O Globo, Opinião, p. 7
Autor: ROGOFF, Kenneth
05 de Nov de 2006
Os antiambientalistas da América
Kenneth Rogoff
Como americano, estou chocado, envergonhado e constrangido pela falta de liderança de meu país para enfrentar o aquecimento global. Novas provas científicas aparecem todos os dias, como documentado recentemente no magistral Relatório Stern, da Inglaterra. No entanto, embora os Estados Unidos sejam responsáveis por cerca de 25% de todas as emissões globais de carbono de origem humana, os americanos mostram pouca disposição de conter sua febre de consumo.
No seu primeiro mandato, George W. Bush provavelmente estava certo em se recusar a assinar o chamado Protocolo de Kioto, embora pelas razões erradas. Entre outros problemas, o protocolo não vai longe o suficiente na redistribuição de direitos de emissão de carbono pelos países em desenvolvimento. Mas por que os EUA não podem aumentar a tributação sobre a gasolina e outras fontes de emissão de carbono, como usinas de energia que queimam carvão? Por certo não é porque o governo, que enfrenta um imenso déficit, não precisa do dinheiro.
Muita gente parece pensar que o governo Bush é o problema. Ponha-se um homem do petróleo do Texas e seus colegas no comando e o que se pode esperar, conservação? Infelizmente, essa uma visão superficial.
A resistência dos cidadãos americanos a moderar o consumo de energia em nome do ambiente global é algo muito mais profundo.
Considere o ex-vice-presidente Al Gore, por exemplo, cujo documentário sobre aquecimento global, "Uma verdade inconveniente", é louvado pela lucidez com que encara o fato de que o consumo de combustíveis fósseis está levando a Humanidade à beira da catástrofe. As indicações sobre aquecimento são bem mais ambíguas do que o filme sugere, mas o problema básico é real.
Infelizmente, contudo, Gore não teve sucesso em defender a causa do combate ao aquecimento global quando era um político. Não se pode elogiar o governo Clinton-Gore, da década de 90, por tomar alguma medida corajosa para reduzir radicalmente as emissões de carbono. Não admira: o público americano resiste ferozmente a qualquer tentativa de alterar seu estilo de vida baseado em queimar energia e consumir gasolina.
Não só esteve ausente a liderança dos políticos. A venerável página editorial do "New York Times" parece ter-se oposto a um imposto sobre energia até recentemente, quando o jornal finalmente endossou a idéia. Como muitos liberais, os editores do "NYT"temiam que a tributação mais alta prejudicasse desproporcionalmente os pobres.
O argumento típico que se ouve é: "E o pobre coitado com seu Chevy 1980, que consome tanta gasolina, e não tem outro meio de ir para o trabalho?" A observação é legítima, mas se o nível dos oceanos começar a subir, como prevê o Relatório Stern, muitos de novos filhos algum dia terão de nadar para chegar ao trabalho. A necessidade de medidas corretivas para reduzir a desigualdade não é desculpa para a inação em matéria de aquecimento global.
A mudança de posição do "Times", infelizmente, não é sinal de mudança também no eleitorado americano. Fale de um imposto sobre energia a qualquer potencial candidato a presidente em 2008 e ele empalidecerá. Tudo bem em dizer que você se preocupa com o ambiente ou afirmar, como faz Bush, que tecnologias milagrosas resolverão o problema sem muita dor. Mas qualquer candidato a presidente que ouse falar em sacrifícios agora em nome de um ambiente mais seguro depois estará se expondo demais.
Até que os americanos se convençam e comecem a resolver os problemas ambientais globais que eles, mais do que quaisquer outros, causaram, será difícil obter apoio decidido do resto do mundo. Os países em desenvolvimento querem saber por que eles devem dar atenção ao aquecimento global se os países ricos não estão dispostos a conter suas emissões. Por que os países pobres devem se preocupar com o efeito do desmatamento sobre o aquecimento, quando os ricos esbanjam tanto?
Os dados científicos sugerem que emissões de carbono em qualquer parte do mundo têm mais ou menos o mesmo impacto sobre o aquecimento global. Por isso, muitos economistas apóiam um imposto global linear em todo o mundo, sobre todas as fontes - carvão, petróleo ou gás - e sobre consumidores ou empresas.
Um imposto assim será a abordagem mais flexível e benéfica ao mercado, e terá o menor impacto sobre o crescimento econômico. Já o complexo sistema de cotas que os europeus preferem, e que é previsto no Tratado de Kioto, tende a provocar muita ineficiência e custos. Por isso, o Relatório Stern é provavelmente otimista demais quando calcula que uma abordagem eclética para reduzir as emissões custará ao mundo apenas 1 % de renda anual. Mas está certo ao afirmar que o risco da inação contínua é muito maior.
A falta de disposição dos EUA de enfrentar questões ambientais poderá algum dia ser considerada um dos mais profundos fracassos políticos do país.
Espera-se uma mudança de curso em breve, antes que tenhamos de sair para o trabalho com roupa de banho.
Kenneth Rogoff foi economista-chefe do FMI. Project Syndicate.
O Globo 05/11/2006, Opinião, p. 7
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