Valor Econômico, Internacional, p. A13
19 de Nov de 2013
ONU pede que países deixem a maioria do carvão no solo
COP-19 Combustível é grande emissor de CO2; uso continua crescendo
Daniela Chiaretti
De Varsóvia
Às 16h já é noite em Varsóvia, a capital da Polônia. Os termômetros marcam 4oC. As luzes da cidade, de 1,8 milhão de habitantes, estão todas acesas. O aquecimento de escritórios e casas já está ligado, a um mês do início do inverno. A Polônia funciona a carvão. Mais de 88% da eletricidade do país vêm dos combustíveis fósseis que mais emitem gases-estufa. Ontem o país viveu intensamente a contradição de abrigar a edição deste ano da conferência do clima da ONU e, a 3 km de distância, sediar o maior evento do ano da Associação Mundial da Indústria do Carvão.
Pela manhã, alpinistas do Greenpeace escalaram o prédio do Ministério da Economia, numa das praças centrais de Varsóvia. Penduraram uma faixa branca e vermelha, as cores do país, com a frase "Quem governa a Polônia? A indústria do carvão ou o povo?". Faziam referência a uma pesquisa recentemente divulgada onde a maioria da população se mostrou favorável a maiores investimentos em energias renováveis.
Bem perto dali, 27 cientistas do mundo todo (inclusive dois brasileiros) divulgavam um relatório onde refutam o discurso do setor de que há uma solução tecnológica de "alta eficiência" que produz baixa emissão de carbono na queima do carvão. "Não existe 'carvão verde'", disse o holandês Bert Metz, da European Climate Foundation.
Segundo o estudo, usinas a carvão sem controle de emissões (a tecnologia conhecida por CCS, ou captura e armazenamento de carbono) "não são compatíveis com manter o aquecimento global no limite de 2o C". Os CCS não são tecnologias ainda disponíveis comercialmente. Mesmo a mais eficiente usina a carvão emite mais de 15 vezes a quantidade de CO2 por unidade de eletricidade comparada aos sistemas de energia renovável, e mais de duas vezes o volume de usinas a gás, diz o estudo.
Nas contas dos cientistas do IPCC, o braço científico da ONU, para o aquecimento ficar no limite dos 2oC até o fim do século, o planeta poderia emitir 1.050 bilhões de toneladas (Gt) de CO2. Mas já foram emitidas 515 Gt. Por outro lado, as reservas conhecidas de combustíveis fósseis emitiriam 3.863 Gt CO2. Desse total, o carvão representa 2.191 Gt CO2, petróleo, 982 Gt CO2 e gás, 690 Gt CO2. Para o carvão, dizem os cientistas, há alternativas. Mas para os combustíveis fósseis líquidos utilizados na aviação, no transporte marítimo e de carga, não há opções disponíveis.
"Deixem a maioria das reservas existentes no solo", recomendou Christiana Figueres, a secretária-executiva da convenção sobre mudança do clima das Nações Unidas, na abertura do evento da indústria do carvão, o International Coal and Climate Summit. O encontro foi alvo de críticas antes de começar, assim como a presença da representante da ONU.
"Deixe-me ser clara sobre a minha participação neste evento hoje. Não é nem um apoio tácito ao uso de carvão nem um pedido para seu imediato desaparecimento", disse a mais alta autoridade da ONU em mudança climática presente em Varsóvia. "Estou aqui para dizer que o carvão precisa mudar rápida e dramaticamente, para o bem de todos."
Figueres lembrou que bancos de desenvolvimento estão deixando de financiar usinas a carvão sem controle de emissão e que as instituições financeiras estão analisando os impactos do setor em suas estratégias de investimento. "Esse é um negócio de risco", resumiu. O caminho do setor para o futuro "não é um caminho fácil, mas é necessário".
A Agência Internacional de Energia, em estudo recente, indicou que dois terços das reservas comprovadas de carvão têm que permanecer no solo se o que se quer é ter alguma chance de manter o aquecimento global abaixo dos 2o C ao longo deste século.
Valor Econômico, 19/11/2013, Internacional, p. A13
http://www.valor.com.br/internacional/3342874/onu-pede-que-paises-deixe…
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