Folha de Boa Vista-Boa Vista-RR
Autor: Schirley Luft*
16 de Mai de 2005
Vimos nas últimas semanas uma mobilização nacional dos meios de imprensa para cobrir os efeitos da homologação da área Raposa Serra do Sol, localizada no estado de Roraima, fronteira com a Venezuela e Guiana.
O que parecia um Fato consumado - haja vista a trajetória histórica e os impasses que se estenderam por mais de duas décadas, em torno da demarcação, a decisão presidencial pela homologação em área continua poderá representar a ponta de lança de um dos mais árduos desafios a serem enfrentados pelo atual governo, podendo se alastrar por anos, talvez décadas, diante da complexidade e da diversidade de interesses envolvidas na questão.
É provável que a imprensa regional jamais tenha produzido um volume tão significativo de notícias, em tão curto espaço de tempo, e acerca de uma mesma Pauta. Estamos nos referindo à questão fundiária que se transformou, nos últimos anos, num dos mais conflituosos temas da Amazônia e, por conseqüência, em matéria de primeira página para a imprensa regional. Segundo nota do jornal O Liberal do Pará, de julho de 2002, dos mais de cinco milhões de quilômetros quadrados de terras que compõem a Amazônia brasileira, apenas 10 por cento são documentadas em cartório, o que dá margem para os crimes de grilagem, e a exploração ilegal dos recursos naturais.
Em pouco mais de vinte dias da assinatura do Decreto, já é possível traçar um panorama sobre o que representa ou representará a homologação da Raposa Serra do Sol para o Estado de Roraima, por meio da ampla cobertura que vem sendo realizada pela imprensa nacional e local, seja pelos meios impressos; jornais e revistas, ou eletrônicos; rádios, TVs e sítios digitais.
Se tomarmos a Folha de Boa Vista, de Roraima, como parâmetro, a constatação extrapola todas as expectativas, isto é: do último dia 15 de abril, data da assinatura do Decreto, até hoje, 10 de maio de 2005, foram publicadas mais de 140 matérias, entre reportagens e artigos, envolvendo grupos a favor, ou contrários, à demarcação da forma como foi feita. Grande parte na Editoria de Política.
A variedade de fontes de informação ouvidas, até o momento, dá sinais de que a imprensa roraimense está procurando ajustar o seu discurso às novas tendências do jornalismo, apesar de sua linha editorial bastante afinada com os setores políticos, até mesmo por questões de sobrevivência financeira - e aqui, incluímos, também, o Jornal Brasil Norte, segundo em circulação no Estado.
Um segundo ponto importante é que o material produzido pela imprensa, especialmente pelos jornais, poderá subsidiar futuras pesquisas multidisciplinares, considerando que a questão indígena, fundiária, ambiental, etc., são interdependentes e que a homologação da Raposa Serra do Sul provoca efeitos sociológicos, antropológicos/culturais, econômicos e essencialmente políticos, pois, é das ações do governo que irá depender o futuro da região e dos seus habitantes. Pesquisadores como José Marques de Melo (ECA/USP) e Alberto Dines (UFRJ) defendem o caráter documental dos jornais para subsidiar pesquisas que visem a elucidação de eventos "jornalísticos", comunicativos.
*Mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP; professora do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Roraima. Email: sluft@uol.com.br
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