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ONU compara omissão a crime

CB, Mundo, p. 27
13 de Nov de 2007

ONU compara omissão a crime
Representante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas afirma que ignorar fenômeno é ato "criminoso e irresponsável". Autores do quarto relatório do IPCC adiantam as conclusões

Rodrigo Craveiro
Da equipe do Correio

O primeiro dia da 27ª reunião do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) em Valência, na Espanha, foi marcado pela polêmica. O secretário-executivo da Convenção Marco da ONU sobre Mudanças Climáticas, Yvo de Boer, afirmou que é "criminoso e irresponsável" não tomar medidas para deter o aquecimento global. "Não reconhecer a urgência do fenômeno e a necessidade de atuar seria pouco menos que criminoso e irresponsável, já que constituiria um ataque direto contra os mais pobres dentre os mais pobres", alertou. A cinco dias da divulgação do quarto relatório da entidade, a declaração repercutiu fortemente entre os próprios autores do documento.

Em entrevista ao Correio, o meteorologista americano Michael Mann - professor da Penn State University - diz se sentir "pouco confortável" com o uso da palavra "criminoso". "Creio que uma avaliação honesta das projeções de modelos indica que a queima acelerada de combustíveis fósseis durante o século levará a mudanças climáticas irreversíveis, como o derretimento dos icebergs e o aumento do nível do mar, com alto custo para a infra-estrutura humana e o meio ambiente", prevê. Os cientistas afirmam que o "ponto sem retorno" é um aumento de dois graus Celsius na temperatura do planeta. "Diante da lenta resposta da natureza à elevação das emissões dos gases de efeito estufa, podemos atravessar décadas de aquecimento e séculos de aumento do nível do mar. É um problema com uma pena pesada pela procrastinação."

Também autora do quarto relatório do IPCC, Elizabeth Malone, cientista do Joint Global Change Research Institute - com sede em College Park, no estado de Maryland -, concorda com o colega. "Ao falar em ato criminoso, creio que De Boer se expressava retoricamente, já que a ONU não tem qualquer poder para julgar ou culpar alguém por inação", comenta. "Mas eu não concordo com tais pronunciamentos extremos, ainda que a mudança climática seja um assunto muito sério, que requer medidas nacionais, internacionais e estaduais."

Evidências
Malone antecipou algumas conclusões do novo documento do IPCC. Segundo ela, o texto trará mais provas de que o clima está em transformação e que os impactos começam a ser sentidos nas regiões polares, nas montanhas (neve em menor quantidade), em áreas secas (estiagens prolongadas e incêndios devastadores) e em locais propensos a tempestades, que se tornarão mais severas. O relatório vai sustentar que a adaptação ao fenômeno é necessária e deve propor mudanças tecnológicas e comportamentais, em larga escala, para mitigá-lo.

A abertura da plenária do IPCC contou com a participação do ex-vice-presidente norte-americano Al Gore, que dividiu com o painel o Prêmio Nobel da Paz deste ano. Em seu discurso, o indiano Rajendra Pachauri, presidente do IPCC, afirmou que o encontro em Valência marcará um ponto de partida sobre os futuros trabalhos da entidade ligada às Nações Unidas. Ele manifestou o desejo de que o quarto relatório represente "excelência da ciência" e "relevância para a tomada de decisões políticas".

CB, 13/11/2007, Mundo, p. 27

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