OESP, Espaco Aberto, p.A2
Autor: NOVAES, Washington
18 de Mar de 2005
Os dramas do clima, dentro e fora
Washington Novaes
A França começa a comemorar o centenário do escritor Jean-Paul Sartre, que ocorrerá em junho. E talvez valha lembrar que Sartre dizia haver acontecido num campo de prisioneiros, na 2.ª Guerra Mundial, a descoberta fundamental de sua vida - a de que a solidariedade não é apenas um dever moral, é também um fato na vida de todas as pessoas; somos solidários com tudo e com todos, gostemos ou não; porque todas as ações de todas as pessoas repercutem na vida das outras. Ele tomara consciência de que sua sobrevivência dependia totalmente do que fizesse o guarda do campo, que podia espancá-lo, até matá-lo. E a vida do guarda dependia do que ele, Sartre, fizesse - se conseguisse fugir dali, o guarda sofreria as conseqüências. E assim é em tudo.
Se Sartre fosse vivo, veria na poluição e nas mudanças climáticas globais um exemplo de sua descoberta. Porque a chuva ácida gerada nos EUA é um grave problema nos lagos canadenses. A poluição das siderúrgicas ucranianas martiriza os japoneses. Gases emitidos em siderúrgicas do Sul brasileiro atravessam fronteiras. Agrotóxicos e fertilizantes carreados para rios em dezenas de países chegam em quantidade assombrosa aos oceanos e comprometem a biodiversidade.
Neste momento mesmo, sucedem-se as advertências, porque o degelo no Ártico e na Antártida nunca foi tão forte; pesquisadores russos e da Universidade de Estocolmo alertam que as mudanças climáticas poderão ser ainda mais fortes do que se previu até agora; o Scripps Institution of Oceanography, dos EUA, mostra não haver dúvida de que as alterações em curso, inclusive o aquecimento do mar, são conseqüência de atividades humanas; segundo o Instituto de Tecnologia de Zurique, na Suíça, para impedir desastres maiores é preciso até 2050 reduzir entre 30% e 50% das emissões de gases calculadas sobre o nível de 1990.
No Brasil mesmo, centenas de municípios gaúchos e catarinenses estão com emergência ou calamidade decretadas e perdas brutais nas colheitas. Parte do Nordeste também está em emergência. O Centro-Oeste perde parte das safras com a seca extemporânea, enquanto chove muito acima da média em outros pontos. Chuvas violentas atormentam municípios mineiros, capixabas, fluminenses e paulistas.
Mas ainda há quem diga "não haver provas" da relação entre as calamidades e mudanças climáticas e entre estas e ações humanas. Talvez os céticos pudessem ler documentos agora divulgados pelo governo brasileiro (www.presidencia.gov.br/secom/nae), com estudos sobre mudanças do clima produzidos pelo Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Está escrito ali "não haver dúvida" de que, mantido o ritmo de crescimento das emissões de gases, a temperatura da Terra subirá entre 1,4 e 5,8 graus Celsius, com graves conseqüências em todo o planeta, principalmente um aumento na freqüência e intensidade de enchentes e secas, com perdas fortes na agricultura e ameaças à biodiversidade, além de mudanças no regime hidrológico com impactos na capacidade de geração de energia hidrelétrica e expansão de vetores de doenças endêmicas. A elevação no nível do mar "pode afetar a costa brasileira", especialmente grandes regiões metropolitanas.
"O Brasil", diz um dos textos, "é indubitavelmente um dos países que podem ser duramente atingidos pelos efeitos adversos das mudanças climáticas futuras, já que tem uma economia bastante dependente de recursos naturais diretamente ligados ao clima na agricultura e na geração de energia elétrica. Também afetam vastos setores da população vivendo em áreas de risco de deslizamento em encostas, enxurradas e inundações nos grandes centros urbanos." Mais grave ainda, "o mapeamento das vulnerabilidades está muito aquém das necessidades" e "o setor de ciência e tecnologia nacional não se deu conta da relevância das questões das mudanças climáticas para o futuro sustentável do país".
Ainda segundo o documento, "haverá pressão crescente sobre o Brasil" para que reduza suas emissões de gases, principalmente as que decorrem de mudanças no uso do solo, desmatamentos e queimadas (e que são 75% do total, já superior a 1 bilhão de toneladas anuais). Mas entende que aceitar qualquer meta de redução implicaria "ônus para a economia".
Podemos, entretanto, preparar-nos para esse aumento das pressões. E a muito curto prazo. Esta semana mesmo, os ministros de Meio Ambiente da União Européia - num encontro preparatório para a reunião do G8 (prevista para julho) - propuseram uma redução das emissões entre 15% e 30% até 2020 e entre 60% e 80% até 2050 (sobre o nível de 1990). É uma tentativa de estabelecer metas para depois de 2012, no âmbito do Tratado de Kyoto - metas às quais os EUA (primeiro lugar na emissão de gases) se opõem, mas que os europeus pretendem estender aos países ditos em desenvolvimento, especialmente China (segundo maior poluidor), Índia e Brasil (quinto maior). Entendem os europeus que os EUA não aceitarão compromissos se os países em desenvolvimento que mais emitem também não os aceitarem. Estes - inclusive o Brasil -, entretanto, argumentam que os industrializados têm uma responsabilidade histórica diferenciada e maior, porque emitem desde o início da revolução industrial. Estes retrucam que em pouco tempo os países "em desenvolvimento" emitirão mais que os industrializados.
Está marcado um encontro da convenção para este ano, mas sem metas e compromissos para discutir, por exigência dos EUA. Será em maio, em Bonn. Onde, além do clima geral, o microclima também estará pesado.
Washington Novaes é jornalista.
OESP, 18/03/2005, p. A2
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