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ONU culpa mercado financeiro por alta no preço de commodities

OESP, Economia, p. B8
19 de Set de 2012

ONU culpa mercado financeiro por alta no preço de commodities
Alerta das Nações Unidas é para que os governos e o G-20 intervenham da mesma forma que os BCs em relação ao câmbio

Jamil Chade

Nem safra recorde, seca ou um maior número de chineses consumindo. Os preços de matérias-primas não estão mais sendo definidos nem pela produção nem pela demanda, mas sim pelo mercado financeiro.
O alerta foi feito ontem pela ONU, que culpa especuladores pela volatilidade e pediu que Estados avaliem a possibilidade de intervir, criando taxas e atuando no mercado, da mesma forma que bancos centrais agem para conter a volatilidade de moedas.
Nos últimos dez anos, o volume de dinheiro usado em fundos de commodities no mercado financeiro passou de US$ 10 bilhões para mais de US$ 450 bilhões. Se não bastasse, parte do dinheiro injetado pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e pelo Banco Central Europeu (BCE) para recuperar economias está indo para apostas em matérias-primas.
Para o economista-chefe da Conferência da ONU para Comércio e Desenvolvimento, (Unctad), Heiner Flassbeck, a entrada de hedge funds, investidores e outros atores no mercado de commodities impede hoje até mesmo que países como a Arábia Saudita possam ter qualquer tipo de controle sobre o mercado do petróleo.
"Nem a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) consegue mais fazer frente aos mercados. Existem muitas pessoas que ainda negam que seja o mercado financeiro que domina os preços. Mas essa é a mais dura realidade", disse Flassbeck. "Hoje, preços não estão relacionados nem com produção nem consumo. Não culpe o mercado físico pela volatilidade. Apenas o mercado financeiro, que domina", insistiu.
A entidade estima que o preço de uma cabeça de gado está relacionado com a flutuação do índice S&P 500. Outra prova disso seria o fato de o preço do barril do petróleo continuar em alta, mesmo com os indícios de forte desaceleração na economia mundial. O volume de derivativos comercializados já é 20 ou 30 vezes o tamanho da produção física.
Governos estão pressionados a agir, diante da alta nos preços de energia e alimentos. Nesta semana, o governo francês acertou a convocação de uma reunião de emergência do G-20 em outubro para lidar com a nova alta nos alimentos. José Graziano, diretor da FAO, se reuniu com o presidente da França, François Hollande, em Paris, na segunda-feira, para acertar os detalhes.
Show. Mas Flassbeck acusa governos como o dos Estados Unidos e o da França de terem apenas feito show ao anunciar que poderiam usar suas reservas estratégicas de grãos. "Isso é só para dizer que estão fazendo algo. Não é política de verdade." Ele também acusa o G-20 de ter feito pouco para lidar com esse problema. "Eles apenas adicionaram medidas de transparência no mercado. Isso não é nada."
Para Flassbeck, a única forma de solucionar essa realidade é criar regras para a atuação do mercado, evitando bolhas e seus estouros. Há dois dias, o preço do barril do petróleo caiu US$ 4 sem nenhum motivo relacionado com a produção. Só em maio, US$ 8,2 bilhões deixaram o setor de commodities, levados pelas preocupações do mercado financeiro com as bolsas na Europa.
Alvo
"Hoje, preços não estão relacionados nem com produção nem consumo. Não culpe o mercado físico pela volatilidade. Apenas com o mercado financeiro, que domina." Heiner Flassbeck, economista-chefe da UNCTAD.

OESP, 19/09/2012, Economia, p. B8

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