CB, Ciência, p. 18
Autor: HILL, Antonio
01 de Mar de 2010
Oportunidade para o Brasil
Entrevista - Antonio Hill
Para o chefe executivo da política de mudanças climáticas da Fundação Oxfam, uma das organizações não governamentais internacionais mais atuantes nas negociações sobre o clima, a saída de Yvo de Boer não foi provocada pelo fracasso de Copenhague, embora ele reconheça que o holandês esteja extremamente desgastado. Hill acredita que o próximo ocupante do cargo deverá sair de um país em desenvolvimento e garante, em entrevista ao Correio, que o Brasil tem um papel importante de liderança, e que poderá fazer a diferença nas negociações deste ano.
Embora Yvo de Boer não tenha associado sua renúncia ao fracasso de Copenhague, o senhor acredita que a decisão esteja ligada a esse fato?
Não. O contrato do senhor de Boer foi estendido por mais um ano em setembro de 2009, então, de fato, ele está deixando o cargo apenas três meses antes do planejado. Embora ele tenha demonstrado desapontamento com os progressos limitados feitos pelos governos em Copenhague, a COP-15 foi um sucesso em muitos aspectos: ela lançou luz sobre o assunto em todo o mundo, como jamais havia ocorrido, e conseguiu juntar os mais poderosos líderes mundiais de forma inédita. Isso deve ser visto como um passo importante a um acordo internacional sobre o clima. O senhor de Boer trabalhou exaustivamente em seu posto por anos e acredito que teria renunciado mesmo se os governos tivessem deixado o justo e ambicioso acordo legal que o mundo precisa em Copenhague.
Como o senhor avalia o trabalho de Yvo de Boer à frente do UNFCCC?
A performance dele tem sido notável. Além de ser um administrador extremamente competente, ele foi uma personalidade e um embaixador apaixonado e convincente, que fez de tudo para garantir o objetivo de incluir um regime internacional sobre o clima na agenda de todas as relevantes esferas de influência, incluindo as áreas de negócios, finanças multilaterais e comunidades internacionais. Os líderes agora estão encarando o desafio de alicerçar o justo e ambicioso acordo que ainda está atrasado. Eles precisam fazer o melhor para mostrarem-se compromissados e fazer o que é necessário - e não apenas o que é fácil.
Há um bom nome para sucedê-lo? O senhor acha que seria uma boa ideia escolher um candidato dos países em desenvolvimento?
Todos os possíveis candidatos deveriam ser provenientes dos países em desenvolvimento, e entre eles há muitos profissionais experientes e qualificados. Assim como a liderança da Conferência Anual das Partes ocorre de forma rotativa, faria senso que o secretário-geral (das Nações Unidas, Ban Ki-moon) indicasse alguém do mundo em desenvolvimento como o próximo secretário executivo do UNFCCC. Os dois últimos eram europeus.
Quais as características que o próximo secretário executivo deve possuir?
Excelente habilidade gerencial e comunicativa, assim como a habilidade de representar a importância e as necessidades de um regime internacional sobre o clima.
O senhor acha que países em desenvolvimento, como o Brasil, devem se preocupar com a saída de Yvo de Boer?
Não, mas eles devem ficar profundamente atentos sobre os obstáculos remanescentes para a construção de um acordo ambicioso, que está atrasado. Como membro do grupo de negociações, o Brasil tem uma responsabilidade especial para ajudar a se chegar a um acordo o mais rápido possível. O presidente Lula foi para muitas pessoas uma inspirada voz da razão em Copenhague. O Brasil tem um importante papel de liderança e pode fazer uma diferença real em 2010.
O que podemos esperar do encontro no México?
Podemos esperar definitivamente acordos dentro de uma lista limitada de assuntos que ajudarão as próximas negociações, especialmente a criação de um novo fundo de financiamento (como o Fundo Verde de Copenhague), para ajudar na mitigação e na adaptação da economia dos países em desenvolvimento às mudanças climáticas. Além disso, podemos esperar decisões que podem ajudar a melhorar a implementação do Protocolo de Kyoto, como reformas no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo. Também podemos esperar uma decisão sobre se os países vão ou não negociar um novo acordo e o formato que ele terá. Finalmente, com a reunião preparatória na Cidade do México, em março, e a primeira sessão de negociações de abril, não podemos descartar a possibilidade de um progresso no sentido de dar mais rapidez à construção de um acordo ambicioso e justo em Cancún.
CB, 01/03/2010, Ciência, p. 18
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