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16 de Mai de 2009
A posse dos 251 professores aprovados no concurso de Magistério Indígena anteontem deixou lideranças ligadas à educação indígena apreensivas. A questão está na permanência desse professores nas comunidades, como também na metodologia pedagógica que deverá ser usada.
A presidente da Organização dos Povos Indígenas de Roraima (Opirr), Pierlângela Nascimento da Cunha, disse que a entrada dos professores não-índios nas escolas indígenas causará um grande impacto nas práticas pedagógicas em uso nas escolas. Ela teme que os novos professores tentem mudar a forma como é ensinada e com isso prejudique os alunos, mesmo não sendo intencional.
"O problema é que estes professores não conhecem a realidade das escolas. Não estão em sintonia com as atividades extraclasses realizadas, como na roça, por exemplo, entre outras questões. Com certeza, muitos deles tentarão implantar outras metodologias, tidas como certas. Muitos chegam a pensar que a maneira usada é inferior, e isso não é verdade", disse.
A professora enfatizou que o ideal seria que antes dos professores começarem a dar aulas, seria necessário que eles fossem preparados e recebessem orientações para entender a realidade das comunidades.
A questão da adaptação foi outro ponto ressaltado. Para ela, os professores terão que se adaptar à nova maneira de viver com as limitações locais. Em algumas comunidades não há energia, água encanada nem transporte fácil. Os professores ainda terão que providenciar e arcar com os custos para chegar ao local de trabalho. Pierlângela ressaltou que os educadores terão que se submeter à organização própria das comunidades e, ainda assim, conseguir realizar uma educação de qualidade.
PRECONCEITO- De acordo com a presidente da Opirr, não soa como preconceito o fato de 37 escolas indígenas terem solicitado à Secretaria Estadual de Educação, Cultura e Desportos (SECD) a lotação de apenas professores índios, e sim como medida preventiva de evitar problemas futuros. Para ela, a secretaria tomou uma decisão sensata ao atender as solicitações das comunidades e este número poderá aumentar significativamente quando os professores forem para as comunidades.
Disse que já houve casos nos concursos anteriores em que os profissionais aprovados não permaneceram por muito tempo na comunidade. Em algumas situações, por não se adaptarem às novas práticas pedagógicas, como também a realidade social em que a escola está inserida.
O fato ocorreu no concurso para trabalhadores da área administrativa das escolas indígenas. Cerca de 300 vagas foram dispostas para zeladores, vigias, secretarias entre outras áreas. Mas em pouco tempo os profissionais voltaram para as cidades de origem e deixaram os cargos. "Nesta hora, os diretores acumulam funções e passam a ser merendeiro e muito mais", frisou.
BICO - A presidente da Opirr disse estar apreensiva por temer que os professores empossados encarem a nova função como um "bico". Ela disse ter escutado por várias vezes de professores que vão para as comunidades por dois ou três dias cumprir a carga horária mínima e voltar para a cidade nos outros dias, esperando uma futura transferência.
O ideal seria que os professores se mudassem para as comunidades, passando a fazer parte delas, se inserindo no contexto. "Perguntamos para os professores se eles teriam coragem de colocar seus filhos nas escolas que lecionam e muitos dizem que não. Esta é a realidade", frisou.
QUALIDADE - Garantir a qualidade da educação será um desafio para os novos professores. A valorização da cultura e da língua serão fatores preponderantes para que os alunos tenham uma educação de qualidade.
Segundo Pierlângela, o que se espera é que os professores com as práticas pedagógicas, aprendida nos centros urbanos, consigam garantir que os indígenas possam ser preparados para vestibulares e concursos.
Em algumas escolas a alfabetização é feita na língua materna e o trabalho dos professores será inserir a língua portuguesa. Em outros casos, as comunidades não falam mais a língua materna e o trabalho será no sentido de revitalizar e fortalecer a língua-mãe. Os novos empossados terão dificuldade para lidar com esse tipo da atividade.
Ela disse que a educação indígena atual é vista pela comunidade acadêmica como fraca ou insuficiente, quando na verdade a situação é contrária. Para a educadora, os índices de avaliação utilizados, como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), por exemplo, não refletem a realidade escolar indígena. Entende-se que não pode haver comparativos entre uma escola estruturada do sudeste do país e uma indígena na região Norte.
"Para muitos, a educação que temos é inferior, mas para nós ela é ótima, pois foi com ela que conseguimos conhecer nossos direitos e reafirmar nossa cultura. Nós temos 35 laboratórios nas escolas indígenas de Roraima e lutamos para que se tenha óleo diesel para alimentar os motores. Não tem como ter comparativos", destacou.
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