VOLTAR

Os desafios de sermos 7 bilhões

O Globo, Ciência, p. 38
27 de Out de 2011

Os desafios de sermos 7 bilhões
Relatório da ONU mostra dificuldades de se alimentar todos sem destruir planeta

Renato Grandelle
renato.grandelle@oglobo.com.br
Thiago Herdy*
ciencia@oglobo.com.br

As populações mais pobres do planeta sentirão os efeitos mais devastadores das mudanças climáticas e do consumo de países ricos em um mundo com 7 bilhões de habitantes, de acordo com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), que projetou para a próxima segunda-feira a data em que o planeta alcançará este número de pessoas.
O alerta foi dado ontem, durante o lançamento do Relatório da Situação da População Mundial 2011, documento em que a entidade conclama a comunidade internacional a brigar pela redução do consumo excessivo e das emissões de gases de efeito estufa. Tudo para que o equilíbrio da natureza que sustenta a vida seja mantido e as necessidades de tantos sejam atendidas.
- Não temos estudos científicos com a última palavra da capacidade de consumo do planeta, mas é certo que, se toda a população da Terra seguisse os hábitos observados nos países desenvolvidos, não estaríamos mais aqui. Seriam necessários cinco planetas para dar conta da demanda - alertou o representante do Fundo no Brasil, Harold Robinson, em evento realizado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), parceira da ONU em estudos demográficos.
O relatório ressalta que as pessoas mais ricas do mundo (7% da população mundial) são responsáveis por metade das emissões de CO2, gás que contribui fortemente para a mudança climática mundial. A metade mais pobre gera apenas 7% dessas emissões.
Alerta semelhante é dado em relação ao consumo de água, que cresce duas vezes mais rápido que a população mundial. De acordo com as projeções, nos próximos 20 anos a necessidade de água doce será 40% maior do que a atual. E isso em um mundo onde 884 milhões de indivíduos ainda não têm acesso a água potável.
Cerca de 17 mil espécies de animais ou plantas estão sob ameaça de extinção devido à perda do habitat, espécies invasivas, altas taxas de consumo, poluição e mudança climática.
Para os pesquisadores da entidade, embora a taxa de crescimento pareça estar em desaceleração - em função do declínio da fecundidade na maior parte do mundo -, o grande número de pessoas em idade reprodutiva (3,7 bilhões) faz crer que a população crescerá por muitas décadas.
A população deverá chegar a 8 bilhões em 2025 e, ainda este século, 10 bilhões.
Autor de "Peoplequake", livro em que analisa as migrações globais e o aumento da população, o inglês Fred Pearce sustentou ao GLOBO que o mundo já produz alimentos suficientes para este contingente:
- O problema é que boa parte é direcionada à pecuária, cujo retorno não é eficiente, e a biocombustíveis.
O que mais me preocupa não é a "bomba populacional", mas a "bomba de consumo".
Precisamos de novos métodos de irrigação, culturas agrícolas que demandem menos água. O Brasil já está acordando para a economia sustentável e terá seus recursos cada vez mais valorizados mundialmente.
O país também foi bem avaliado por Robinson.
Segundo ele, o Brasil segue o modelo apontado pelos pesquisadores da ONU.
- Quando a taxa de crescimento da população é baixa e o crescimento econômico é alto, o país melhora - analisou. - O Brasil é um exemplo de como reduzir o crescimento da população com a redução da desigualdade.
Segundo o documento, a proporção de pessoas que passam fome tem caído desde 1990.
Mas, devido ao crescimento populacional, o número absoluto de famintos aumentou de 815 milhões para 925 milhões. As mudanças climáticas podem neutralizar os esforços antipobreza de muitas formas, especialmente quando se devasta as safras com secas, enchentes e tempestades.
Quase todo o crescimento da população mundial - 97 de cada 100 pessoas - ocorre em países menos desenvolvidos, alguns dos quais já lutam para atender às necessidades de seus povos. Para a ONU, grande parte da população continua vulnerável à insegurança alimentar, à falta de água e aos desastres climáticos.
- Já se fala em controle populacional há 200 anos e, desde lá, a qualidade de vida só melhorou - lembrou Roberto Luiz do Carmo, pesquisador do Núcleo de Estudos de População da Unicamp.
- O homem sempre criou novas oportunidades para seu desenvolvimento. Mas, se não nascesse ninguém a partir de amanhã, haveria alguma mudança na estrutura produtiva e de consumo? Este deveria ser o foco da discussão.
Ainda segundo a ONU, além de proteger o meio ambiente, é preciso promover a saúde e a produtividade de idosos para diminuir o desafio das sociedades em desenvolvimento. E, também, planejar as cidades, que concentrarão os próximos 2 bilhões de habitantes do planeta.
(*) Especial para O GLOBO

Corpo a Corpo
Fernando Albuquerque
A população brasileira vai ultrapassar os 200 milhões em 2015

Pesquisador da Coordenação de Indicadores Sociais do IBGE, Fernando Albuquerque diz que o crescimento da população é estável e que a tendência é as pessoas permanecerem em suas áreas de origem, com menos migrações internas. Por isso, o país não teria grandes problemas com o aumento populacional global.

Renato Grandelle
renato.grandelle@oglobo.com.br

O GLOBO: O Brasil está beirando os 200 milhões de habitantes. Chegará quando a 300 milhões, no atual ritmo?

Fernando Albuquerque: Entre 2000 e 2010, nossa população, de 190 milhões, cresceu a uma taxa de 1,17% ao ano. Vamos ultrapassar os 200 milhões em 2015. Mantido esse percentual, chegaríamos a 2039 com 219 milhões de pessoas. Mas, como este índice tem caído desde os anos 80, a tendência é que, já a partir de 2040, a população comece a encolher.

Esta queda na taxa de fecundidade é preocupante?

Albuquerque: Não é um problema como na Europa, onde, em alguns países, a média é de 1,5 filho por casal - ou seja, a população não se repõe. No Brasil, estamos estáveis numa taxa de 1,9, dois filhos. Mas, por incrível que pareça, nossa mortalidade infantil ainda é muito alta: 21 em cada mil crianças morrem antes de completar um ano. É sete vezes mais do que no Japão.

Considerando nossa baixa densidade demográfica, temos espaço para crescer, não?

Albuquerque: Com certeza. A população ainda é muito concentrada no Centro-Sul. As metrópoles estão com um nível de fecundidade baixa, e as cidades médias e pequenas, de até 500 mil habitantes, receberão cada vez mais pessoas, desde que haja estrutura e mercado para elas. São Paulo não é mais uma área de atração como nos anos 70, quando a construção civil absorvia o migrante nordestino.

Para onde, então, vai este migrante?

Albuquerque: Eles estão voltando para suas áreas de origem. Os programas sociais, de alguma forma, retêm a população em suas cidades. Aqueles que ainda saem vão para o Centro-Oeste. A população brasileira tende a ficar cada vez mais imóvel.

E o envelhecimento da população, pode gerar impactos?

Albuquerque: O processo de envelhecimento é irreversível, até porque a mortalidade está diminuindo. Hoje, 7,4% da população tem mais de 65 anos. Nos anos 60, os idosos eram apenas 2,7%. Há um impacto na previdência social, porque eles permanecerão mais tempo recebendo benefícios, e menos pessoas entrando no período economicamente ativo. Por isso, a tendência é que se aumente o período em que a pessoa está no mercado de trabalho. Veremos repercussões até nos projetos urbanísticos. No futuro teremos mais clínicas geriátricas e menos pediátricas, por exemplo.

O Globo, 27/10/2011, Ciência, p. 38

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.