O Globo, Ciência, p. 38
24 de Nov de 2011
ONU defende meta otimista para clima
Relatório apresenta medidas factíveis para que aumento da temperatura global seja limitado a 2o C até 2050
Renato Grandelle
renato.grandelle@oglobo.com.br
RIO - Mesmo fora da facção pessimista, não faltam cientistas que considerem impossível limitar o aumento da temperatura global em 2 graus Celsius até 2050. Mas não para o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Um novo estudo divulgado ontem revisou uma série de cenários climáticos para que a meta perseguida pela diplomacia volte à mesa de negociações.
A data da publicação do estudo é estratégica: apenas cinco dias antes do início da próxima Conferência do Clima, em Durban, na África do Sul. A COP 17, como é conhecida, ocorrerá em meio a um sentimento de desesperança. O impasse diplomático entre países ricos e em desenvolvimento, assim como a crise econômica, impede que os climatologistas sonhem com um fundo monetário global, incentivando políticas como a troca de combustíveis fósseis por outros alternativos.
- Há medidas que podem ser tomadas para reduzir a distância entre onde estamos hoje e onde precisamos estar para limitar as mudanças climáticas perigosas - avaliou ao GLOBO Kelly Levin, uma das autoras do relatório e pesquisadora do Instituto de Recursos Mundiais, especializada em aquecimento global (WRI, na sigla em inglês). - Durban apresenta a melhor oportunidade para apresentá-las.
Além de Kelly, outros 54 cientistas de 15 países debruçaram-se sobre os prognósticos já traçados. E, embora tenham conseguido apontar saídas para o clima global, o caminho para elas é mais complicado do que se pensava. Antes, o cenário mais otimista previa que, em 2020, estaríamos emitindo 5 gigatoneladas de CO2. Hoje, já se admite que serão, pelo menos, 6 gigatoneladas.
Sem quaisquer esforços adicionais aos já feitos atualmente, este índice vai dobrar: em 2020, liberaríamos 12 gigatoneladas de CO2 na atmosfera. Não há como impedir o caos sem coçar o bolso. Cada tonelada de CO2 que se deixa de emitir custa, em média, US$ 34 (ou R$ 63). Este seria o dinheiro aplicado na economia sustentável. Em 2005, segundo o relatório do Pnuma, 18,5% da energia vêm de combustíveis fósseis. Este índice precisa chegar a 28% em 2020.
Diretor da Iniciativa Climática Internacional da WRI, Edward Cameron acredita que Durban terá muitos assuntos pendentes na mesa: a implementação de um financiamento global para os países em desenvolvimento - algo previsto na COP 16, em Cancún -; a revisão do Protocolo de Kioto; e o acerto de um acordo com poder legal que eventualmente o substitua, visto que sua validade termina no fim do próximo ano.
- Os países em desenvolvimento podem ganhar muito com a convenção, se conseguirem o financiamento para mudar sua fonte de energia e uma revisão periódica das emissões de carbono - explicou. - Com este índice sempre atualizado, podem reinjetar urgência no assunto e estabelecer metas ainda mais ambiciosas.
A União Europeia, para Cameron, parece disposta a negociar - até porque sua reputação na diplomacia estaria em jogo. EUA e China, porém, ainda têm um papel enigmático. Ambos, segundo o pesquisador, ressaltariam esforços internos já em andamento para reduzir emissões. Falta saber se a comunidade internacional ficará satisfeita com o discurso dos dois maiores poluidores.
- Não sei o que os outros países dirão sobre isso - admitiu Cameron. - Na verdade, tudo dependerá de como será a primeira semana do encontro. Em Cancún, a boa vontade dos diplomatas evaporou muito rapidamente. Dessa vez, é crucial que todos se mostrem mais flexíveis.
O diretor da WRI corrobora o que mostra a nova papelada do Pnuma: Durban tem, sim, uma mensagem para passar.
- O mercado precisa saber que a mudança do clima é inevitável, mas que ela também abre uma janela de oportunidades - ressaltou. - Não há solução mágica, uma bala de prata. De qualquer forma, não precisamos disso ainda
O Globo, 24/11/2011, Ciência, p. 38
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