polícia Federal de que, se Avelino Seguro não saísse de suas terras, seria tirado dali à força. Tal foi o motivo de os índios terem atacado a casa e o depósito de cachaça do invasor e de quase tê-lo matado.

OESP. 05/08/1979, p. 1, 24

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.