CB, Economia, p. 11
25 de Abr de 2006
Opção estratégica
Brasil reforça aposta nos combustíveis renováveis num momento em que o valor do barril de petróleo bate recordes e mercado internacional está aberto a novas tecnologias. Porém, especialistas levantam dúvidas
Luciano Pires
Da equipe do Correio
O petróleo bate recordes de valorização e o mundo procura alternativas à hegemonia desse importante recurso energético. O Brasil, que na semana passada comemorou a auto-suficiência na produção do óleo, almeja agora conquistar também o status de celeiro das novas fontes (mais limpas e baratas), igualmente capazes de fazer girar a roda do progresso.
Com o etanol obtido a partir da cana-de-açúcar, o país mostrou ser possível reduzir a participação do petróleo na planta energética, apesar das oscilações de preço e oferta causadas pela entressafra. Já com o biodiesel, as perspectivas são maiores. Fabricar combustíveis a partir de grãos passa a ser uma opção bem mais flexível sob muitos aspectos. "O Brasil não pretende ser o único produtor, o único transferidor de tecnologia. O país quer mostrar suas experiências aos demais países", explicou ontem Ricardo Dornelles, diretor do Departamento de Combustíveis Renováveis do Ministério de Minas e Energia durante um encontro internacional de biocombustíveis.
A aposta brasileira é fazer da mamona, do dendê (palma), do algodão, da soja, do babaçu e do girassol matérias-primas para baratear o transporte de massa ou de cargas, mas por enquanto, o modelo ainda engatinha. "O Brasil caminha fortemente para aumentar o uso de combustíveis renováveis", advertiu o ministro Silas Rondeau, de Minas e Energia.
Por meio do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel o governo atua em duas frentes e, segundo especialistas, perde o foco. Para os analistas, o apoio dado à agricultura familiar não é suficiente para incentivar a produção nem adequado para garantir escala. Rondeau, porém, elogia a fórmula e o combustível, que, de acordo com ele, é o menos sensível aos humores do mercado. "Os preços tendem a não subir, porque não estão atrelados a uma possível distensão internacional", explicou.
A produção brasileira deverá ultrapassar a marca dos 800 milhões de litros no início de 2008 e alcançar os 2,4 bilhões de litros em 2013, segundo estimativas oficiais. Atualmente, a mistura do biodiesel ao diesel está autorizada em 2%. A partir de 2008, essa quantidade será obrigatória e em 2013 o percentual subirá para 5%. Cinco usinas estão em operação e produzem 49 milhões de litros por ano. Os produtores estão espalhados principalmente por estados do Sudeste, Nordeste e Sul.
Imbatível
Em seus discursos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva gosta de tratar da questão energética sob o ponto de vista da integração continental, e de relacioná-la à descoberta e ao estudo de elementos alternativos. Ultimamente, tem lembrado com entusiasmo os feitos do Brasil nesse campo. "Estamos produzindo energia do bagaço da cana. No Rio Grande do Sul tem projeto para produzir energia da casca do arroz, estamos produzindo energia do vento, estamos construindo o biodiesel, fortalecendo o Pró-Álcool", disse ontem no programa de rádio Café com o Presidente, depois de reforçar que, com a auto-suficiência em petróleo, "agora somos donos do nosso nariz".
Segundo o presidente, o Brasil é "imbatível" entre os fabricantes de energias renováveis. "Temos todas as condições. Temos terra, temos trabalhadores, temos conhecimento científico e tecnológico", disse Lula. "Vamos nos transformar numa grande potência econômica. Essa grande potência econômica passa por sermos uma potência no campo da energia", completou em seu programa quinzenal.
No que depender de Ibitiá, município da Bahia que até 2004 ostentava o título de maior produtor de mamona do país, o sonho do presidente não irá se realizar tão cedo. "O pessoal aqui foi enganado. O governo cortou o financiamento e agora metade dos produtores não planta mais mamona", criticou o prefeito Francisco Primo (PFL). Há dois anos, de acordo com uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Ibititá era responsável por 10,51% da produção baiana e 8,6% da produção brasileira. "A decepção é geral. Sem incentivo, não tem como plantar", reforçou o prefeito.
CB, 25/04/2006, Economia, p. 11
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.