O Globo, Ciência, p. 53
18 de Nov de 2007
ONU: aquecimento global sufoca a Amazônia
Secretário-geral diz que tesouros da Terra estão ameaçados e frisa que governos têm como evitar desastre
As alterações pelas quais passarão a Amazônia são assustadoras, disse ontem o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, ao apresentar oficialmente o relatório-síntese preparado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC, na sigla em inglês). O relatório, cujo conteúdo acabou sendo conhecido na sexta-feira, não inclui a Amazônia entre as áreas onde já existem sinais evidentes do impacto das mudanças climáticas. Mas Ban a mencionou entre "os tesouros da Terra" gravemente ameaçados.
- As mudanças na Antártica, em Torres del Paine (Chile) e na Amazônia são tão aterrorizantes quanto as de filmes de ficção científica.
Mas são ainda piores porque são reais - disse ele, na cerimônia de encerramento da reunião do IPCC, em Valência, na Espanha.
Ban esteve semana passada na Amazônia brasileira e disse que testemunhou como a floresta corre perigo.
- Vi como a floresta está sendo sufocada. O Brasil está fazendo avanços sérios no combate ao desmatamento.
Mas o aquecimento global mina esses esforços. Se a previsão mais forte do IPCC se tornar realidade, grande parte da selva amazônica se transformará em savana - afirmou.
Documento será base para negociação mundial
O texto do IPCC diz que até meados deste século "aumentos de temperatura associados à redução do nível da água no solo devem ocasionar uma substituição gradual da floresta tropical por cerrado no leste da Amazônia".
Segundo fontes do próprio IPCC, o texto aprovado ontem teve trechos atenuados por pressões de governos. Isso porque ele servirá de base para as negociações da Conferência sobre Mudanças Climáticas da ONU, em dezembro, em Bali, na Indonésia. Na conferência, ministros do meio ambiente de todo o mundo negociarão o acordo que substituirá o Acordo de Kioto, considerado fraco e que vigorará apenas até 2012.
O IPCC declarou que as mudanças climáticas são "inequívocas" e terão impactos "abruptos" e "irreversíveis".
Como no primeiro relatório, apresentado em fevereiro, este diz que as emissões de gases do efeito estufa promovidas pelas atividades humanas têm 90% de chance de ser a principal causa das alterações no clima mundial.
O texto descarta o papel de fenômenos naturais, como erupções vulcânicas e atividade solar. De acordo com o IPCC, em vez de aquecer a Terra, como dizem alguns céticos, esses fatores deveriam ter resfriado o planeta e isso não aconteceu.
O relatório considera "muito provável" que áreas semi-áridas como o sertão nordestino terão sua situação agravada. Como uma grande parte da África, o Nordeste do Brasil é uma das áreas que mais devem sofrer com as conseqüências do aquecimento global.
Chegou a hora de os políticos agirem
Ban reforçou a declaração formal do IPCC de que os governos do mundo têm condições reais e viáveis de combater o aquecimento global.
- Hoje os cientistas falaram claramente e com uma só voz. Em Bali, eu espero que os políticos façam o mesmo - afirmou o secretário-geral da ONU.
O que afirma o IPCC
Certezas: O aquecimento da Terra é inequívoco. As temperaturas do mar e do ar subiram. E a elevação de temperatura é generalizada por todo o planeta. Porém, a terra esquenta mais do que os oceanos. Gelo e neve derretem nos dois hemisférios. O nível do mar sobe globalmente e a elevação dos oceanos se acentuou a partir de 1985. A Terra mais quente tem também mais chuva. Segundo o IPCC, de 1900 a 2005, choveu mais no leste das Américas do Norte e do Sul, no norte da Europa e no norte e no centro da Ásia. Nos últimos 50 anos, os dias e noites frios se tornaram menos freqüentes do que os dias e noites quentes. Além disso, a primavera tem começado mais cedo, com conseqüências para numerosos ecossistemas.
Futuro: O IPCC considera provável que as ondas de calor e as chuvas extremas se tornem mais comuns.
O Homem: O IPCC considera "muito provável" que a ação humana tenha contribuído para a elevação do nível do mar ao longo do século XX. Provavelmente, o o homem foi responsável por mudanças no padrão dos ventos, com conseqüências para a formação de tempestades extratropicais e alteração de padrões de temperatura. E também está por trás do aumento da freqüência de dias e noites mais quentes.
Mediterrâneo se transforma em zona morta
Emily Dugan Do Independent
O Mediterrâneo está se transformando num cemitério marinho, com mais de 40% de suas populações de tubarões e arraias sob ameaça. O mar tem o maior número de espécies de tubarão e arraias ameaçados do mundo, segundo um relatório da União Mundial pela Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês). A dramática redução dessas populações está relacionada à pesca excessiva, degradação do habitat e a outras perturbações causadas pelo homem.
O documento que ilustra de forma trágica como a ação do homem tem um impacto direto sobre a vida marinha foi divulgado no mesmo dia em que o IPCC apresentou o seu documento definitivo.
- As populações dessas espécies vulneráveis estão em graves apuros no Mediterrâneo - afirmou Claudine Gibson, do grupo de especialistas em tubarões da IUCN e co-autora do estudo. - Nossas análises revelam que o Mediterrâneo é um dos lugares mais perigosos do mundo para tubarões e arraias. Espécies que vivem junto ao fundo parecem também estar especialmente ameaçadas nessa área.
Ao todo, 71 espécies de tubarões, arraias e quimeras (peixes que vivem junto ao leito do mar) foram analisadas no estudo.
O Globo, 18/11/2007, Ciência, p. 53
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