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Autor: Thais Iervolino
10 de Mai de 2010
Numa escala de 0 a 5, as políticas de instituições financeiras do mundo, com relação às florestas, foi avaliada em 1. Essa foi uma das conclusões do estudo recém lançado Close the Gap, da articulação internacional Bank Track, que monitora as ações dos bancos voltadas à sustentabilidade.
Diante desse contexto, o Amazonia.org.br conversou com Roland Widmer, coordenador do Programa Eco-Finanças, da organização Amigos da Terra-Amazônia Brasileira (AdT-AB), que representa o Bank Track no Brasil.
Durante a entrevista, Widmer fez uma análise sobre as ações dos bancos em relação às florestas, principalmente à Amazônia. "A Amazônia compete no mundo por suas commodities e não por aquilo que lhe é único. Isso parece absurdo. É como se você vendesse as chuteiras da seleção brasileira, sem ver que o principal valor da seleção reside na competência individual dos jogadores, em sua interação orquestrada com a equipe", afirma.
Confira a entrevista na íntegra.
Amazonia.org.br - É possível ter sustentabilidade na área financeira? Como?
Roland Widmer - Na economia como um todo, a sustentabilidade é ainda a exceção, e não a regra. Na área financeira é a mesma coisa: há nichos com atuação sustentável, e existem alguns bancos de nicho que praticam a sustentabilidade, mas ela está longe de ser uma ação preponderante.
Existem formas de se aproximar mais da sustentabilidade do que é praxe hoje. O Close the Gap é a mais recente publicação do Bank Track, rede internacional de organizações da sociedade civil especializada em bancos privados, que o programa Eco-Finanças da AdT-AB representa no Brasil. Essa publicação, além de apresentar um comparativo/benchmark entre a performance dos bancos nas políticas de crédito e investimento, oferece uma abundância de sugestões concretas para tornar o negócio principal de um banco mais sustentável.
É interessante constatar que a comunicação de instituições financeiras fala de sustentabilidade há vários anos. Então, existe o reconhecimento da importância do assunto. Porém, a prática é outra. Logo, existe um "gap" [lacuna] entre discurso e prática. Foi por isso que intitulamos o documento de "Close the Gap".
Amazonia.org.br - Com relação às ações do banco que envolvem ou trazem consequências, direta ou indiretamente, às florestas do mundo, qual foi a análise do estudo?
Widmer - O relatório reconhece, entre outras questões, que as florestas intactas são fundamentais para o clima no mundo. A cobertura florestal remanescente fornece serviços essenciais de proteção do clima, tais como captura de carbono e mudanças nos padrões climáticos. As florestas ajudam a manter a fertilidade do solo, proteger as bacias hidrográficas e reduzir o risco de catástrofes naturais, como inundações e deslizamentos de terra, através da regulação do abastecimento de água, além de reduzir a erosão do solo. Vale destacar que a atuação dos bancos referente à floresta em geral, não limitada à Amazônia, é muito fraca. A média das políticas analisadas, numa escala de 0 a 5, é abaixo de 1.
O Close the Gap revela também que há apenas um banco no mundo que tem uma política muito boa. Enquanto 33% dos bancos analisados têm uma política de crédito sobre florestas, nenhum banco brasileiro analisado tem uma política a respeito, o que é ainda mais deplorável, dada à altíssima importância do setor no Brasil.
Referente à economia madeireira, o que os bancos devem fazer é: exigir a certificação pelo FSC [Forest Stewardship Council] daqueles que pedem o financiamento.
Amazonia.org.br - Qual a importância dos bancos quanto ao meio ambiente e, mais especificamente, em relação à Amazônia?
Widmer - O dinheiro é o guia e o que torna possíveis as atividades em todas as esferas. A Amazônia não é uma exceção a isso. Decisões de alocação de recursos são cruciais e bancos têm um papel fundamental nisso, seja pelas atividades próprias ou - na maioria dos casos - pela intermediação financeira.
O problema é que a economia tradicional não valoriza essa riqueza. O financiamento hoje disponível para a região amazônica se baseia na economia tradicional, tanto pela oferta de produtos, quanto pelos próprios créditos dos bancos e a valoração das garantias exigidas para a concessão de crédito.
Hoje, a Amazônia só tem importância por alguns produtos/agregados.Por exemplo, pelos seus commodities, como grãos, carne, minérios, madeira e energia. Existe uma maneira de aproveitar esses fluxos de bens, de modo e em escala sustentável, isto é, sem acabar com a capacidade de reprodução deles [dos bens] e do bioma como um todo.
Dito isso, o que mais impressiona é que a Amazônia é valorizada quase exclusivamente por esses produtos e não pelos serviços ambientais extremamente preciosos que ela oferece e que não podem ser sintetizados - na escala necessária - em um laboratório ou manufaturados: chuva, estocagem de carbono e ar limpo, água potável e todo um equilíbrio dinâmico, que mantém uma biodiversidade das mais ricas do mundo, e é lar de indígenas e de populações tradicionais e migrantes.
A Amazônia compete no mundo por suas commodities e não por aquilo que lhe é único. Isso parece absurdo. É como se você vendesse as chuteiras da seleção brasileira, sem ver que o principal valor da seleção reside na competência individual dos jogadores, em sua interação orquestrada com a equipe...
Amazonia.org.br - De que forma os bancos estão interferindo nessa região hoje? É a maneira correta?
Widmer - Os bancos não possuem uma ação sustentável na região. Eles são, muitas vezes, cúmplices da violação da legislação vigente. Um exemplo é a resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) 3545 de 2008, que flexibilizou o crédito rural na Amazônia.
Amazonia.org.br - Como seria, então, a melhor forma de atuação na Amazônia?
Widmer - É necessário promover a economia verde e investir na capacitação dos povos tradicionais para que conheçam e trabalhem com a produção sustentável, entre outras ações.
No futuro, REDD+ [políticas de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD) com a adição de programas de conservação e manejo florestal] pode ser uma abordagem interessante, mas antes de decidir definitivamente sobre a utilidade do REDD+, devemos obviamente conhecer todos os seus conteúdos.
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