VOLTAR

A operação para sugar água ainda 'intocável'

OESP, Metrópole, p. A24-A25
04 de Mai de 2014

A operação para sugar água ainda 'intocável'
Operários trabalham a toque de caixa para a captação de reserva começar dia 15

Fabio Leite - O Estado de S. Paulo

É preciso sair da rodovia e dirigir por 2,3 quilômetros em uma estradinha de terra batida, no limite entre as cidades de Piracaia e Joanópolis, a cerca de 100 quilômetros da capital paulista, para encontrar os litros de água que restam nas represas Jaguari-Jacareí. É no local, que virou um enorme vale por causa da pior estiagem dos últimos 84 anos, que cerca de 25 operários trabalham a toque de caixa para finalizar as obras de captação de uma reserva profunda até agora intocável, o chamado "volume morto" do Sistema Cantareira.

Inédita e polêmica, a retirada da água represada abaixo do nível mínimo de captação começa no próximo dia 15 de maio nos reservatórios que representam 80% da capacidade total do manancial, mas que estão com menos de 3% do volume armazenado. A escassez hídrica impressiona quem passa pelos 13 quilômetros da Rodovia José Augusto Freire (SP-36) entre as duas cidades do interior. Onde antes era possível encontrar jovens saltando da ponte sobre a água, agora moradores estacionam no acostamento para fotografar a mata que restou no solo.

A trilha até a água leva inevitavelmente à obra do "volume morto" que acontece no túnel 7 da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). É lá que a empresa está instalando o conjunto de bombas flutuantes que vai sugar até 2 mil litros de água do fundo dos reservatórios e transpor por meio de tubulações especiais até a entrada do último túnel de captação. Dali, a água passa pelas represas Cachoeira, em Atibaia, Atibainha, em Nazaré Paulista, e Paiva Castro, em Mairiporã, até chegar à estação de tratamento Guaraú, na zona norte da capital paulista.

O mesmo procedimento está sendo feito no reservatório Atibainha, que tem 12% da capacidade do Jaguari-Jacareí, mas ainda está com cerca de 50% do volume armazenado e deve secar em "meados de julho", segundo o comitê anticrise que monitora o Cantareira. As duas obras devem custar cerca de R$ 80 milhões. Ao todo, a Sabesp pretende captar cerca de 190 bilhões de litros da reserva profunda, praticamente metade dos 400 bilhões do volume captável. Pelos cálculos apresentados pela companhia, a quantidade é suficiente para abastecer a Região Metropolitana de São Paulo até o fim de novembro, quando se espera a volta da temporada de chuvas.

No mês passado, o Ministério Público Estadual (MPE) abriu um inquérito civil para apurar possíveis danos à saúde que podem ser causados pelo consumo da água do "volume morto". A investigação teve como ponto de partida um relatório elaborado por especialistas em biologia e toxicidade em corpos d'água que afirmam que, quanto mais baixo o nível dos reservatórios, maior é a concentração de poluentes.

"Quando se cogita fazer o uso do 'volume morto', por causa das condições emergenciais de necessidades hídricas, antes que esteja disponível para o abastecimento público, deve passar por análise criteriosa e tratamento adequado para atendimento dos padrões normatizados de qualidade de água", afirmam no documento Dejanira de Franceschi de Angelis e Maria Aparecida Marin Morales, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e Silvia Regina Gobbo, da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep).

Segundo a Sabesp, a água do "volume morto" não apresenta riscos à saúde e "será tratada dentro dos rígidos padrões de qualidade" seguidos pela companhia. Especialistas em recursos hídricos, como o professor Rubem Porto, da USP, e técnicos da Agência Nacional de Águas (ANA) e do Departamento de Água e Energia Elétrica (DAEE) confirmam as boas condições de uso da água da reserva profunda.

Impacto. Outra preocupação levantada com o uso inédito do "volume morto" é o impacto da retirada da água na fauna do Cantareira. A suspeita levantada por ambientalistas também é investigada pelo Grupo de Atuação Especial do Meio Ambiente (Gaema) de Piracicaba, que já sofreu com a mortandade de cinco toneladas de peixe por causa do baixo nível do rio que leva o nome da cidade e pertence à bacia hidrográfica onde fica o Cantareira.

