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Os cariocas sem esgoto

O Globo, Economia Verde, p. 32
Autor: VIEIRA, Agostinho
23 de Ago de 2012

Os cariocas sem esgoto

Agostinho Vieira
oglobo.globo.com/blogs/economiaverde

Tenho orgulho de dizer que estava lá. Sabia que aquele seria um dia histórico: 10 de abril de 1984. Um milhão de pessoas se reuniram na Candelária para exigir um direito básico que havia sido usurpado dos brasileiros, o de escolher diretamente o seu presidente. Foi uma das últimas vezes que futuros adversários se juntaram para lutar por uma causa que superava em muito as eventuais divergências políticas.
Estavam lá, de mãos dadas, Fernando Henrique, Lula, Ulysses Guimarães, Miguel Arraes e Brizola. Passados 28 anos, democracia consolidada, os atores não são os mesmos, mas algumas questões essenciais continuam sem solução. Uma delas, certamente, é o saneamento básico. Aliás, esse é um tema que aproxima fortemente os governos militares e as gestões de Fernando Henrique, Lula e Dilma: todos fracassaram. Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), referentes ao ano de 2010, mostram que 81,1% dos brasileiros têm abastecimento de água em casa, mas só 46,2% dos esgotos são coletados. E o pior é que só 37,9% de todo o esgoto gerado recebem algum tipo de tratamento.
De acordo com o Instituto Trata Brasil, se considerarmos apenas as cem maiores cidades do país, o índice de tratamento é ainda pior: 36,28%. São quase oito bilhões de litros de esgoto lançados todos os dias nos rios. O instituto acaba de divulgar o Ranking do Saneamento, onde o Rio aparece em 37o lugar. Atrás de capitais como Brasília, Curitiba e Belo Horizonte. Terminamos 2010 com 91,1% de cobertura de água, 70,12% de coleta de esgoto e 53,23% de tratamento. Se os cariocas que não têm esgoto em casa resolvessem fazer uma manifestação ou um comício, teríamos quase dois milhões de pessoas em frente à Candelária gritando "Esgoto Já".
Caso o hipotético "Movimento dos Cariocas sem Esgoto" recebesse a adesão de municípios vizinhos, especialmente da Baixada, o número de manifestantes poderia dobrar. O ranking do Trata Brasil considera seis itens: cobertura de água, coleta de esgoto, tratamento, investimentos, perdas e tarifa média. Coleta e tratamento representam 50% da nota, e todos os dados são fornecidos pelas cidades. Na coluna de perdas, o Rio aparece com fantásticos 56%. Ou seja, de toda a água gerada, mais da metade é perdida ou roubada. A média nacional é de 35,9%.
A única representante do estado entre as dez primeiras do ranking é Niterói, que vem se mantendo nesta posição há algum tempo. A cidade tem 100% de cobertura de água, mais de 92% de coleta de esgoto e mais de 92% de tratamento. A perda de água é inferior a 25%. Aliás, no item tratamento de esgoto, Niterói e a campeã brasileira. Toda a operação é feita por uma empresa privada, a "Águas de Niterói", e alguns acham que esta é a razão do sucesso.
Entretanto, entre as dez melhores aparecem sistemas operados por empresas públicas de saneamento, como a Sabesp (SP) e a Sanepar (PR), empresas privadas e até gestões feitas pelo próprio município, como é o caso de Uberlândia, que ficou com a quarta colocação. Segundo Édison Carlos, presidente do Instituto Trata Brasil, as principais variáveis para o sucesso das cidades são o volume de investimentos e a eficiência na gestão, seja ela privada ou pública.
A cidade de Santos é a bicampeã brasileira em saneamento. Todas as casas têm abastecimento de água e coleta de esgoto. O índice de tratamento é de 76,76%, e o desperdício é de apenas 12,83%. Entre os dez piores, predominam as cidades do Norte do país, como Macapá, Porto Velho e Ananindeua. Todas com menos de 50% de abastecimento de água, menos de 10% de coleta de esgoto, quase nenhum tratamento e perdas que giram em torno de 70%.
A boa notícia é que a cidade do Rio foi a que mais cresceu em novas ligações de esgoto: 271 mil. Mas faltam 600 mil, ou quase dois milhões de pessoas. A cidade investiu, em 2010, R$ 97 milhões. Outro motivo de esperança é a privatização do saneamento na Zona Oeste, a chamada AP5. Segundo o vice-prefeito, Carlos Alberto Muniz, a expectativa é que, em 2015, todo o esgoto seja tratado. A pacificação das favelas pode acelerar o processo. Muniz garante que até as Olimpíadas as ligações de esgoto da Rocinha e do Chapéu Mangueira, no Leme, estarão terminadas.
Das 114 grandes obras de saneamento que estão sendo feitas pelo PAC, em municípios com mais de 500 mil habitantes, apenas 7% foram concluídas até dezembro de 2011. Cerca de 60% estão atrasadas, foram paralisadas ou sequer tiveram início. Na teoria, a intenção era universalizar o fornecimento de água, a coleta e o tratamento de esgoto até 2030. Na prática, infelizmente, isso é muito pouco provável.

1,9 milhão
É O NÚMERO de cariocas sem ligação de esgoto em suas casas. A cidade ficou em 37o lugar num ranking de saneamento básico que considerou o desempenho dos cem maiores municípios do país.

E-mail: economiaverde@oglobo.com.br

O Globo, 23/08/2012, Economia Verde, p. 32

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