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ONU reforça críticas ao avanço da cana na Amazônia

OESP, Economia, p. B18
12 de Out de 2007

ONU reforça críticas ao avanço da cana na Amazônia
Relator da ONU contra a Fome quer moratória de cinco anos para o etanol

Jamil Chade

O relator da ONU contra a Fome, Jean Ziegler, acusa o Brasil de estar "desmatando a Amazônia e acabando com o Centro-Oeste" com a plantação de cana-de-açúcar para a fabricação do etanol. Ontem, em Genebra, Ziegler convocou a imprensa internacional para denunciar os biocombustíveis como uma das principais ameaças ao direito à alimentação nos próximos anos no mundo e pedir uma moratória de cinco anos na produção do etanol.

"A transformação das terras agrícolas para o cultivo de produtos que servirão para o etanol é uma catástrofe", disse. "Até 2010, as estimativas são de que 26 milhões de hectares de terras no mundo estejam plantadas com cana, milho ou outro produto usado para a produção de etanol", disse.

No dia 25, Ziegler apresenta à Assembléia Geral da ONU sua avaliação sobre o etanol e uma votação sobre o documento poderá ocorrer. Além disso, o relator quer que o tema seja alvo da atenção mundial no próximo dia 16, quando a ONU comemora o dia internacional do direito à alimentação.

"O etanol não gerou desenvolvimento no Brasil nos últimos 30 anos", afirmou. O governo já havia respondido às acusações, alegando que a tese de Ziegler não era correta. "Eu insisto: o etanol gera menos postos de trabalho que a agricultura familiar. Em um país que precisa desesperadamente criar empregos, portanto, o etanol não é a saída. Estamos criando um desastre com o oceano verde de cana que está sendo plantado no Brasil", afirmou.

O problema, segundo ele, é que essas terras deveriam ser usadas para a produção de alimentos, hoje encarecidos supostamente por conta da inflação gerada pelo etanol. "O que vemos é a possibilidade de que a fome em muitas regiões seja agravada", disse.

A idéia de Ziegler é que, com uma moratória de cinco anos, a área plantada com alimentos não seja afetada e que, durante esse período, uma segunda geração de biocombustíveis seja criado. Segundo Ziegler, o número de famintos hoje no mundo chega a 854 milhões de pessoas. "Vinte e quatro mil pessoas morrem por dia", afirma.

DISCUSSÃO

A polêmica sobre o plantio de cana na Amazônia ou no entorno da floresta crescerá ainda mais nos próximos meses, principalmente no Brasil. O governo federal decidiu criar um macrozoneamento agroecológico no País. O trabalho já começou e entre as missões está a de definir onde e qual a finalidade da produção de cana que ocupará a região amazônica.

Em reportagem no último fim de semana, o Estado mostrou que o plantio de cana já ocupa área de floresta no Estado do Amazonas. Apesar da pequena produção, o projeto financiado pela Coca-Cola - que compra parte da produção de açúcar do projeto Jayoro - tem conseguido alcançar sustentabilidade econômica. O governo diz que terá uma definição sobre a cana na Amazônia no segundo semestre de 2008.

OESP, 12/10/2007, Economia, p. B18

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