Para a secretária-geral da ONG WWF-Brasil, Maria Cecília Wey de Brito, ainda há um ponto importante a ser esclarecido: "Quanto tempo o Sistema Cantareira vai levar para se recompor?", indaga. "Corremos o risco de termos crises severas a cada semestre. Não dá para apostar que vai voltar a chover ou que outras obras podem resolver. A conta está no limite e é preciso utilizar outras ferramentas para recuperar os nossos mananciais."

Segundo o presidente do Conselho Mundial da Água, Benedito Braga, o esgotamento do volume útil do Cantareira mostra à sociedade que a água é um bem finito e que precisa ser consumida com parcimônia. "Agora, na iminência de ficar sem água, espero que as pessoas comecem a entender a essencialidade dela e passem a usá-la com racionalidade. Não dá para ficar confiando que o tempo vai ajudar nem querer correr com os investimentos em infraestrutura hídrica agora."

Somente nos últimos dois meses, o Sistema Cantareira perdeu 50 bilhões de litros, segundo cálculos feitos pelo comitê que monitora a crise do manancial, porque o consumo de água foi muito maior do que a produção. Embora a Sabesp tenha reduzido em 6 mil litros por segundo a retirada de água do Cantareira, com a política de bônus e com a reversão de água dos Sistemas Guarapiranga e Alto Tietê, o grupo técnico recomendou que a ANA e o DAEE determinem uma reserva estratégica a ser preservada ao fimde novembro, quando termina a captação prevista do "volume morto". Segundo o secretário estadual de Saneamento e Recursos Hídricos, Mauro Arce, a quantidade de água disponível nos reservatórios garante o abastecimento de água na Grande São Paulo até março de 2015.

'Ex-represa' deixa órfãos pelas margens
Vizinho da Represa Jaguari, morador estoca água da chuva para não deixar a família na seca

Fábio Leite

Às margens do que até pouco tempo atrás era a principal fonte de abastecimento de água no Estado, o aposentado José Maurício de Oliveira, de 65 anos, simboliza a contradição da crise do Sistema Cantareira. Enquanto a vizinha Represa Jaguari se prepara para a captação do "volume morto" para encher caixas d'água em cidades a 100 quilômetros de sua casa, ele estoca água da chuva para não deixar a família na seca.

"É triste deixar chegar a esse ponto. Montei essas duas caixas de mil litros para usar água da chuva para lavar a casa e a roupa e vou de caminhão buscar 4 mil litros toda semana no poço de um amigo a 6 quilômetros daqui", contou Oliveira, que mora em Joanópolis, a 112 quilômetros da capital, com a mulher, a filha e dois netos.

A estiagem sem precedentes também secou a principal fonte de renda do pescador Ernane da Silva, de 59 anos. "Essa seca acabou comigo. Eu tirava até R$ 1 mil pescando e agora dependo só da aposentadoria. Meu barco está encostado desde fevereiro. Não tem mais onde pescar", disse.

Suspiro. Entre os órfãos da Jaguari, há, porém, ainda quem consiga aproveitar as últimas gotas da represa para garantir o sustento. Com uma queda na demanda por turistas tão crítica quanto a do nível dos reservatórios, a pousada onde trabalha Jonatas de Aguiar Cunha, de 30 anos, sobrevive com a hospedagem dos operários da obra contratada pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) para captar a água do "volume morto".

"Já faz seis meses que o movimento vem caindo, assim como a represa. A nossa sorte é que a obra da Sabesp é aqui em frente e eles fecharam um pacote de hospedagem com a gente. O problema é que ela já está acabando e não sei como vai ficar depois. A represa era o nosso maior atrativo. As pessoas vinham aqui para andar de barco e de caiaque. Até o fim do ano, dava para ir remando até lá", disse Cunha, apontando para o canteiro de obras a 500 metros da pousada.

OESP, 04/05/2014, Metrópole, p. A24-A25

http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,a-operacao-para-sugar-agua-a…

http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,ex-represa-deixa-orfaos-pela…

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.